Por Edson Struminski (Du Bois)
Talvez de todas as escaladas, viagens e expedições que eu tenha participado nesta vida de montanhista, esta tenha sido, até o momento, a mais singular, pelo menos das que fiz mais recentemente.
A Serra de Curicuriari (ou Bela Adormecida) é um belo conjunto de montanhas a alguns quilômetros de São Gabriel da Cachoeira no alto rio Negro, no noroeste do Estado do Amazonas. Está dentro de terras indígenas, o que demanda licenças e conversas com as mais diferentes pessoas. Isto é até compreensível, pois depois de centenas de anos apanhando, os indígenas daqui tiveram finalmente direito a terras, que são grandes (mais de 80% do município que é grande, como falei no artigo anterior), mas até onde percebi eles tem o interesse mesmo é em manter estas terras preservadas para os filhos e, não para madeireiros, garimpeiros, traficantes, terroristas, etc.
Vim para cá a convite da Secretaria de Meio Ambiente e Turismo do município e indiretamente da própria comunidade indígena onde se localizam estas montanhas para elaborar um projeto que possa reforçar e ver a viabilidade de uso das trilhas destas montanhas para uma modalidade de ecoturismo indígena, ou seja, que envolva esta comunidade.
Mas à parte estes aspectos técnicos e científicos (no trajeto da trilha aparecem tipos de vegetação raras para a Amazônia, além de existirem vários componentes antropológicos significativos no que diz respeito à cultura indígena), o que me parece interessante contar para vocês leitores, (imagino que na maior parte composta por pessoas que praticam alguma modalidade de atividade em montanhas), é o que representa uma subida a uma montanha na Amazônia, sua logística e dificuldades e sobre as pessoas que fazem isto por aqui.
Mundos paralelos
Os rios são estradas aqui nesta região. Então é pelo rio Negro, de voadeira, um tipo de barco rápido, que eu e meus companheiros de viagem iniciamos a viagem até a serra de Curicuriari.
São dois sargentos e um capitão que servem em São Gabriel e vem de diferentes lugares do Brasil: Paraná, Rio Grande do Sul e Piauí. Estão de folga e fazem este passeio não como militares e sim como turistas também pela primeira vez, um tanto quanto sedentos pela oportunidade de fazer esta caminhada pelas montanhas, pois a vida deles aqui é bastante limitada e regrada pela vida do quartel e o acesso ás terras indígenas é complicado. Também faz parte desta viagem uma funcionária da Secretaria de Meio Ambiente da cidade, que está levando uma oficina de artesanato de arte Baniwa e vai ficar em uma das comunidades que estão no trajeto da voadeira.
A voadeira nos deixa no início de uma trilha que leva até a aldeia Enebo. Somos guiados por uma senhora e um menino muito sagaz que fazem esta trilha junto com a gente. Após um calor infernal, uma chuva amazônica nos pega no meio do caminho e serve como “tempero” para este primeiro dia na floresta.
Passamos algum tempo na aldeia Enebo e depois, molhados como estamos, acabamos pegando novamente a voadeira, já no rio Curicuriari, em direção à outra comunidade, São Jorge, que é base para a nossa caminhada.
Como são culturas muito diferentes, pode parecer chocante entrar em uma aldeia destas pela primeira vez. Embora a gente veja antena parabólica, placa solar, gerador a diesel, luz elétrica, TV, computador e crianças brincando de vôlei, as casas (cada família tem uma) são de madeira e teto de palha, sem piso, torneiras ou banheiro. Há muito lixo espalhado, incluindo um monte de pilhas altamente tóxicas apodrecendo no chão, além é claro de muitas moscas e mosquitos diversos, que adoram turistas.
Somos recebidos em uma casa comunitária, que é um misto de salão de reuniões, local de uma TV comunitária, sala de aula, refeitório comunitário. Na verdade parte substancial da vida destas pessoas gira em torno da comunidade: escola, alimentação, jogos, caça, pesca, roça (para produção de merenda escolar, não a familiar, que é particular), decisões que afetam a vida das pessoas, etc, em uma espécie de comunismo primitivo, que seduz e faz a delícia dos pesquisadores das ciências sociais.
