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Archive for the ‘ensaios’ Category

Por Edson Struminski (Du Bois)

Tive a oportunidade de participar da maioria dos eventos que aconteceram na Primeira Semana Brasileira de Montanhismo, entre os dias 23 de abril e primeiro de maio deste ano e que unificaram uma série de atividades que já acontecem no Rio de Janeiro regulamente, como o Encontro de Parques de Montanha e a Abertura da Temporada do Montanhismo, além de incluírem um Ciclo de Palestras de atletas e montanhistas, apresentações do Cine Montanha na Praça e o Encontro Científico sobre Uso e Conservação de Montanhas.

O Encontro Científico foi o que me trouxe maior retorno pessoal, pois eu tive uma certa participação na organização, além de ter apresentado uma conferência que apresenta dados elucidativos sobre as pesquisas desenvolvidas no Brasil. Também tive a oportunidade de conviver com grande número de especialistas que desenvolvem atividades nesta área e que finalmente, tiveram oportunidade de vislumbrar uma identidade comum de “pesquisadores de ambientes de montanha”, nas mais diferentes áreas de conhecimento. Mas este é um assunto sobre o qual escreverei algo em outro artigo.

Pessoalmente (como montanhista) considero que dentre os diferentes eventos que aconteceram nesta semana, o mais emblemático foi o Congresso Brasileiro de Montanhismo e Escalada, que transitou em meio à vasta programação desta semana. Este congresso aconteceu na sua segunda edição, após o inacreditável período de quase 20 anos desde sua primeira realização em Curitiba, em 1993. Ele acabou sintetizando muitas das preocupações, anseios, ganhos e dificuldades com as quais o montanhismo convive atualmente.

A busca pela identidade do montanhismo….,

Apesar da grande presença de montanhistas veteranos presentes, alguns até devidamente homenageados neste evento, eu me vi em certos momentos, como o único representante do congresso ocorrido em 1993. Isto me levou a fazer uma reflexão sobre o que tinha acontecido naquele distante evento. Após conversar com várias pessoas, também fui induzido a iniciar uma reflexão similar em relação a este evento que estava presenciando em 2012. E é sobre tudo isto que vou escrever agora.

A ascensão de montanhas aconteceu em diferentes localidades do país por motivações diversas. Provavelmente no século XIX algumas montanhas já tinham sido subidas por mero interesse esportivo. No século XX o montanhismo incorporou a escalada em rocha como mais uma modalidade a ser praticada pelas pessoas que, a partir de então, passaram a fazer parte de clubes e associações de montanhistas. Há também o registro de intercâmbio de pessoas que escalavam em diferentes estados brasileiros e nos boletins redigidos por estes clubes transparece uma apresentação de valores éticos. Até os anos 1960 a combinação de ética mais tecnologia permitiu que vias fossem abertas em chaminés, fendas ou em artificiais fixos. A partir dos anos 1980, novas técnicas e tecnologias, permitiram que começasse a ser abolida a abertura de escaladas em artificiais fixos. As novas vias começaram a ser realizadas em livre e até mesmo sem colocação de grampos fixos (escalada limpa).

Em 1993 já estavam definidas, então, a escalada livre e limpa como novos paradigmas para o montanhismo brasileiro. Com isto o esporte buscou uma linguagem que pudesse ser comum, uma identidade nacional, algo que fosse além das conquistas, dificuldades ou peculiaridades regionais. Algo que fosse além de colocar um grampo “com olhete para cima ou para baixo”. Este “algo além” era um discurso único, uma linguagem comum, como falei (mas não hegemônica) para o montanhismo.

Este linguagem comum foi sintetizada em um código de ética que apresentava o montanhismo como um esporte, que possui valores humanistas e naturalistas, que valoriza a história, preza pela integridade individual do escalador, enfatiza direitos e deveres do montanhista com relação aos seus pares e com respeito ao meio ambiente da montanha. É um código que possui o mérito de permitir mudanças nele mesmo quando for necessário. É bem escrito, e pôde ser, portanto aplicado a qualquer região do país (1).

Este foi o legado do I Congresso Brasileiro de Montanhismo, a possibilidade de nos vermos não apenas como montanhistas gaúchos, cariocas, paranaenses, mas sim brasileiros.

A perda (e quem sabe) recuperação de espaços

Agora estamos em 2012. O esporte está organizado em clubes e federações. Há empresas de equipamentos nacionais, material importado em grande quantidade, atletas profissionais em campeonatos, guias profissionais, pesquisa em ambientes de montanha, escaladores de nível internacional brasileiros, escaladas sendo abertas nos limites do Brasil, no nordeste, Rio Grande do Sul, Amazônia. Escaladores surgindo e se organizando nos mais diferentes rincões do Brasil. A escalada se interiorizando pelo país, mas sem perder a referência dos grandes centros. Pelo menos é o que vemos na semana de montanhismo no Rio.

Mesmo ocorrendo conflitos, não resta dúvida de que a ética brasileira segue os preceitos ditados em 1993. A escalada e o montanhismo praticados no Brasil continuam valorizando predominantemente a integridade do escalador, a experiência no meio natural da montanha, a escalada livre e natural. Mesmo a escalada desportiva, que surgiu em meados dos anos 1990 com os muros, campeonatos e vias super grampeadas, não chegou a alterar substancialmente a essência do montanhismo e indiretamente auxiliou no aumento do grau de dificuldade das vias novas.

Então já não é mais uma linguagem comum ou qualquer mudança substancial do código de ética que se discute. Não se apresenta um novo paradigma para o esporte e sim a constatação da perda do espaço.

Acesso livre, direito ao risco, direito à autonomia (não pagamento de guias), disputa com setores ligados ao meio ambiente e turismo por espaços físicos nas montanhas e atribuições legais e profissionais. O que significa tudo isto?

Inicialmente é preciso que se diga que este é um discurso de valorização de um ideal liberal que fundamenta a filosofia do esporte.  A ideia do livre arbítrio, da liberdade de ir e vir, do livre exercício profissional. Mas também é um discurso conservador. O livre acesso aos lugares não é exatamente para todos e sim para uma elite montanhística que tem capacidade de acessar ambientes naturais com “mínimo impacto”. Há privilégios e reservas de mercados em jogo para um grupo a ser credenciado por entidades do turismo de aventura ou do montanhismo.

No meu entender isto significa que o montanhismo amadureceu, profissionalizou-se em alguns setores, mas ainda não atingiu o grau de organização suficiente para se fazer representar (às vezes se impor), frente a setores que tem importância ou capacidade de afetar o esporte. Também significa que o montanhista está mais interessado em garantir conquistas ou espaços perdidos ou em vias de perder por pressões diversas.

