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Archive for 22 de janeiro de 2016

Giacchin, o artesão

No fim dos anos 1980 eu estava escalando no Marumbi, quando fui apresentado a um rapaz que vinha do Rio Grande do Sul e queria aprender ou aperfeiçoar-se em “técnicas de escalada em solitário”.

Bom, o que significava para mim um “escalador do Rio Grande do Sul” em fins dos anos 1980? Por que aquele sujeito estava interessado em escaladas em solitário?

Desde fins dos anos 1970 o montanhismo vinha saindo de algumas décadas de estagnação no Paraná e, mais importante, se modernizando, com novas vias sendo abertas em livre, móvel e com uma graduação mais elevada. De algum modo eu percebia que minhas escaladas em solitário faziam parte deste movimento.

Porém, até então, era um movimento muito “endogâmico”, ou seja, estávamos mais preocupados com nosso umbigo, o que significava desenvolver um montanhismo com “cara própria”, tanto em relação à geração anterior de escaladores, que havia aberto vias em artificial ou chaminés, como em relação ao Rio de Janeiro, que era praticamente o único polo de escaladas que reconhecíamos no Brasil naquele momento.

Daí uma certa surpresa em relação a este escalador do Rio Grande do Sul, um lugar que, para mim, pelo menos, sequer tinha montanhas, quando muito “pedrinhas”. Eles eram “escaladores de barrancos”, segundo uma visão bairrista e preconceituosa que os escaladores antigos tinham nos passado.

No entanto, eu já sabia por experiência própria, que escalada em solitário, embora envolvesse técnicas e equipamentos, não se resumia a isto. Existia toda uma busca de autoconhecimento que motiva alguém a se aventurar sozinho em uma montanha ou parede rochosa e fiquei imaginando se aquele rapaz tinha esta motivação ou se ele estava realmente interessado apenas em detalhes de técnicas arriscadas, que não era algo que eu ensinaria a qualquer um.

O fato é que aquele escalador, João Giacchin, era o nome dele, não só vinha explorando estes barrancos, estas distantes plagas do Brasil, como estava fazendo isto em solitário, de forma autodidata, como um artesão que fazia de tudo: sonhava com suas vias, fabricava seus instrumentos, burilava suas escaladas como um escultor e, mais com isto, vinha criando um elo entre os escaladores antigos e os que iriam vir depois dele e mais, um elo entre os escaladores gaúchos, paranaenses, cariocas, brasileiros e mesmo europeus, de uma Europa para onde ele sonhava em migrar.

Com isto surgiu uma cumplicidade que resiste até hoje. Tempos depois do primeiro encontro era eu que estava no Rio Grande do Sul, andando ou escalando em arenitos, basaltos, conglomerados, rochas que sequer imaginava que podiam ser escaladas, em lugares, como Caçapava do Sul ou Bagé, no meio do pampa gaúcho, onde existiam pedras e vias fascinantes do Giacchin, que desafiavam a imaginação.

Então eu passei o pouco que eu sabia até então, fruto de alguma leitura e de minhas experiências em solitário para Giacchin e em troca ele, sem perceber, rompeu com meus preconceitos: “nada muda se você não mudar”, foi uma frase que ele fez questão de esculpir para mim em uma placa de madeira que tenho até hoje. Giacchin me apresentou um mundo novo e vasto a ser explorado, um mundo que apenas depois de longos anos de amadurecimento eu conheceria verdadeiramente e poderia usufruir e que existe na fronteira sul do Brasil, entre  os arenitos e conglomerados do norte do Uruguai e do sul do Rio Grande do Sul, fosse repetindo vias do próprio Giacchin, fosse abrindo vias novas.

Apesar da sua energia, a vida não era simples nem fácil pra ele no Brasil e para fugir das limitações do seu mundo, Giacchin migraria dali a algum tempo para a Europa onde vive até hoje. Em um momento pré-internet, as cartas que eu recebia dele, com imagens de lugares onde ele escalava na Espanha, Itália, Tchecoslováquia, Inglaterra, mostravam que ele, de alguma maneira, continuava indo além daqueles montes que ele conheceu por aqui, como no vídeo que ele produziu:

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