Após assistir a uma longa assembléia onde o pessoal discutiu muitas e muitas coisas ligadas à comunidade, incluindo uma eleição para a associação dos moradores (às quais a gente ficava alheio, pois era tudo na lingua local), fizemos nossa apresentação, sendo aprovada nossa permanência ali e definidos nossos guias, Adão e José. Finalmente todos nós improvisamos nossas redes para finalmente comer algo, se secar direito e dormir umas poucas horas.
Pode parecer estranho este relativo e aparente desinteresse pelo bem estar dos visitantes (na verdade nós éramos um assunto importante ali), uma vez que a comunidade já havia sido avisada da nossa chegada, mas pelo fato de já ter trabalhado com vários tipos de comunidades rurais, como assentados, pescadores, mateiros, cortadores de pedra, etc, alguns destes morando em baixo de lonas, percebo que fiquei menos chocado com este comunitarismo e democratismo todo e com a aparente ausência de uma estrutura de recepção, do que meus companheiros de viagem, mais acostumados à hierarquia. Como eu iria perceber ao longo da minha permanência por lá e também na volta a São Gabriel, eram apenas visões diferentes de mundo. Afinal de contas, quando um indígena chega numa cidade dos brancos, pela primeira vez, mesmo em São Gabriel, o que ele encontra e tromba é com o formalismo, a burocracia, os jogos de aparências, o militarismo explícito, a exploração da ingenuidade, o mercantilismo, os desperdícios, desinteresses e futilidades, que devem igualmente parecer muito estranhos para eles.
No dia seguinte estávamos embarcados, desta vez numa instável canoa de tronco com motor de rabeta (uma hélice adaptada a um motor de motoserra), rumo ao rio Arabo, um pequeno afluente do rio Curicuriari, que deságua em sua foz na forma de uma pequena e simpática cachoeira.
Adão Sampaio e José Lelis, nossos guias são da etnia Desano. Ambos são poliglotas, ou sejam, falam algumas das várias línguas existentes na região, além do portugues. O mais experiente deles, Adão, já teve oportunidade de guiar alguns grupos na região. Ambos são colombianos naturalizados brasileiros e pessoas esclarecidas, em especial Adão, que é líder da comunidade e muito preocupado em fazer com que este roteiro que estamos pondo no papel se torne um produto da comunidade e do seu povo, algo que já foi prometido a ele em outras ocasiões e esquecido. São montanheses, tem ritmo próprio para andar nestas terras, conhecem as montanhas, se deslocam bem.
Consegui reduzir substancialmente minha mochila para esta caminhada, sem saco de dormir (desnecessário), apenas um casaco leve e uma muda seca de roupa para dormir. Alimentos leves, água para a caminhada, repelente de insetos. Para o grupo foi levado um fogareiro e umas duas panelas. Além de comida. O que fez diferença substancial entre o peso da minha mochila e a dos militares foi a enorme e estrambótica rede de selva deles, que deve pesar em torno de 4 quilos de cordinhas, fitas e muito nylon, ao passo que a minha, que construí há uns 18 anos atrás é extremamente minimalista (mais muito mais prática), pesa algo como 900 gramas, incluindo toldo e mosquiteiro, além de proteger a mochila da chuva e das assustadoras formigas.
O calor terrível, por volta dos 30 e tantos graus, é mais suportável do que na cidade por conta da sombra da floresta, mas como estamos fazendo uma caminhada pesada, ele nos faz suar e beber sofrivelmente, o que produz mais suor e mais vontade de beber. É bem contraproducente, então há que se controlar até que o corpo se aclimate a esta situação de radiador fervendo, o que leva tempo…, em alguns casos vale o truque de manejar a mochila, soltando as alças para deixar o peso na cintura nas descidas e ventilar as costas, puxando alças apenas na subida, o que minimiza o calor. Mas todos enfrentam a situação com bom humor.
O equipamento dos nossos guias é igualmente minimalista, farinha, anzol, espingarda, rede, toldo de plástico, fumo, isqueiro para acender o fogo da pesca ou da caça. Coisas que vão encaixadas no jamashi, o funcional cesto/mochila criado para transporte de carga na testa ou nas costas.
