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Archive for fevereiro \18\UTC 2009

Por Edson Struminski (Du Bois)
O ESTRANHO E FASCINANTE MUNDO DA ESCALADA EM SOLITÁRIO

Dias atrás conversava com Ermínio, um dos meus companheiros costumeiros de aventuras pelas montanhas, sobre sensações que obtínhamos quando escalávamos em solitário. De modo geral a percepção era de que ao escalar em solitário havia um prazer especial, que dificilmente pode ser descrito em linhas. Ao mesmo tempo falamos de alguns problemas inerentes a este assunto. A segurança neste tipo de escalada, dificuldades na hora de graduar uma via feita em solitário, ou mesmo sobre a incompreensão e o reconhecimento de outros montanhistas sobre as peculiaridades que envolvem este assunto.

Neste ponto me pareceu que começamos a mergulhar em uma conversa muito rara, pois este assunto, escalada em solitário me parece ser um dos temas “tabus” dentro do montanhismo, assim como outro assunto que tratei dias atrás no blog, a “segurança em montanha”. Ou seja, tem a ver com algo perigoso de ser dito, um tema que “incomoda”, ou melhor dizendo, obriga as pessoas a sair do comodismo e a rever conceitos e preconceitos.

Montanhistas que fazem algum tipo de atividade em montanha (caminhadas, escaladas) em solitário, não são de todo incomuns, mas certamente são minoria no universo montanhístico e seguramente este número vai se tornando cada vez mais reduzido à medida que o risco e a dificuldade à que estas pessoas se expõem aumenta. Nas páginas da antiga revista Headwall, o tema aventuras em solitário pelas montanhas não foi tratado em nenhum artigo em especial. A menção a este assunto aparece aqui e ali na declaração de algum montanhista, ou na menção de alguma atividade feita por algum deles. Lembro-me de uma breve declaração de Alexandre Portela que afirmava que para ele a escalada em solitário era a forma mais purista de encarar uma montanha. Uma opinião interessante de que falarei mais adiante.

PERSONAGENS DE ESCALADAS EM SOLITÁRIO

O personagem da literatura de montanha que mais explorou este assunto foi o famoso himalaista Reinhold Messner. Ele se tornou conhecido tanto pela sua habilidade montanhística, quanto pela sua facilidade em transmitir seus pensamentos em livros. Messner escreveu sobre praticamente todas suas aventuras no Himalaia e em outras montanhas do mundo (Andes, Alpes).

Uma parte destes textos diz respeito a aventuras em solitário onde sobressai uma invulgar propensão à uma certa espiritualidade e ao auto conhecimento. Talvez em função de seu pensamento algo subjetivo, a leitura de Messner deve estar se tornando ausente hoje no mundo da escalada, que valoriza excessivamente os aspectos técnicos e físicos das escaladas (graduação, performance). Já me afirmaram que os livros de Messner são praticamente desconhecidos pela geração que pratica escaladas em academias. É possível, mas não tenho como averiguar este paradoxo (Messner só conseguiu realizar seus feitos graças a um elevado treinamento técnico e físico). O fato é que Messner foi um dos motores da evolução do montanhismo mundial, tanto na escalada em rocha quanto em alta montanha.

Curiosamente esta subjetividade não é o caso de um dos primeiros textos que li sobre este assunto, escrito por um dos “montanhistas clássicos”, Cesari Maestri, em um livro dos anos 1970 (1), mas que parecia, na verdade, pelo menos uns 20 anos mais antigo em termos de equipamentos, o que tornava a leitura do texto ainda mais espantosa em comparação com as fotos de Maestri se arriscando em vias verticais com aqueles enormes botinões de escalada que o pessoal usava antigamente.

Maestri falava das limitações psicológicas que as pessoas tem ao realizar escaladas em solitário, particularmente naqueles casos em que não contam com o apoio dos equipamentos. Nestas horas, aliás, naquelas linhas, parece surgir um enorme contra senso, sempre atual, pois passamos a falar de um tipo de escalada sem aquela vasta quantidade de apetrechos que nos acostumamos a relacionar com este mundo e que aparentemente, mas só aparentemente, são essenciais para a segurança do esporte: mosquestões, costuras, friends, aparelhos de descida e segurança, capacetes, cadeirinhas e, é claro, a corda, principalmente ela, a corda. Então, em solo, não existem mais “cordadas”, “paradas”, “rapel”, todos aqueles movimentos típicos da escalada com equipamentos. Só existe um escalador subindo ou descendo paredes, concentrado nas suas agarrinhas.