É por isto que o turismo de aventura configurou-se como o principal setor a ameaçar a tão decantada autonomia do montanhista (ou a sua autonomia profissional), através da imposição de normas estranhas ao esporte via ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e legislações estaduais, o que provocou uma reação irada em vários pontos do país e que o congresso de 2012 acabou catalisando, muito embora, deva se dizer, que a criação de normas com padrão da ABNT poderiam ganhar respaldo internacional, pois a ABNT é a representante nacional do sistema ISO que é uma entidade internacional que produz padrões de normatização da qualidade que tem validade internacional, como a série ISO 9000, por exemplo.

Entretanto a criação de normas ABNT para o montanhismo via entidades de turismo de aventura foi visto como uma ameaça, com isto, um mínimo de reação foi obtida e na avaliação do pessoal da CBME e de algumas federações presentes, algumas batalhas já foram ganhas, restando outras menores, além de surgir o intenção de elaboração de um Sistema de Qualidade para o Montanhismo, desta vez elaborado a partir das instituições que formam o esporte.

Meio ambiente é outro setor que afeta a autonomia do montanhista, segundo o parecer dos congressistas, através da restrição de acesso aos lugares de escalada, particularmente aqueles situados em unidades de conservação como parques e monumentos naturais, que tem acesso público permitido apenas em alguns pontos. Mas neste sentido o diálogo tem sido mais produtivo e foi tema do Encontro de Gestores de Parques em Montanhas, que já está na sua segunda edição e contou com participantes de vários lugares do país. De modo geral parece haver um consenso de que montanhistas são participantes ativos na conservação dos parques, ou que pelo menos, o acesso pode ser negociado.

O problema do acesso me pareceu particularmente acirrado no caso do Rio de Janeiro, pelo número maior de escaladores que procuram locais montanhosos, formalidades que impedem o acesso ou pelo custo de acesso excessivo. No Rio importantes UCs são federais, diferente do caso paranaense, onde me parece haver uma maior interação entre montanhistas e gestores, pois o histórico dos parques de montanha no Paraná, a maioria estaduais, mostra uma maior participação de montanhistas na criação destas unidades, dos seus planos de manejo, ou mesmo da sua gestão. No caso de Minas Gerais aparecem problemas de acesso em propriedades privadas. Para todos os casos uma receita básica me pareceu o fortalecimento das associações locais de escaladores e sua capacitação para enfrentar os problemas.

Síntese e sugestões para um novo congresso

Me pareceu consensual de que um novo congresso de montanhismo deve ocorrer em um prazo sensivelmente menor do que os quase 20 anos que separaram o primeiro do segundo evento. Obviamente o pessoal que organizou o congresso no Rio seguramente deu o sangue para este evento maravilhoso acontecer e já tem experiência para um novo encontro. Porém me parece que este terceiro encontro deve se ocupar de questões mais profundas do esporte e não apenas de tentar assegurar o que já deveria estar assegurado, algo que aconteceu exatamente por falta de maior diálogo e auxílio mútuo e troca de experiências entre as entidades e personalidades que fazem o montanhismo.

Infelizmente muitas pessoas com quem eu conversei se negaram a participar do evento em função de questões menores, às vezes até individuais, perdendo, desta forma, a oportunidade de contribuir para a melhor organização do evento e para a redução da carga dos organizadores.

Então é importante enfatizar que as discussões sobre liberdade de acesso e direito ao risco reafirmaram o caráter liberal e de auto conhecimento individual do nosso esporte. São preceitos caros ao montanhismo e fazem parte do Código de 1993. São preceitos caros a mim também. Parte significativa da minha trajetória como montanhista se baseou neles, mas….

Mas me parece que o grande desafio do montanhismo, a partir de agora, é assumir a parcela que lhe cabe como movimento social organizado, tornando-se uma atividade que produza um retorno mais amplo para a sociedade brasileira, como já aconteceu aliás em alguns períodos históricos em nosso país. Embora eu entenda a necessidade de consolidar o respeito a valores individuais presentes no esporte, sejam profissionais ou amadores, ainda espero que a educação, a ampliação social da base do esporte, os retornos ambientais, o espírito de grupo, venham a ser alguns dos temas que venham a ser tratados com mais regularidade ou mesmo prioridade nos próximos encontros.

Veja ainda

(1) http://pesquisaemmontanha.wordpress.com/2011/08/16/codigo-de-etica-do-primeiro-congresso-de-montanhismo-1993/

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Pedras soltas!

Por Edson Struminski (Du Bois)

A cidade de Curitiba é cercada por montanhas e escarpas em várias direções. Granito, arenito, migmatito, calcário, entre outras rochas, formam paredes, rampas e negativos que permitem aos escaladores curitibanos usufruírem de grande variedade de opções de escalada.

Entre as diversas áreas de escalada que existem nesta região, me adaptei particularmente às montanhas de granito na porção da Serra do Mar paranaense, a leste de Curitiba, onde fiz minha vida de montanhista e há uns dez anos ou mais frequento também uma curiosa pedreira de xisto na porção oeste de Curitiba, da qual já falei aqui, a “Mundo da Fantasia”, um local abandonado em forma de concha onde surgiu um lago e espécies de árvores domésticas como o Pinus se tornaram estranhamente “selvagens”.

É muito raro aparecer algum escalador neste lugar. Imagino que os motivos sejam o aspecto pouco “amistoso” das paredes, muito verticais e a sensação de insegurança que ela produz por conta da enorme quantidade de pedras soltas que ainda possui em algumas das suas paredes.

Eu convivo com isto e aprendi a evitar os setores mais perigosos desta pedreira. Em troca, tenho usufruído de espetaculares momentos de escalada em solitário.

Só que isto não me poupa de sustos. Não é incomum encontrar um teto que caiu de um mês para outro, trechos inteiros que desmoronam, agarras que quebram, pedras soltas. Em uma das minhas últimas investidas nestas paredes, além de encontrar um novo acúmulo de grandes lascas de pedras em um platô, ainda tive sorte, escapei de uma agarra que quebrou e passou a poucos centímetros do meu rosto…

Estas pedras podem provocar um desmoronamento, uma queda, romper uma corda, atingir pessoas.

