Por Edson Struminski (Du Bois)
Como escrevi em um post anterior, chegar em São Gabriel da Cachoeira, algo que só pode ser feito por via fluvial ou pelo ar, já representa uma aventura e uma dificuldade adicional a um viajante. A cidade tem uma estrutura precária de serviços, com asfalto caindo aos pedaços, poucas calçadas, lixo abundante pelas ruas, energia elétrica fornecida por um gerador a diesel, que volta e meia sobrecarrega. Isto lembra os percalços que eu vivi na infância, em um ou outro lugar do Paraná nos anos 60 do século passado e, em um certo sentido, é neste mundo que esta fronteira da Amazônia ainda vive.
Em outros estamos como em qualquer lugar do Brasil do século XXI: antenas parabólicas, celulares, lap tops, mas o lugar tem uma série de peculiaridades, algo como 90% da população de 37 mil habitantes, segundo dizem, é composta por indígenas das mais de 20 etnias que existem na área urbana e em mais de seiscentas comunidades espalhadas nas calhas do rio Negro, Waupés, Içana, Ayari, Tiquié, Xié, Cauaburis e seus afluentes. Há tres linguas oficiais no município além do português: nheengatú, tukano e baniwa.
São Gabriel está na Bacia do Alto Rio Negro. Se vocês derem uma olhada em um mapa do Amazonas, perceberão uma região parecida com uma “Cabeça do Cachorro”, que é como este território é chamado pelos militares. O município é cortado pela linha do Equador e limita-se ao norte com a Colômbia e Venezuela.
A extensão territorial de São Gabriel da Cachoeira é uma das maiores do país: 109. 185,00 km². O que isto significa? Um grande vazio populacional, pois essa área é superior a de vários estados brasileiros como o Rio de Janeiro (43.910,01 km²), Santa Catarina (95.346,18 km²) ou Pernambuco (98.311,62 km²) e obviamente de alguns países também. Parte do seu território é abrangido pelo Parque Nacional do Pico da Neblina, fechado para visitação, além de terras indígenas demarcadas e regularizadas (cerca de 80% do território municipal). Parte das terras indígenas está dentro do parque.
Por estar na complicada faixa de fronteira entre Brasil, Colômbia (hoje sede do grupo guerrilheiro FARC) e Venezuela (hoje casa do Hugo Chavez e de seus aviõezinhos russos) e inserir-se em região de grande interesse nacional e internacional, já em 1968, ainda nos tempos da ditadura, o município foi incluído em Área de Segurança Nacional, o que intensificou a presença do exército e da aeronáutica no município e, atualmente também da marinha do Brasil. O exército mantém o Comando de Fronteira do Rio Negro. No município, encontra-se sediada, atualmente, a Segunda Brigada de Infantaria de Selva, o Quinto Batalhão de Infantaria de Selva, a 21ª Companhia de Engenharia de Construção do exército brasileiro e o Destacamento do Controle do Espaço Aéreo de São Gabriel da Cachoeira.
Esta sobreposição entre territorialidades de segurança nacional, vastas terras indígenas e unidades de conservação em São Gabriel coloca grandes desafios para o planejamento e gestão territorial local. Implica na convivência de diferentes atores sociais e institucionais, com respectivos interesses e formas de atuação no território, pois envolve distintos entes da federação. Atritos sempre aparecem.
São Gabriel está somente a 90 metros de altitude, o que significa que o Amazonas e seus afluentes tem um desnível baixíssimo em relação à foz, se formos considerar seus milhares de quilômetros de comprimento, o que faz com que as montanhas da região se destaquem ainda mais. Além do Pico da Neblina, a Serra do Cabari, o Morro dos Seis Lagos e a Serra Curicuriari ou Bela Adormecida que emoldura a paisagem de São Gabriel são outras montanhas que dão um ar “pouco amazônico” a esta região.
É sem dúvida uma região de natureza belíssima, com praias de areia super branca e água super escura, da cor da coca cola, que devia montar uma fábrica aqui para economizar corante. Existem abundantes ilhas fluviais e muitas montanhas também. Embora a distância, geralmente através de algum transporte fluvial, seja longa. A produção artesanal: remos, cestos, objetos decorativos e utilitários, com palha ou cerâmica é belíssima.
A dificuldade aqui é o calor equatorial (definitivamente não é um balneário de férias) e a precariedade da estrutura e dos serviços da cidade, que fazem com que o lugar esteja longe de ser atraente. Passar pelo caos urbano da cidade faz parte da experiência necessária para escalar suas montanhas…