Este primeiro dia de caminhada é praticamente em terreno plano, em meio a um trecho de floresta amazônica bem aberto, com árvores enormes e igarapés rasos, com exceção de um trecho de campinarama, um tipo de vegetação que lembra o cerrado brasileiro. Avançamos rápido no trajeto, que se é exaustivo do ponto de vista do calor, também é tranquilo no terreno. Porém gastamos um tempo adicional para desenhar o roteiro que no final deverá ficar com o pessoal da aldeia, afinal é uma “tecnologia social”, criada por eles, como dizem meus colegas das ciências sociais.
Acabamos o dia em um acampamento base no próprio rio Arabo que havíamos visto no início da caminhada, um típico rio de montanha tropical, com grandes matacões, água transparente e alguns peixes que Adão e José habilmente pescam para completar o jantar. Só falta agora montar a rede e negociar com as formigas e pernilongos uma noite de sono tranquila…
Subindo montanhas amazônicas
No dia seguinte, após a travessia do Arabo já pegamos trecho íngreme montanha acima. Varias horas de matacões, pequenos desfiladeiros, passagens íngremes ou úmidas aqui e acolá. Calor, chuva, frescor, frio, neblina. Fazemos dois cumes, o dedinho e a mão da Bela Adormecida. São subidas simples, mas trabalhosas, com encostas íngremes em alguns trechos e necessidade de alguma habilidade, situações parecidas com caminhadas que já havia realizado na Serra do Mar no Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, etc, com a diferença que à distância, nada de cidades, estradas ou lavouras, apenas o rio Negro e mais e mais florestas. A natureza em sua forma mais plena e primitiva possível. Não dá para torcer o pé ou levar uma mordida de cobra em um lugar destes. Meus dedos, no entanto ficam todos feridos pelo atrito da bota em lugares onde, por mais que usasse repelente de insetos, levei mordida de mosquitos do tipo “pólvora”.
Aqui e acolá belas, íngremes e grandes paredes rochosas esperando ascensões (calorentas e desidratantes, certamente). Este mundo primitivo tem toda uma vegetação peculiar adaptada a esta nova condição amazônica, que é o de uma montanha em meio a esta exuberante floresta.
No cume as árvores são anãs, adaptadas a míseros 10 cm de solo que é o que consegue se manter por ali. Há toda uma beleza no lugar, sem ser espetacular. De qualquer modo meus objetivos foram atingidos e é para isto que eu tinha feito esta viagem toda, para ascender estas montanhas e ver um pouco da sua beleza.
Verdes e olivas
Na volta ao acampamento base percebo que o ritmo lento que vínhamos mantendo estava sendo mais prejudicial aos meus pés e acabo me afastando com um dos guias (José) um pouco mais rapidamente em direção ao acampamento, pois minha intenção era tomar um banho no igarapé e dar um alívio aos pés antes do anoitecer, coisa que no meio da floresta acontece por volta das 6 da tarde. Como Adão, o outro guia, era mais experiente naquele trecho da trilha, não vi inconvenientes de me separar do grupo, aliás, já tinha feito trechos longos sozinho em meio a esta imensa e verde floresta, após entender a lógica do caminho. Isto produziu algumas cenas curiosas. Após uma boa meia hora de caminhada, já longe dos demais do grupo, José finalmente se dá conta de que só estamos caminhando em dois. Tranquilizo-o explicando que Adão dará conta de levar os demais ao acampamento. Isto de certa forma explica um pouco o modo de agir extremamente autônomo daqueles homens. A floresta é, de fato, a casa deles. Viveram a vida inteira ali e é difícil para eles imaginarem que precisam conduzir homens adultos como se fossem crianças através da casa deles. Mas na verdade é o que terá que acontecer no futuro, caso eles comecem a conduzir turistas na região. Não necessariamente todos os que aparecerem por lá serão montanhistas.
Logo em seguida outra situação curiosa. Ouvimos pessoas abaixo de nós, o que neste lugar é absolutamente insólito. Como veríamos logo adiante, tratava-se de um grupo de soldados de um destes grupos de selva aqui da Amazônia, paramentados para guerra com tudo o que tem direito e estatelados com o peso disto tudo no meio da subida, junto com um guia indígena.