Na verdade pedras soltas fazem parte da minha vida de escalador desde meus primeiros dias de escalada. Já na primeira via que abri encontrei um pequeno trecho com pedras soltas que tive de driblar.  Com o passar dos anos assisti pessoas que sofreram acidentes graves com pedras soltas, também eu já fui atingido por uma destas uma vez, longe, muito longe de casa…, parece uma coisa irreal: você em um cenário de sonho e machucado por uma pedra que caiu. Em uma outra ocasião, já no fim da via, já sem corda, no acampamento de cume, já sem riscos, a não por ser uma pedra solta na beira da parede… Cada vez que eu lembro destas pedras soltas na minha vida é como se um filme em câmera lenta passasse na minha cabeça. Uma delas, de fato foi assim. Havia feito uma cordada em solitário, fiz o rapel até o início da parede e estava jumariando para a parada na parede, quando uma pedra solta, uma TV de 21 polegadas, lentamente começou a se deslocar na minha direção. Esperei ela chegar no limite e me empurrei para fora da parede, puxando a corda ao mesmo tempo. Lá se foi ela abaixo com um estrondo.

De nada vale uma bela sequencia de movimentos se a agarra que você segura é uma pedra solta. Se aquele bloco enorme em que você se apoiou, na verdade, estava apenas fragilmente apoiado e se movimentou com seu peso.  Elas não respeitam o nível técnico do escalador, os melhores e os piores podem ser vítimas dos seus caprichos. Elas representam, então, uma ruptura na ordem racional de uma escalada. Nada te prepara para elas. Elas nos colocam em um dilema: o que fazer? Colocá-las de lado? Jogá-las para baixo e arriscar atingir a corda ou alguém? Ignorar-las e talvez provocar uma queda não programada?  O que fazer, então, quando nem tempo temos de raciocinar, quando não podemos decidir nada e estamos à mercê dos acontecimentos, de uma pedra rolando junto com você ladeira abaixo?

Este tipo de dilema que a natureza nos coloca me mostrou, desde o início, que a escalada não era realmente um esporte convencional, que o risco era muito maior que aquele que eu poderia encontrar nos esportes comuns, que havia possibilidades de acidentes graves, risco de vida.

As pedras soltas nos tiram da zona de conforto e nos confrontam com a possibilidade da insegurança na escalada. Elas nos obrigam a pensar se é aquilo mesmo que queremos continuar fazendo, pois a dor que elas provocam, quando somos atingidos, pode até passar, mas não pode ser esquecida, pois é uma experiência única.

Então, novamente podemos fazer uma analogia da experiência da escalada com a vida. Na vida também, muitas vezes, seguramos em pedras soltas, que nos derrubam e nos machucam e mesmo assim continuamos, temos de continuar e, talvez por isto, por este motivo é que a escalada segue sendo uma atividade tão fascinante, tão difícil de abandonar, pois nos ensina a continuar em frente, mesmo com ilusões: agarras falsas e pedras soltas.

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Nossa sombra, na lua…

Por Edson Struminski (Du Bois) 

Mais uma vez “eu clips”, diz a Lua. Um aluno aqui da geografia da UEPG me perguntou se “o clips da Lua era quando que o sol entrava entre a Terra e a Lua e não dava para a ver a lua…”

Nada tão sensacional ou caliente assim. Na verdade é uma coisa mais doméstica, entre nós e nosso, por assim dizer, satelitezinho, uma sombrinha que fazemos nele. O Sol se chegasse perto derreteria tudo. Então esta nossa sombra faz com que não dê para ver a Lua por alguns minutos.

Mais é um evento meio raro a clips, como Olimpíadas, outra só daqui a quatro anos, então eu resolvi dar uma chance a clips e fui vê-la ontem, 15 de junho de 2011, longe das city lights de Ponta Grossa, lá no morrinho que vai para a represa dos alagados, um descampado pedregoso, definição estranha,  pois descampado deveria ser ausência de campo e no entanto, o que me atrai ali é justamente o fato de ter um campo aberto, com afloramentos de arenito, rochas para saltitar, local simpático para namorar, andar pelos campos, apreciar a paisagem, ficar sozinho, ver clips e como eu já tinha exercitado as tres primeiras atividades, ficaram os outros dois pogramas para conferir. Pogramão a tal clips.

Bem, então eu vi a clips da Lua. Inverno, noite fria e clara nestes descampados. A Lua aparecendo apagada, sem graça e, aos poucos se livrando das sombras da Terra, iluminando-se.

Me dei conta, então, de que, naquele momento, todo o meu mundo, em um certo sentido, fazia sombra naquele outro mundo. Montanhas, mares e geleiras da Terra, sombreavam a Lua. A grande floresta Amazônica, o deserto do Sahara, a Grande Barreira de Corais da Austrália, a Patagônia com suas montanhas geladas, todas projetadas no corpo celeste vizinho, que aliás continua com o mesmo corpinho de sempre, parece que nem viu o tempo passar.

Então estava tudo lá, as grandes muralhas da China, as pirâmides do Egito, os arranha-céus de Nova Iorque, o Coliseu de Roma, o Cristo Redentor do Rio.

Em um certo sentido, todo o meu mundo material estava ali, projetado no espaço, o mundo das coisas, das coisas naturais, das coisas construídas pelas pessoas.

Estava lá projetando sua sombra agourenta na Lua, a usina de Fukujima, os exércitos chineses no Tibet, as fábricas de agrotóxicos da Monsanto, algum petroleiro em sua última e perigosa viagem pelos mares do mundo.

Na clips da Lua também as pessoas, Obama e seu séquito, Lula de pijama, Justin Bieber, os BBBs, os 410 deputados que votaram a nova lei do desmatamento brasileira…

Minimamente na sombra da Terra que passou pela Lua, o morro Anhangava, onde aprendi a escalar, o Marumbi, onde quase morri, a simpática cachoeira do rio São Jorge em Ponta Grossa, o Salto São João em Prudentópolis, que conheci a pouco tempo e que encheu meus olhos.

Também meu mundinho, minhas coisas, as pessoas que amo, as que já não me interesso, meus desafetos, meus amigos, estavam projetadas na Lua distante. Tudo isto passando de leve pelo astro vizinho, nosso satelitezinho querido do coração. 

Mas nem tudo estava projetado ontem na Lua: o amor do pai pelo filho, o carinho, o bem estar que podemos provocar em alguém que gostamos quando damos um presente inesperado, a música que alegra o coração.

Tampouco as sombrias atitudes humanas apareciam na Lua: a corrupção que usa canais internéticos para engordar contas na Suiça, as intenções ocultas dos deputados motoserras, a prepotência dos ditadores de plantão, o silêncio conivente dos burocratas.

Será que a Lua sentiu um arrepio quando a sombra da Terra passou por ela? Será que ela pensou? “Ufa, anda carregada esta Terra”, ou será que foi? “Acho que ainda tem esperança para ela.

Também estávamos na Lua ontem leitor, eu e você.