Neste ponto é possível estabelecer um vínculo claro com a visão purista da escalada a que Alexandre Portela se refere. No sentido extremo, uma aventura em solitário na montanha dispensaria qualquer acessório adicional, deixando ao escalador apenas sua habilidade, técnica e experiência para enfrentar as dificuldades da montanha e a possibilidade atroz de que um erro possa por fim a sua vida ou prejudicá-lo irremediavelmente.

Então, possivelmente está aí a origem do tabu do tema “aventuras em solitário na montanha”, ou “escaladas em solitário”, lidar com a insegurança que todos tem ao escalar. Saber que nós, mesmo supertreinados, somos falhos e podemos despencar e nos machucar. Escaladores em solitário parecem escancarar isto. Talvez por isto sejam tão incômodos. Enquanto nós falhamos eles não podem falhar. Será que nunca falham? Será que estão acima da condição humana? Certamente que não.

Quando um montanhista está só na montanha, qualquer coisa que aconteça a ele (ou ela) passa a ser de sua inteira responsabilidade. Não há possibilidade de discutir com um parceiro sobre decisões a serem tomadas e eventuais erros tem o peso do comprometimento sobre a manutenção da sua integridade (física, psicológica).

O TABU DA ESCALADA EM SOLITÁRIO

Então é no sentido das decisões individuais que a escalada ou qualquer atividade em solitário nas montanhas pode vir a ser caracterizada como um tabu pois representa um “desvio do comportamento pessoal em relação às normas de um grupo social” (escalada em duplas ou em grupos). Note-se que, ainda que amena, esta é uma das definições que um grupo de psicologia da USP usou para definir, segundo critérios populares, o conhecido fenômeno da “loucura” (Artoni, 2). Então a escalada em solitário seria uma forma de loucura. Mas será mesmo?

Para Artoni, posturas fora do comum são vistas como loucura apenas porque existe uma rejeição ou inadequação às normas sociais, ditadas pela razão da maioria, fenômeno típico da nossa cultura ocidental. Assim, para esta articulista, o juízo de valor (ou moral) de cada época ou de cada grupo ainda é o principal termômetro da normalidade. A classificação e marginalização de algumas posturas vem do preconceito quanto ao que é desconhecido. Porém, ela comenta que a variedade de interesses, habilidades e raciocínios incomuns, podem representar valores positivos para um grupo social. Mesmo escaladores solitários, teriam, então valor neste universo.

Olhadas de uma forma menos distante (e não como loucura que é um enunciado vago do ponto de vista estritamente comportamental), aventuras em solitário (para quem se sente à vontade com isto) podem se transformar em um respeitável manancial de conhecimentos. Dificilmente alguém que realize uma atividade em montanha em solitário volta para casa do mesmo jeito. A pessoa conhece muito mais das suas limitações e forças quando sabe que não tem a quem recorrer em caso de problemas. Assim, ao contrário do senso comum, uma pessoa em solitário na montanha tende a ser ousada e previdente na medida certa. Equipamentos, técnicas e recursos são previstos e usados com mais parcimônia e cuidado quando o montanhista está em solitário. É o que extraímos das leituras de Messner e Maestri.

Algum treinamento em solitário, se não é usual, é no mínimo recomendado para proporcionar maior concentração mental ao escalador (3), mas esta é uma opção que cada um deve tomar no momento certo da vida. Tudo isto visa tornar a aventura na montanha exatamente isto, uma aventura e não uma desventura.

Neste sentido, curiosamente, os montanhistas solitários podem trazer uma enorme vantagem para os demais montanhistas, pois podem prever situações normalmente não visualizadas pelos demais frequentadores de montanha. Em função disto, trocas de informações entre pessoas que praticam atividades em solitário e outros deveriam ser vistas com menos preconceitos ou lugares comuns.