Os militares, me pareceu, continuam bastante doutrinados nesta ideia de que a Amazônia vai ser invadida amanhã por algum grupo guerrilheiro ou tomada por alguma potência estrangeira, por isto o tenente que comandava o grupo já começou me interpelando em inglês. Bom, fiquei no converserê mineiro com ele algum tempo, mas senti que ele não se convenceu muito quando disse que dois sargentos e um capitão estavam mais para trás (bem mais na verdade, o que certamente não condizia com a minha frágil condição de civil), além disso, aparentemente oficiais mais graduados não são chegados a este tipo de atividade (o que certamente aumentou o prestígio do capitão que nos acompanhava), com isto acabei abreviando a conversa, pois tinha um igarapé me esperando e no momento sentia que não estava representando nenhuma ameaça à segurança nacional. Na verdade este grupo tinha a missão de subir à testa da Bela Adormecida, algo que simplesmente não tinha como acontecer por ali, pois estávamos no trecho das mãos da Bela, portanto o caminho deles era outro, era outro o conjunto de montanhas que eles procuravam. Mas enfim, isto era coisa para ele resolver com o chefe dele depois…
Mais tarde fiquei curioso em entender o que levava jovens como aqueles que eu tinha conhecido até então, a abandonar confortos e facilidades que os centros urbanos oferecem para vir até uma espécie de “exílio na selva”, pois com exceção dos soldados, na maioria indígenas, os demais, sargentos, tenentes e daí para cima são voluntários na Amazônia.
Conversando com meus parceiros de caminhada, percebi que para muitos jovens como este tenente ou mesmo para eles que me acompanhavam, faz mais sentido existir forças armadas aqui, uma imensa e vazia floresta que faz parte do país onde eles nasceram e com uma população, que bem ou mal, acaba sendo assistida por eles, do que ficar lustrando botas em algum quartel no Rio de Janeiro.
Aqui neste trecho da Amazônia, onde tudo é muito precário, eles representam um serviço público federal, que é singular na sua capacidade de organização (recursos financeiros, engenharia, transportes, comunicação, assistência médica, etc), coisa que Icmbio, Polícia Federal, universidades, não tem, o que não é pouco. Então eles são importantes aqui e sabem disto.
Além disso, eles me explicaram que há também toda uma mística aventuresca na Amazônia, o que também não é pouco em pleno século XXI e isto parece trazer mais sentido à vida deles e mais prestígio junto aos demais militares do país.
Existem atritos aqui, entre indígenas, Icmbio, prefeitura, militares, turistas que entram nos lugares sem autorização, mas nada que se compare aos países vizinhos, onde infelizmente a ameaça já se concretizou de fato, seja na forma de espertalhões que exploram sistematicamente as riquezas da floresta, em detrimento dos seus legítimos moradores, seja nos traficantes ou nos guerrilheiros que raptam crianças para transformá-las em soldados mirins ou que maltratam os indígenas (Adão fugiu da Colombia por este motivo). Certamente os militares que passam por aqui saem com outra visão do país e de suas carências, o que é bom para eles.
Agora atenção, se você é sensível e gosta de bichinhos, pule esta parte do artigo!
Mesmo entendendo um pouco mais o pensamento dos militares, foi mesmo com os nativos, que são montanheses, que eu consegui fazer uma interação maior. Tanto em conversas, em desempenho na montanha, como em atitudes. Só não participei da caçada de queixadas deles porque não tenho este tipo de habilidades.
Aliás, esta foi uma parte interessante do meu passeio. A única vez que eu tinha participado de uma caçada foi quando era adolescente em Itararé, quando fui visitar parentes do meu pai.
Na época um tio meu e um primo, pessoas pacatas e calmas, me convidaram para uma caçada, na qual eles levaram, cada um, uma espingarda e um cachorrão enorme, para caçar umas aves minúsculas (codornas). Como não podia deixar de ser, na hora que o instinto de caçador batia, os dois se transfiguravam. Depois de apanharem um punhado daquelas aves inofensivas, todos, inclusive os cachorros, acabaram se atracando com um tatu, que foi capturado e guardado na oficina de tratores do meu tio. Pois bem, o tal tatu cavou um buraco enorme por baixo da oficina e conseguiu fugir.
Não foi o caso da queixada. Um bando com uns 20 porcos selvagens destes cruzou na frente do Adão, que não quis conversa: acertou o bicho que foi ainda pra frente uns bons metros. Todos os outros queixadas começaram a ficar raivosos (batem os maxilares, com um ruído forte, daí o nome). Um dos nossos amigos militares sacou uma pistola e começou a dar tiros a esmo. A bicharada toda ficou bastante alvoroçada (a queixada é um animal bem agressivo quando acuado), mas não avançaram pra cima da gente.