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Por Edson Struminski (Du Bois) 

Números redondos são sempre curiosidades, o post de número 100 deste blog, este que vocês estão lendo, coincide com os quatro anos da criação do blog, que aconteceu em junho de 2007.  A cada 12 meses, cerca de 25 textos foram postados, pouco mais de 2 por mês.

Outros números curiosos que coletei foram os de que aconteceram mais de 53 mil visitas a este blog, que recebeu 242 comentários pertinentes aos assuntos que foram publicados, indicando um diálogo em maior ou menor grau com vocês leitores. Hoje a média de acessos está em torno de 36 por dia.

São números discretos. Já ouvi comentários fora do blog que dizem que os montanhistas não são muito intelectualizados e que, portanto, fogem de textos que citam Ítalo Calvino, Foucalt, Morin ou Sérgio Buarque de Holanda. Preferem fotos. Isto não é verdade. Quando os textos são acessíveis às pessoas, eles são simplesmente lidos e apreciados.

Ao longo da vida deste blog foram publicados textos que classifiquei como “aventuras” (7), relatos (33), ensaios (40), entrevista (1), resenhas (2), história ambiental (7) e textos de pesquisas (9). Algumas vezes estas classificações se misturam, pois não há pretensão didática, educadora, na condução destes assuntos. Aliás, em termos mais didáticos, em março de 2009 surgiu o pesquisaemmontanha.wordpress, um filhote que surgiu do blogdodubois e que atualmente conta também com uma média de 30 acessos ao dia e que organiza a pesquisa científica justamente para fins didáticos.

A faceta pedagógica do montanhismo

Os gregos antigos criaram uma palavra de que eu gosto muito e que muito se encaixa na filosofia do montanhismo: paidós (criança) e agogé (condução). Portanto, pedagogia vem do grego e significa conduzir as crianças, mostrar caminhos, ou, em uma livre tradução, mostrar valores, enquanto que a educação visa, muitas vezes, apenas a adequação do indivíduo à sociedade, repassar os valores de uma determinada instituição ou professor.

No montanhismo estamos muitas vezes procurando caminhos, exercitando uma atividade que ultrapassa fronteiras de ideias, comportamento e de ações, uma atividade que não necessariamente se adequa a aquilo que a sociedade pensa ou quer do indivíduo, mesmo as associações de montanhismo.  Por isto o montanhismo pode ser uma atividade muito pedagógica no que diz respeito a fazer com que as pessoas explorem tanto o mundo exterior como seus mundos interiores, que elas cresçam. Já a parte dedicada à educação formal ou informal no montanhismo é relativamente pequena. O auto aprendizado é muito maior.

Desde o início deste blog eu me propus a produzir textos que fizessem as pessoas pensar sobre o montanhismo, sobre as montanhas, sobre si mesmas nas montanhas. Em que medida as pessoas buscam hoje textos para ler e não apenas belas imagens? Textos que questionem quem elas são, suas posturas mais ou menos conservadoras, suas ideias mais ou menos atuais sobre a natureza, sua paixão pelas montanhas ou o mero exercício de um fetiche. Com isto, este blog se propôs a ser mais um espaço pedagógico do que de aprendizado. Há excelentes clubes, cursos e academias para as pessoas aprenderem a escalada e a prática do montanhismo, poucos espaços para elas pensarem sobre isto. Os blogs são ótimos espaços para isto porque permitem que os leitores até mesmo questionem o que eu escrevo e mudem minhas ideias. Por isto persisto, é divertido!

As montanhas e, em particular, a escalada que fazemos em montanhas, podem muitas vezes nos levar a estes questionamentos, pois nem tudo pode ser previsto, calculado ou sair como planejado. Podemos ir em busca da liberdade e acabarmos presos a uma cadeira de rodas. Podemos exaltar a vida e encontrar a morte. A escalada pode ser uma atividade exultante ou sombria, pode reforçar o melhor ou o pior lado das pessoas. Ressaltar o lado mais espiritual ou o material do rapaz ou da moça. Pode transformar um sujeito em um super escalador ou em um rato. Pensando nestes termos, percebi, com o passar do tempo, que algum esforço deveria ser conduzido, em textos que escrevi, para pedagogicamente tentar mostrar para as pessoas que os tabus deveriam ser discutidos, quebrados se fosse o caso. Alguns dos textos mais polêmicos e, talvez, menos compreendidos, que escrevi versaram sobre tabus.

Dias atrás estava escalando em um local novo para mim aqui nos arenitos da região de Ponta Grossa. Uma agarra quebrou e dei um pequeno vôo. Pensei em como tudo me parecia sempre muito difícil neste tipo de rocha, como meu esforço parecia inútil diante das (para mim) dificuldades das vias da região, mas, ao mesmo tempo, no pináculo que eu subia, podia apreciar uma paisagem das mais bonitas, então me esforcei mais um pouco. À noite estive em uma reunião do grupo de escaladores locais. Um deles me falou de uma escalada onde ele havia caído no Anhangava, local que é o quintal da minha casa na montanha e onde aprendi a escalar. Ele ainda almeja fazer esta escalada que para mim é tão banal que já havia passado dezenas de vezes sem corda. A escalada e as montanhas sempre nos trazem este tipo de curiosidade, esta diversidade de percepções sobre o mundo, são muito pedagógicas.

“A escalada pode ser uma atividade muito divertida!” Pensei. “Temos sempre que lembrar as pessoas disto”

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Edson Struminski (Du Bois)

Eu não ia me envolver nas discussões sobre a revisão do Código Florestal, pois elas me lembram da existência dos atrasos que ainda teimam em existir no nosso país, como os  emperros da reforma agrária, os resquícios de escravidão em rincões do país, ou aqueles métodos de exploração da natureza do século XIX que ainda são usados em pleno século XXI, como latifundios pouco produtivos, queimadas, exploração mineral toscas ou fornos de carvão, imagens que se contrapõem ao agronegócio moderno, à tecnologia e a ciência no meio rural, à sustentabilidade ambiental e a um país moderno, enfim.

Como isto são resquícios do passado e a sociedade se democratizou apenas recentemente, é de se esperar que a reforma deste código aconteça, mas ela tem sido marcada por pressões e radicalismos nem sempre produtivos e pelo passado…

Estes temas são sempre cansativos, mas o fato é que, como vocês verão neste artigo, alguns dos principais personagens envolvidos na votação das mudanças nesta lei florestal me trouxeram involuntariamente para este debate, então tornou-se necessário uma apreciação minha sobre este assunto.