ESCALADAS EM SOLITÁRIO, UMA VISÃO PESSOAL

Fiquei pensando um tempo depois daquela conversa com o Ermínio. Afinal o que significa a escalada em solitário para mim? Em que eu penso quando estou fazendo uma escalada solitariamente? Comecei a escalar porque o montanhismo me parecia um esporte onde eu não estaria preso a regras, normas, convenções, horários ou competições, como me parecia tão comum nos outros esportes. Me agradava a idéia de praticar um esporte criativo, de alto nível, em que não precisasse derrotar ninguém ou ir correndo atrás de um troféu para me realizar.

Embora haja muito de cooperação no montanhismo, passado algum tempo percebi que ele era tão regrado e convencional quanto qualquer outro esporte em muitos quesitos e que, na verdade, vem se tornando cada vez mais convencional e pouco espontâneo à medida que incorporou a idéia da competição no seu universo.

A mim atrai muito a idéia da liberdade na escalada. A possibilidade de escolher entre várias opções de caminhos que você pode fazer na pedra e conviver com as consequências de suas escolhas. Isto é muito verdadeiro na escalada solo, que é quando você pode mudar de direção a qualquer instante, escolhendo sempre as melhores opções no momento. Isto é uma metáfora de uma vida ideal (livre), à qual nós todos dificilmente temos acesso, a não ser em raros momentos, como por exemplo, quando se está fazendo uma escalada solo.

Note-se que em uma sociedade excessivamente regrada (incluindo o esporte) é particularmente agradável a possibilidade de fazer escolhas lúcidas e pessoais em alguns momentos, sem precisar ser avaliado ou julgado por pessoas que muitas vezes podem até mesmo saber menos que você. É o caso, por exemplo, quando você cria suas próprias “normas” de escalada. Isto é difícil se você está amarrado a uma via pela corda, limitado pelos grampos ou pior ainda, pelo fantasminha do pensamento dominante de um grupo de escaladores. Mas estas limitações se tornam menores se você estiver fazendo uma via em móvel, em solitário ou mesmo em solo.

Outra coisa atraente nas escalada solo ou em solitário é a concentração. É muito atraente a idéia que estou superconcentrado, corpo e mente, quando escalo sozinho. Quando podemos estar assim tão concentrados? Isto é uma raridade. Então escalar assim melhora tanto meu desempenho físico quanto mental.

Mas algumas coisas me assustam neste tipo de escalada. Nem tudo é assim tão controlável quanto eu gostaria, então eu passo um medo aterrorizante. Às vezes agarras quebram, ou estão molhadas sem que eu saiba de antemão. Então eu caio. Cair em solitário com corda e equipamentos é um susto grande e um enorme desconforto. Pode me destruir mentalmente porque minha concentração é abalada. Cair em solo pode ser mais do que um susto grande, mas não é necessariamente fatal. Como em qualquer modalidade de escalada existem muitos fatores que influenciam no rumo de uma queda. O que posso dizer a respeito das vezes que caí solando é que descobri que eu continha dentro de mim algo que eu chamo de “pulo do gato”, ou seja, os gatos caem de pé e, com isto, sobrevivem.

Houve gente que se machucou mais caindo de um “inofensivo” boulder do que eu solando. Mas não me peçam mais explicações sobre como isto funciona ou se eu acho que vai funcionar sempre porque eu não sei responder. Escalar em solo ou solitário abriu todo um universo novo na montanha para mim, mas foi feito a um custo alto, muito alto. Com 23 anos, idade com que comecei a fazer isto, eu acabei me tornando uma pessoa muito mais madura, em certos aspectos, do que os jovens são normalmente nesta idade.

Eu comecei a perceber que a “normalidade” e a “loucura” podiam ser também convenções sociais. Comecei a olhar o mundo de outra forma, pois eu adquiri uma noção muito mais exata da fragilidade da vida, das minhas limitações e da espetacular dádiva divina que é estar vivo.

Leia mais em:

(1) MAESTRI, C. Escalada em solitário. In: ZOTTO, G. (org). Alpinismo moderno. Barcelona: Editorial Hispano Europea, 1975.

(2) ARTONI, C. As faces da loucura. Revista Galileu, São Paulo. Nov 2004. P 47 a 51.

(3) RADLINGER, L., ISER, W. & ZITTERMANN, H. El entrenamiento en los deportes de montaña. Barcelona: Ediciones Martinez Roca, 1987.

Vejam também os diversos livros de Reinhold Messner.

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