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Archive for dezembro \17\UTC 2010

Por Edson Struminski (Du Bois) 

Dias atrás, me dediquei a explorar um dos setores de escalada do belíssimo salto do rio São Jorge, em Ponta Grossa, cidade do interior do Paraná onde estou morando. Este setor fica na margem direita do rio, próximo das quedas d´água, exatamente onde inicia-se um pequeno canion.  Estava sozinho, mas este setor é possível de escalar com corda de cima e de se auto assegurar.

Há um outro atrativo neste lugar, uma variação interessante de rochas, arenito nas partes mais altas das paredes e, nas mais baixas, em geral iniciando as vias, o conglomerado, um tipo de rocha muito interessante e desafiadora que eu conheci em Caçapava do Sul, interior do Rio Grande do Sul.

Imaginei que de modo geral as vias seriam acessíveis para mim (o que de fato aconteceu). Mesmo aquelas que não pudesse fazer na primeira tentativa permitiriam que eu entendesse a dinâmica dos movimentos, seria um bom passatempo para quem está neste momento longe das montanhas.

Neste lugar o rio é muito movimentado, iniciando uma sequencia de pequenos e grandes saltos encaixados entre as paredes de escalada. É tudo muito bonito, o rio, as quedas, as paredes.

Desci até a base das vias, mas havia um tanto de lixo preso entre as pedras e galhos, que veio transportado pela água da área de camping e banho dos turistas e isto me incomodou um pouco, escalar em meio a um lugar sujo. Assim gastei um certo tempo limpando o lugar: latas, pés de chinelo, plásticos…

Fiquei um tempo explorando o lugar, consciente do movimento da água e da força do rio, sabendo que a poucos metros dali há uma grande queda de uns trinta metros. Neste ponto o rio inteiro é canalizado pelos escombros de uma torre de arenito, parte das paredes do cânion, que desabaram dentro do rio há sabe lá quanto tempo atrás. Esta canalização forçada faz com que a água do rio tenha, mais adiante, a forma de um grande jato d´água, algo belo e poderoso. Cachoeiras são sempre bonitas, mas esta canalização do rio dá toda uma originalidade ao salto São Jorge, é sua marca registrada.

É possível chegar exatamente onde o canal termina e começa a queda d´água, um local que dá acesso também à base de mais um grupo de escaladas. É preciso fazer um pequeno boulder em aderência de arenito, mas é aí que eu levei um pequeno susto, pois a parte de cima do boulder estava coberta por rocha esfarelada, jogada de cima do cânion pelos turistas e em vez de subir, acabei tendo que pular fora, administrar a queda para longe da corredeira do rio. Ufa!

Foi tudo tão rápido que não tive tempo de pensar no medo, a adrenalina subiu a mil e tive de descansar um pouco antes de achar um outro ponto para subir o boulder, longe da areia, mas aquilo foi o suficiente para que eu pensasse novamente na minha situação: sozinho, dentro de um rio violento, com uma queda d´água poderosa por perto.

Após subir o boulder aproveitei para visualizar a paisagem toda de um ângulo pouco comum para a maioria dos visitantes, no meio da torre desabada, local de acesso reservado para escaladores ou apenas para algum eventual turista mais intrépido.

Me acalmei um pouco, acabei minha exploração e voltei para as escaladas. As vias eram agradáveis e me diverti me exercitando nas paredes, fazendo as linhas possíveis, brincando na transição conglomerado/arenito. Aproveitei também a tranquilidade daquele momento, pois é raro encontrar este local sem visitantes pelas imediações com seus gritos e latas de cerveja voadoras.

Depois que acabei os movimentos nestas vias, que são curtas, transferi a corda para depois da torre desabada. Há uma bela via levemente negativa e mais longa ao lado mesmo do salto que inicia-se a alguns metros do chão. Sempre quis escalar ali, desde que conheci o salto há décadas atrás. Então seria como realizar um pequeno sonho antigo…

Estiquei a corda até ela tocar o chão, a uns 30 m abaixo de mim e fui descendo. Coloquei uma costura para evitar um pêndulo na descida/subida e me aproximei das últimas proteções fixas.

Estava tudo certo. Ancoragem dupla, aparelho de descida, Marchand para assegurar a descida, fita de auto segurança, ascensor preparado para escalada com corda fixa, baudrieux, corda, capacete, mosquetões, enfim tudo para descer e subir sem problemas, sem medo, sem riscos. Só não fazer nenhuma trapalhada. Então tratei de não fazer nenhuma trapalhada. 

Raízes do medo 

Apesar de tudo devidamente ajeitado e sem trapalhadas, algo me perturbava, algo além dos equipamentos ou dos procedimentos, algo além da parede ou da via de escalada, que pelo que eu pude ver não parecia ser super difícil. Algo que ficou do episódio do boulder.