Neste momento, maio de 2011, estão ocorrendo vários enfrentamentos para a votação do Código Florestal. Dias em que ambientalistas, ruralistas, cientistas, governistas, oposicionistas, estão todos estressados com a lei mater de nosso meio ambiente e até mesmo fazem barganhas com o futuro do país.

As leis florestais são antigas no Brasil, o termo “madeira de lei” significa isto mesmo, algumas madeiras provenientes de árvores, que por uma lei portuguesa do tempo da colônia, necessitavam de uma espécie de “licença para corte”, pois tinham interesse para a Metrópole portuguesa. Estas leis na colônia tinham o objetivo de conter o contrabando e evitar o desabastecimento de um produto que era considerado estratégico na época, as madeiras de alta qualidade para fins naval e que, portanto, tinham alto valor comercial.

Mas estas leis não foram satisfatórias. No início do século XIX, por conta de um modelo predatório de colonização com mais de 300 anos, já era possível ver o resultado. Cientistas e estadistas como José Bonifácio de Andrada e Silva já notavam que a destruição do meio natural estava gerando repercussões sociais muito amplas, com a desagregação das comunidades, pela desorganização das atividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, com isto a conservação das florestas era um assunto recorrente para ele, que chegou a escrever sobre este tema analisando tanto a situação de Portugal como a brasileira.

Na época da independência do país, ele propôs novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática levaria ainda mais de 100 anos para ter uma chance de acontecer. Ela propunha um discurso novo, de proteção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro, o que passaria pela superação, entre outras coisas, do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e predatório.

Mas com isto ele se chocou diretamente com o pensamento conservador predominante, tanto em Portugal como no Brasil, tendo de enfrentar oposições e resistências a seus projetos, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder conservador da própria monarquia brasileira.

Esta história, que contei aqui de forma reduzida foi publicada com um pouco mais de detalhes em um artigo que publiquei, em 2007, no jornal eletrônico Ciência Hoje, de Portugal (1), a partir de textos do próprio Bonifácio.

Ao longo do tempo outras leis foram surgindo. Cheguei a fazer um apanhado delas no meu primeiro livro: “O que é engenharia florestal” (2).

O fato é que Bonifácio foi derrotado e apenas quando já ia longe a república é que viria uma legislação mais integrada para a área florestal. Em 1934 surgiu uma primeira consolidação de leis florestais dispersas. Foi fruto do esforços de juristas durante o período Vargas.

O Código Florestal da Era Vargas era muito mais uma lei oportunista do que qualquer coisa. Excessivamente liberal, ele corria atrás da oportunidade do surgimento de um mercado para a madeira brasileira, em particular do pinheiro do Paraná e ignorava, ou pior ainda, lamentava, a existência da biodiversidade brasileira, fazendo vista grossa para o desmatamento que já ocorria no país. Mesmo assim ela implantou inovações como parques nacionais e um serviço florestal nacional. Também esta história está contada em um artigo da Ciência Hoje (3).

O fato é que estes artigos da Ciência Hoje de Portugal, que eu classifico como sendo de história ambiental de nosso país tem tido os destinos mais variados. Já vi migrarem para um site de psicologia, de educação, de sociologia, de história ou mesmo para o site da embaixada de Portugal.

Um dos locais para onde artigos meus migraram, como este do código de Vargas, foi o blog de Ciro Siqueira, um engenheiro agrônomo que milita em seu blog para que deixem de existir Reservas Legais em propriedades privadas. Ele costuma juntar argumentos para mostrar que as leis florestais não funcionam, o que é apenas parcialmente verdade, pois praticamente todas foram feitas de forma autoritária e hoje estamos em uma democracia, momento em que as leis tem maiores chances de serem aplicadas e funcionarem.

Infelizmente Ciro parece ser do tipo destemperado, assim algumas das suas opiniões, até razoáveis, pois o código já tem quase 50 anos, são empalidecidas por opiniões destemperadas. Ele costuma escrever coisas do tipo: “os idiotas úteis do ambientalismo cibernético estão hoje alvoroçados com a notícia de que a Academia Brasileira de Ciência (ABCD) e a Sociedade Brasileira para a Preservação dos Paradigmas (SBPC) lançarão em breve um libelo contra a modernização do Código Florestal”. Mas o que se vê no tal relatório destas entidades é o resultado de um debate e até mesmo uma proposta de revisão, com viés científico, mas não estanque.

Com isto, cientistas são para ele: alheios à realidade nacional, já o Conama, Conselho Nacional do Meio Ambiente, aparece como estando impregnado de ambientalistas, já os orgãos ambientais são ridicularizados, até quando fazem justamente o que ele criticava, aplicam a lei. Tudo isto, infelizmente desvaloriza o esforço deste profissional e o coloca em uma posição tão radical quanto os radicais que ele critica.

Finalmente, a posição oficial dele é a de que apenas o Estado deve ser responsável pelas reservas florestais, pois ele considera que a função social da propriedade rural é produzir alimentos. Assim, segundo ele, caso haja propriedades em regiões ecologicamente importantes onde a preservação conflita com a produção (?), não deveriam haver produtores nessa região e o Estado deveria removê-los completamente. Lamentavelmente esta é a principal falha do raciocínio deste autor e a mais danosa ao meio rural. Pois é uma ação extremamente contraditória, custosa e desarticuladora para o meio rural. Imagine-se o ônus (impostos, novo funcionalismo público, estatais) e redirecionamento de recursos com que toda a sociedade, principalmente a que ocupa o meio rural, teria de arcar para atender a esta proposta. O Estado se tornaria imensamente mais invasivo do já é hoje, sem considerar outras formas de desapropriação que já existem e que continuariam a existir (reforma agrária, unidades de conservação, construções de represas, estradas, etc), pois a biodiversidade ambiental do país é imensa e imensos teriam de ser os esforços estatais para preservá-la, no lugar da forma como é hoje, em que o estado preserva algumas áreas e o proprietário privado outras e com isto surgem reservas públicas e privadas e “corredores” entre estas reservas. Enfim, aparentemente sem perceber, Ciro dá um tiro no pé das próprias ideias.

O outro personagem ligado ao debate do código e que usa um texto meu como fonte de inspiração sobre José Bonifácio é o próprio deputado Aldo Rebelo (5), relator do projeto de mudança do Código Florestal. O projeto de Aldo é um grande arrazoado sobre o meio rural, com um tanto de saudosismo sobre o homem do campo, misturado com pitadas de nacionalismo, marxismo e até teoria da conspiração, mas tem poucos fundamentos técnicos para mudanças na lei, daí entende-se a vasta polêmica que suscitou. Ao contrário da visão de estadista de Bonifácio, preocupado com a implantação de uma visão integrada homem-natureza em nosso país, o projeto de Aldo tenta nos ganhar pela visão conservadora, defensiva e muito unilateral do meio rural, o que não seria tão problemático se a sociedade brasileira inteira, aliás o mundo inteiro não fosse afetado pela construção de uma nova lei falha.