Alguns metros adiante o Adão já estava arrastando o bicho, uma fêmea, para a beira de um igarapé, onde ele começou a cortar o bichão, para tirar uma bolsa (glândula) responsável por exalar mal cheiro, que é uma defesa do animal e destripar as víceras (que ficaram por ali). Depois disto cortou a cabeça, os pernis e partes do corpo (para levar). Finalmente, ele retalhou em dois o bicho, para dividir a carga com o José, lavou as partes que ia levar e embrulhou em sacos plásticos que demos para ele. Foi tudo para o Jamashi, que por isto estava vazio.
Tudo isto foi feito rapidamente, com bastante habilidade, assim como faz o açougueiro que destrincha a vaca, a galinha ou o porco que você leva da prateleira do supermercado. A diferença, no caso deles, é que esta carne (uns 15 a 20 kg) vai alimentar a aldeia toda naquela noite, na refeição comunitária e não apenas um jantar de namorados em um restaurante bacana. Depois percebemos que deve ter algumas centenas de queixadas destas por aqui, pois passamos por mais quatro bandos.
Amazonidades: humanidades amazônicas
Adão, como o nome sugere, é um destes homens primordiais aqui da Amazônia. É um líder de uma comunidade, responsável por um grupo de pessoas, como alguns que eu já conheci em Superagui (litoral do Paraná), em Carajás (no Pará) ou em outros lugares. Está preocupado em manter vivo um papel que ele ganhou dos brancos que diz que a comunidade dele é proprietária de um pedaço de terra onde estão estas montanhas onde ele e mais um punhado de pessoas caça para alimentar a comunidade. No rio Negro ele me mostra o lugar onde o irmão mais novo dele morreu afogado quando a canoa afundou, pergunta quanto custa o GPS, a bota, o canivete, se mostra admirado com minha rede, pergunta se os turistas vão achar ruim se ele caçar enquanto estiver levando eles para passear, pergunta se dá para fazer um projeto para construir uma escola de alvenaria na aldeia porque a de madeira e palha é muito quente. Diz que já veio gente fazer a trilha, que prometeu deixar um desenho dela para ele poder mostrar para a comunidade e nunca mais voltou (eu fiz um croqui da trilha no computador da comunidade e imprimi para eles). Ele me mostra um monte de ervas medicinais que diz que nunca mostra para os americanos, está preocupado com o filho ainda de colo, que está com conjuntivite, me chama de professor porque acha que eu sei de muita coisa, mas é um notável prático no trecho pedregoso do rio Curicuriari. Se admira que eu não esteja cansado, diz que não dá para julgar pelas aparências, se mostra incomodado com o lixo dos soldados, diz que a placa solar poderia funcionar melhor, mas o conserto sai por 4 mil reais. Organiza uma pequena apresentação das crianças da comunidade para nós. Se espanta em saber quanto custa criar um filho na cidade. Explica que com 10 anos todo menino e menina já sabe tudo que um homem ou uma mulher precisa para sobreviver no mundo deles.
Assim me despeço dele, cada qual, imagino, curioso e um pouco embasbacado com o mundo do outro.
Apoio: Conquista montanhismo


Relato cativante meu caro. O episódio do bando de queixadas cruzando com vocês deve ter sido hilário.
Só não seria hilário, Eliseu, se as tais resolvessem cobrar as queixas dando um corridão na gente. Aí ia ser gente se espalhando pra tudo quanto é lado.
Gostei do texto Du Bois. Muitas aldeias estão visualizando no turismo uma oportunidade. Aqui no Paraná, no Vale do Ivaí, alguns indígenas estão discutindo esta possibilidade. Incrível tbm a diferença de valores e o aprendizado dos reais valores ambientais, como o do jantar de queixada x jantar a luz de velas em algum restaurante pomposo… Grande abraço do Anhanga.
Excelente notícia de que já existe iniciativa de investimento ecoturístico organizada no Pico da Neblina e arredores. Isso sim é ocupação da Amazônia, de modo inteligente, sustentável, e que integre todos os povos.