Este algo a mais era algo irracional. O que me perturbava era o movimento da água, que produzia a visualização de algo despencando a apenas poucos metros de mim e o forte som da cachoeira. Isto me trazia uma estranha e inexplicável sensação: a de que se eu não ficasse agarrado na corda, nos grampos, em qualquer coisa sólida, enfim, iria despencar e fazer companhia para aquela enorme quantidade de água que caia ali ao lado. Aquela demonstração explícita da ação da gravidade me trazia medo, estava me paralisando.

Isto tudo era uma ilusão, claro, nada que faça sentido naquela escalada ou em outra qualquer que eu tinha feito até aquele momento, mas o medo existia, não era um sentimento racional, nada que eu pudesse simplesmente afastar como se fosse uma mosca voando em volta de mim.

Naquele instante o medo me dominava e eu me vi começando um estranho diálogo comigo mesmo, que eu já tive em algumas situações, algumas de perigo verdadeiro por que passei. Era uma tentativa de me autotranquilizar, de digamos, “controlar” a situação, resolver o “problema” do medo.

Nas igrejas ou nos livros de auto-ajuda, imagino, eu (pois faz tempo que não frequento uma igreja e até hoje não li nenhum livro destes) deve-se falar muito sobre isto, enfrentar de frente o medo, os problemas, ser superior a eles, chutá-los, pisoteá-los se for o caso, ou então encará-los firmemente, para daí resolvê-los. É o que eu fiz, virei para a cachoeira, cujo ruído famigerado me assustava e cujo movimento me perturbava.

Então fiquei ali, enfrentando de frente a cachoeira, encarando-a firmemente, até que…

Até que nada, o ruído da cachoeira não ficou menos famigerado por isto. O movimento dela não reduziu, continuou me perturbando, continuei com a droga do medo.

Então eu desisti da cachoeira, a água seguiu caindo ruidosamente, como continuou fazendo nas outras vezes em que estive por lá e deve estar fazendo neste momento, como aliás é inerente a cachoeiras (se é que conheço um pouco cachoeiras).

Como já passei, como comentei, por situações com perigos muito mais reais e palpáveis, do que isto que estava vivendo, tratei de me concentrar nos movimentos da escalada, uma situação mais familiar, tranquila e mais de acordo com minha capacidade de resolver as coisas do que com o ruído de uma monumental queda d´água barulhenta e, um pouco constrangido, afinal fazia tempo que eu não sentia medo em uma escalada, fui subindo, mais com o objetivo de sair dali…, até chegar ao fim da via. No fim cheguei a sentir um bem-estar e até mesmo uma certa euforia boba, resquícios da adrenalina, incluindo a vontade de voltar lá de novo. 

Sei que não posso tirar uma moral desta história no sentido convencional, já que não pude aplicar uma regra clássica de comportamento bom mocista, ou seja, enfrentar o medo. Nada que eu possa, portanto, acrescentar aos manuais de auto-ajuda ou me orgulhar como escalador solitário. A título de consolação uma explicação psicológica talvez me dissesse que eu simplesmente tinha me concentrado nos aspectos importantes da escalada e deixado de lado componentes periféricos, mas isto, que certamente é verdade, é muito simplório quando se pretende levar a experiência do mundo da escalada para a vida, como costumo fazer.

Também poderia dizer, como no texto de Edson Bomfim (1), que eu estava exercitando uma forma de liberdade, uma sensação interior que está vinculada a um estado psíquico de realização pessoal plena. Para este autor todos nós precisamos exercer plenamente nossas liberdades (de ação, omissão, aprendizado, de escolha, emocional, etc), desde que não prejudique outra pessoa.

Meditando mais tarde e tentando extrair algo de útil da história da escalada nesta cachoeira, percebi que esta pequena aventura me trouxe a lembrança das renúncias que fazemos na vida, pois serviu para me lembrar que muitas vezes, mesmo que isto não seja a saída mais nobre, somos obrigados a virar as costas para cargas, pesos ou medos que nos são impostos, os quais muitas vezes não pedimos para carregar, que não nos cabem e que deixamos de lado apenas porque outras coisas mais essenciais pedem nossa atenção. Assim, tapei meus olhos e ouvidos e deixei de admirar e de me envolver com uma queda d´água portentosa apenas para humanamente satisfazer meu desejo antigo (ou necessidade), bem mais mesquinho de subir uma pequena via de escalada no lado do salto São Jorge. Enganei o meu medo, mas exercitei minha liberdade da renúncia. 

(1)    Edson Rocha Bomfim. O que é liberdade? Revista Psique, Ciência e Vida. Ano I número 6.

 

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