A parte mais substancial do relatório de Aldo Rebelo diz respeito a opinião de alguns poucos juristas e cientistas. Ali aparecem ideias pouco exploradas e que deveriam merecer, sim, maiores atenções, como o zoneamento ecológico-econômico e as peculiaridades regionais, o que poderia beneficiar tanto a produção quanto a conservação. Isto simplificaria e tornaria a discussão estritamente com base naquilo que interessa a cada região.

Mas isto não acontece e assim Aldo Rebelo fica longe do estadista José Bonifácio. O seu projeto deseduca, pois os estímulos à conservação e bom uso da natureza do país são pobres em relação aos danos que ficarão com a implantação da nova lei.  Os principais beneficiários, anistiados da lei atual, serão provavelmente os donos de grandes áreas desmatadas, como aquelas que vi na minha última visita à Amazônia (6), ironicamente os personagens que estavam sendo pressionados pelo Estado e pela lei atual e que os partidos com um viés social mais acentuado, como o partido de Aldo, sempre combateram.

 Leia mais em:

 (1)    http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=24048&op=all

(2)    Struminski, E. O que é engenharia florestal. Editora Brasiliense

(3)    http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=22081&op=all

(4)    http://www.codigoflorestal.com/p/posicao-oficial-do-blogger.html

(5)    http://www.aldorebelo.com.br/?pagina=inspiracao&cod_tema=21

(6) https://blogdodubois.wordpress.com/2009/07/09/cartas-amazonicas-3/

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Já tive oportunidade de fazer parte de várias listas de discussão, acadêmicas, de montanhismo, etc, que circulam na internet. De algum modo, me parece, as pessoas tem de estar discutindo o tempo todo, todos os assuntos, como em um jogo de ping pong,  nivelar as conversas, talvez,,,.

Talvez pela sua falta de compromisso com um projeto específico ou com algo a ser executado que envolva prazos, verbas, etc, as mais virulentas me parecem ser as listas de discussão de montanhismo, muito embora o exemplo que citarei a seguir tenha a ver com a de um grupo do conselho gestor de um parque estadual do qual participo (mas que na verdade engloba algumas montanhas aqui da Serra do Mar e envolve instituições e pessoas ligadas ao montanhismo).

Dias atrás um rapaz ligado a um clube de montanhismo fez uma observação infeliz sobre um assunto banal relativo à manutenção de um dos caminhos do parque e foi muito criticado, massacrado até, exageradamente. Porém, mesmo reconhecendo o erro as coisas não pararam por aí, pois outra pessoa, também ligada ao mesmo clube de montanhismo reacendeu, com outro comentário maniqueísta, o mesmo tipo de discussão que descambou em nova saraivada de comentários onde algumas pessoas depreciavam as outras. Não chegou a haver uma conclusão sobre o assunto, não houve ganhadores ou perdedores, não houve moderação que levasse a um compromisso na melhoria do diálogo.

Curiosamente neste momento estava estudando a Teoria dos Jogos e encontrei algo ali, na matemática dos jogos, que pode ajudar a explicar o comportamento daquelas pessoas. Vou expor isto aqui, pedindo, de antemão, desculpas aos matemáticos pelas eventuais falhas de raciocínio que poderei cometer.

A Teoria dos Jogos

A Teoria dos Jogos fala sobre escolhas racionais que os jogadores são obrigados a fazer para otimizar seus ganhos, ou, pelo menos, para minimizar seus prejuízos. Pastore Mello (1) comenta que ela começou a ser desenvolvida nos anos 50 do século passado por alguns matemáticos, com destaque para John Nash, que muitos de vocês devem conhecer do filme de 2001, “Uma mente brilhante”, de Ron Howard, disponível em DVD. Nash era um matemático talentoso, mas tinha um grave problema mental que atrapalhou sua carreira acadêmica (basicamente o tema explorado, até em excesso, pelo filme), mas chegou a ganhar um premio Nobel, exatamente pela contribuição científica da Teoria dos Jogos, que, descobriu-se, ao longo do tempo, tinha aplicações na biologia, na economia, no Big Brother, em relações interpessoais, ou mesmo na diplomacia, que eu considero ser o caso das listas de discussão, ou seja, em ambientes onde existe uma escolha entre competir ou cooperar.

A princípio, uma lista de discussão é, sobretudo, um jogo diplomático, no qual os jogadores tem oportunidade de fazer escolhas (jogadas) racionais, cujos resultados podem ser avaliados ao longo do tempo.  Nash concluiu que em jogos aleatórios, nos quais um jogador não sabe em que direção o outro jogador jogará, existia uma tendência do jogador agir individualmente e egoisticamente, buscando maximizar seu ganho, mesmo sabendo que poderia causar um grande prejuízo ao adversário, mas sem saber que poderia ser igualmente prejudicado (e vice-versa). Isto acontecia em detrimento de uma postura mais cooperativa, onde os jogadores poderiam decidir por ganhos menores (ou prejuízos menores), mas igualmente distribuídos. Ele chamou isto do “dilema do prisioneiro”, no qual alguém ou todos, sempre saem perdendo muito pela falta de cooperação. Assim, a crueldade deste raciocínio baseado apenas em interesses individuais consiste em que ele pode não conduzir à melhor solução para ninguém.

Basicamente foi o que vi na breve rodada da lista de discussão do conselho do parque. Apesar dos textos postados na lista de discussão refletirem posturas racionais, levaram a um resultado irracional de pessoas não cooperando! Algo que dever ser conhecido de muitos de vocês leitores.

Imaginemos agora uma situação (também comum em listas de discussão) de não cooperação inicial, mas prolongada em mais jogadas. Isto poderá levar a retaliações dos demais jogadores e a uma situação de desconfiança que se prolongaria por muito tempo. Chama-se esta situação de “dilema do prisioneiro iterado”, pois há uma continuação com inúmeras jogadas em que um ou mais jogadores, mesmo que mudassem para uma postura mais cooperativa, ainda sofreriam por conta da desconfiança dos demais, impossibilitando, por exemplo, a implantação de projetos, ou levando a rejeição de propostas em função desta desconfiança, algo comum nas discussões do conselho do parque.  Apesar de pouco favorável, mesmo nesta situação, Nash chegou a demonstrar um ponto onde escolhas racionais visando a cooperação poderiam conduzir a um ponto de equilíbrio, onde todos sairiam ganhando alguma coisa. O chamado “equilíbrio de Nash”.

Olho por olho

Para os matemáticos, uma estratégia que pode levar a este equilíbrio é a do “olho por olho” (“tit for tat“), que foi desenvolvida e apresentada em um torneio por Anatol Rapoport e que foi relatada no livro “A evolução da cooperação: o dilema do prisioneiro e a teoria de jogos” (1984), de Robert Axelrod. A estratégia consiste simplesmente em cooperar na primeira fase do jogo e depois disso escolher o que o oponente escolheu na rodada anterior. Se em algum momento o oponente decide não cooperar ou agredir, você também não coopera ou revida a agressão e assim por diante. A vantagem de se adotar uma estratégia assim é que o concorrente é que aparece como individualista e agressor inicialmente e não você.

Axelrod descobriu que quando se repetem estas rodadas durante um longo período de tempo com muitos jogadores, cada um com distintas estratégias, as estratégias “egoístas” tendiam a ser piores a longo prazo, enquanto que as estratégias “altruístas” eram melhores, (se for ser considerado unicamente o interesse próprio). Este parece ser o caso típico das listas de discussão.

Segundo Axelrod, quem praticava o olho por olho era melhor por alguns motivos. O primeiro era ser “amável”, isto é, começar cooperando e apenas parar de cooperar como resposta à não cooperação (ou agressão, fuga, etc) de outro jogador e assim nunca era o responsável por iniciar um ciclo de não cooperações mútuas. O segundo é que o olho por olho pode ser provocado, ao responder sempre o que faz o outro jogador. Castiga imediatamente o outro jogador se este não coopera ou agride, mas igualmente responde adequadamente se coopera de novo. Este comportamento claro e direto significa que o outro jogador pode entender facilmente a lógica por trás das ações de olho por olho, podendo portanto encontrar uma forma de trabalhar com ele produtivamente.

Desta forma,  para Axelrod, a estratégia vencedora não pode ser otimista cega, ingênua, exageradamente prestimosa ou sempre cooperativa. Uma estratégia não retaliadora “colabora sempre”, mas o matemático considerou como uma escolha má, pois estratégias oportunistas ou maldosas poderão explorar as fraquezas do colaboracionista.

Outra qualidade de uma estratégia vencedora deste tipo é ser capaz de perdoar, uma espécie de olho por olho com perdão, ainda que parcial. Embora retalie, perdoa ou torna a cooperar logo que o opositor para de agredir. Isto evita grandes sequências de vinganças em círculo vicioso, como a que eu vi na lista de discussão do parque.

A última qualidade é não ser invejosa, ou seja, não tentar fazer mais pontos (aprovar mais projetos, aparecer mais, se sobrepor mais, ganhar mais) que os opositores (isto é, uma estratégia “amável” nunca pode fazer mais pontos que o opositor). Esta é uma dificuldade grande, por exemplo, no conselho deste parque, pois algumas instituições trabalham muitas vezes contra o parque ou apenas visando benefício próprio, logo tem derrotas maiores também, mas por outro lado, reduzem a capacidade de cooperação das demais pela disseminação da desconfiança.

Axelrod atingiu a conclusão talvez utópica de que os indivíduos egoístas tenderão a ser cooperativos para poderem sobreviver “no jogo”, seja ele qual for. O fato é que uma das mais importantes conclusões matemáticas do estudo de Axelrod quanto a este problema é que os indivíduos cooperativos acabam com as melhores classificações. Em grupos, o altruismo, neste caso, pode ser um fator importante. Se o grupo for pequeno o comportamento positivo é o mais provável para encorajar os indivíduos no grupo para que continuem a cooperar.

Neste caso bastaria ser racional, justo e cooperativo e os problemas das listas de discussão, se acabariam, certo? Penso que não, pois estas características nem sempre estão presentes, ou mesmo encontramos racionalidades distintas, que não necessariamente são uniformes ou previsíveis em suas reações. Imagino que matematicamente se torna até mais simples prever o comportamento de racionalidades muito distintas interagindo junto, porém, no mundo real, o maniqueísmo, fundamentalismo religioso, interesses econômicos, podem fazer com que as pessoas tenham comportamentos pouco previsíveis, elas podem agir com mais de uma racionalidade.

Por outro lado, os matemáticos tem como mostrar em estatísticas simples que jogadores sem experiência ou mesmo com estas características que citei acima são mais propensos a ter resultados  invulgarmente muito bons ou muito ruins. Porém, algo que aconteceu comigo é que quando me tornei mais experiente neste tipo de jogo, aprendi a estimar a probabilidade de não cooperação (maniqueísmo, fundamentalismo, etc) dos outros, assim meu próprio comportamento passou a ser influenciado pela minha experiência desse comportamento externo. Passei a perceber quando uma discussão era apenas maniqueísta, moralista, irracional ou sem sentido e passei a me poupar mais, passei inclusive a planejar a hora de sair do jogo, fossem listas, conselhos ou outros ambientes de disputa. Acho hoje mais facilmente meu “equilíbrio de Nash”.

Leia mais em:

(1)  José Luiz Pastore Mello. Raciocínio, o Dilema do Prisioneiro: um exercício diplomático para o Big Brother. Discutindo Ciência. Ano 1, número 6

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Uma cena como esta que descreverei já aconteceu em vários lugares: na Pedra do Baú, em Bariloche, no Pico Paraná, em alguma das vias do morro Anhangava que escalei…, como neste fim de semana.

Estou escalando em solitário em um canto qualquer de uma destas montanhas. Meus olhos  enquadrinham atentamente a parede em busca da próxima sequencia de agarras. Investigo brilhos na rocha que denunciem a umidade da chuva. Verifico alguma tonalidade diferente da pedra que sugira cristais frágeis ou um som que sugira uma placa solta. Busco grampos ou chapas. Estou escalando, enfim, imerso no mundo da rocha, examinando a linha mais interessante, mas também atento a qualquer coisa que possa afetar minha segurança.

Esta via hipotética sobe 10 metros e faz uma transversal de uns 15 metros. Tem duas chapas no trecho, é pouco pelos padrões esportivos atuais. Mas o único brilho que avisto é de um objeto estranho na parede que me chama a atenção.  Ao chegar até ele constato que trata-se de  um mosquetão com rosca abandonado na segunda chapa. Que tipo de drama ele esconde? Que tipo de história? Pode significar algum aviso para mim? Tento interpretar aquilo, tento ler as evidências: o crux da via é logo acima uns 5 metros, estará molhado a ponto de impedir a ascenção?  Será que o escalador anterior apenas não venceu a dificuldade técnica da passada e abandonou a via? Será que foi um erro de rapel?

O mais provável me parece ser a insegurança diante da possibilidade de queda longa neste trecho da escalada. Talvez, deduzo, o mosquetão seja de um escalador jovem, relativamente pouco experiente em guiar, com pouco tempo de escalada, pois o mosquetão, de duralumínio, não é de um tipo muito caro, mas é relativamente novo e está intacto, tirando o leve sinal de oxidação proveniente da chapa de ferro onde está clipado,  sinal de abandono há pelo menos alguns dias, uma fuga da dificuldade do lance… 

Depois que este mosquetão me contou sua história ele acabou tendo um dos destinos que este tipo de objeto tem: ou foi devolvido para o dono, ou foi incorporado ao meu próprio equipamento pela falta de um dono a quem eu pudesse devolver, ou foi doado para alguma pessoa que precisasse de um mosquetão para alguma coisa, ou virou objeto de museu ou ainda, recebeu outro tipo de uso fora da montanha, como pendurar rede, clipar a coleira de algum cachorro, etc.

Ele entrou para minha contabilidade junto com os outros, estimados, 100 outros objetos que eu já encontrei em paredes. Um número absurdo? Nem tanto, tres por ano, no meu caso, sem contar os anos “excepcionais”, como em 2010, quando encontrei 5 mosquetões (e mais fitas, cordas, etc), sendo tres deles em uma única parada de rapel, novos em folha. Mas nada comparável com uma brilhante safra de 15, cujo dono, imagino, pode ter tido mais do que mera distração.

Além dos mosquetões, a lista destes objetos peculiares que já encontrei pode ser engordada por outros apetrechos de escalada: aparelhos de descida, modernos ou antigos, fitas tubulares,  cordeletes, nuts, friends, fitas expressas com os dois mosquetões, fitas expressas com apenas um mosquetão (sugerindo a patética cena do sujeito sacando a expressa para costurar,  ficando com apenas um mosquetão na mão e vendo o resto cair), tênis de escalada, tocos de corda, corda inteira, estribos, grampos, martelo, talhadeira, estacas de neve, cunhas de madeira do tempo do Araril Pandorga…

A montanha é um local propício também para os excursionistas abandonarem outras bugigangas pesadas como cobertores encharcados, sacos de dormir palhões, panelas, botijões de gás, lonas, barracas, mochilas, calças, camisetas. Mas não é incomum eu encontrar um objeto valioso, que sugere escaladores descuidados: um canivete suíço, uma headlamp, um óculos bacana, uma máquina fotográfica. Meu filho mais novo se diverte com isto e sempre me pergunta o que achei de novo na montanha. Às vezes trago um celular para ele brincar.

Mas os mosquetões tem um valor simbólico para mim. Raros, caros, especiais.  Simplesmente era difícil encontrar um no Brasil para comprar quando comecei a escalar. As remessas para o Brasil eram praticamente inexistentes devido à política de contenção de importações do país naquela época. Nada de supérfluos e o que eu fazia era supérfluo. Tinha-se que recorrer a algum tipo de subterfúgio para conseguí-los: alguém viajando ao exterior, alguém trazendo materiais por baixo dos panos.

Os mosquetões são representantes peculiares do mundo da escalada, desde 1910, eu acho. Meus primeiros mosquetões, pareciam ter personalidade, não apenas uma marca. Pierre Alain, René Demaison, Choinard, Bonaiti. Não eram marcas apenas de fábricas e sim nomes de escaladores famosos, gente que eu imaginava em um dia abrindo uma via em algum paredão ríspido dos Alpes e em outro gastando pestanas na estamparia ou na fundição, para criar algum novo modelo, robusto, belo, forte o suficiente para atender as reais necessidades dos escaladores.

Além disso estes equipamentos sempre me pareceram símbolos da nossa moderna sociedade tecnológica. Matérias brutas como alumínio, ferro ou petróleo costumam ser associados com um design inovador para produzir instrumentos usados para um tipo de lazer extremamente arrojado, como este que praticamos, que embute até mesmo princípios éticos sofisticados na sua concepção, algo impensável antes do século XX. Por isto a escalada é tão emblemática de nossa contemporaneidade. Poucas atividades humanas podem ser assim tão modernas e complexas.  A complexidade, como diz Edgar Morin (1) é um dos sinônimos da modernidade.

Aqueles meus primeiros parcos mosquetões com seus nomes sonoros tinham um efeito mágico sobre mim. Eu me sentia participante do mundo da montanha apenas por imaginar que praticava, no distante Brasil, na distante sul América, algo que se assemelhava com aquilo que aqueles escaladores experientes faziam em algum paredão rochoso dos Alpes.  De algum modo, através do meu pensamento, eles me ligavam a uma estranha irmandade montanhística. Eram o meu elo com o mundo fantasioso das grandes aventuras nas montanhas. Com isto, o abandono de um equipamento deste na montanha tinha algo de sacrilégico.  Não por acaso meus treinamentos na montanha incluíam, como incluem ainda hoje, a desescalada como uma alternativa ao abandono de objetos na montanha.

Contrastando com o alto simbolismo que estes objetos tinham para mim, está aquela fita ou mosquetão abandonado em uma parede, perdido em meio à vegetação, esquecido em cima de alguma pedra. Eles sugerem uma abundância (igualmente um traço da modernidade?) que contrasta com meus primeiros tempos de privação, um desleixo ou até mesmo a depreciação do ato de escalar, pois podem ser abandonados facilmente se as coisas não estão convenientemente arranjadas para o escalador subir a parede, se o escalador não está devidamente preparado, não está à altura da via. Então tchau Demaison, Choinard ou Bonaiti. Fique para os próximos a tarefa de resgatar um mosquetão imprestável da parede, retirar aquela fita ou cordelete podre que atrapalharão a costura do próximo escalador, de sacar aquele nut duvidoso da pedra.

Montanhistas e escaladores em geral, já percebi, são bastante materialistas, marcam sobremaneira as montanhas, já tive a oportunidade de comentar isto em meu blog em alguma ocasião anterior.  É, de fato, um tema digno de reflexão que possamos, ao longo de nossa vida como frequentadores de montanha pincelá-las com nossos desejos e dejetos.

“(…) Vi todas as coisas e
 maravilhei-me de tudo,

Mas tudo ou sobrou ou foi
pouco, não sei qual e eu sofri.
 
 Álvaro de Campos
 
 Veja mais em:
 (1) MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento  Complexo. Lisboa, Instituto Piaget, 1991

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