Por Edson Struminski (Du Bois)
Aqueles que por ventura acompanham com certa regularidade este meu blog talvez estranhem este post, em relação ao anterior, que contava de minhas andanças na fronteira sul do país, um ponto do mapa brasileiro de onde se avistava nosso país vizinho, o Uruguai.
De fato, assim como Santana do Livramento é um dos últimos municípios brasileiros ao sul, São Gabriel da Cachoeira, milhares de quilômetros acima, é um dos últimos ao norte, mais especificamente no noroeste do Amazonas, fazendo fronteira com a Venezuela e Colômbia. E acabei vindo para cá apenas dez dias depois de passar algum tempo mirando a fronteira sul.
Na verdade, como muitos de vocês já sabem, este trajeto, o espaço físico entre o sul e o norte do país pode ser coberto em questão de horas, pelo menos entre as capitais. Então este é o tempo entre estar tomando um mate em Porto Alegre e provando um suco de graviola em Manaus, na beira do rio Amazonas.
Manaus como toda capital ou metrópole brasileira que se preza, concentra grande parte da população do seu estado, o Amazonas e tudo o que isto significa nos dias atuais no Brasil, em termos de riqueza, mazelas urbanas, obras monumentais e infra estrutura caótica sendo reformada apressadamente para a copa do mundo, com suas inevitáveis denúncias de corrupção, etc, etc,…
Copa do mundo à parte, a cidade é uma construção moderna em meio à floresta tropical e em certo sentido, tirando um pequeno centro histórico da época do ciclo da borracha (final do século XIX e início do século XX), encontro nesta cidade o mesmo frenesi da modernidade que vi em algumas das capitais nordestinas que conheci: Salvador, Natal, São Luis e se formos estender um pouco, é o mesmo frenesi que encontro também em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Brasília. O fato é que a modernidade, com seus shoppings, grandes viadutos, avenidas largas, trouxe soluções despersonalizantes fartamente utilizadas em nossas grandes cidades. Variando apenas o clima mais ou menos abafado, mais ou menos seco, mais ou menos frio…
Então é preciso buscar no ambiente natural e nos regionalismos, como a música ou a culinária algo que distinga Manaus das demais cidades.
E embora seja menos óbvio do que parece, pois é preciso atravessar uma muralha de prédios e um labirinto de avenidas e ruas para fazer isto, somente quando provo um Tucunaré (peixe típico amazônico) em um modesto restaurante na beira no rio Amazonas e embarco em um transporte que vai subir o Rio Negro é que consigo distinguir e mesmo avistar a cidade de Manaus, queimando embaixo de um sol equatorial e escondida do rio atrás de seus prédios modernos com ar condicionado. O grande rio é de fato, a razão do surgimento desta cidade em um ponto estratégico, algo que a modernidade acaba por reduzir.
Apenas a alguns quilômetros adiante, este ponto estratégico faz sentido, pois o rio Amazonas se divide nos seus dois mais famosos afluentes: os rios Solimões e Negro, cada qual seguindo para alguns dos confins do Brasil.
Subindo o rio Negro
Algo entre 23 a 27 horas separam Manaus de São Gabriel da Cachoeira por um barco. O tempo de viagem varia conforme a condição do rio, se está mais ou menos cheio, se a correnteza está forte ou fraca, se as chuvas atrapalham a navegação, etc.
Esta é, de fato, minha segunda investida na Amazônia. Na primeira, que contei numa série chamada “Cartas Amazônicas”, mostrava minhas andanças pela região da Serra de Carajás, no Pará, um dos trajetos do “arco do desmatamento” da Amazônia, região onde o boi e o pasto já tomaram o lugar da floresta em muitos lugares e a mineração criou uma dinâmica econômica tão grande a ponto de provocar a proposta de criação de um novo estado, o Estado do Carajás, embora algumas regiões, como as montanhas onde Carajás se situa ainda estejam preservadas.
No Amazonas o mundo é outro, a paisagem é uma vasta e monótona planície coberta por uma densa floresta e cortada pelos rios, exatamente como aparece na televisão. Aqui e muito acolá uma pequena casa de ribeirinhos, mas muito raramente. O Amazonas tem de fato, 80 ou 90% de sua cobertura vegetal ainda intacta. Um país verde. Então aí está. Este é, em essência, o grande deserto humano que é o sonho dos ambientalistas em seus devaneios na Avenida Paulista ou nos prédios modernosos de Brasília.
Como há uma sazonalidade pronunciada no regime de chuvas na Amazônia, estamos no período de secas no momento em que escrevo. O período é quente e seco e os rios, inclusive o Amazonas, estão baixos, coisa como 4 metros abaixo do nível normal. Assim, apesar de algumas centenas de metros de largura, o rio Negro, com sua água com a cor da coca cola, baixa também muito na época da seca e afloram muitas pedras, o granito primordial do continente brasileiro.
O barco no qual estou viajando, uma lancha como dizem aqui, é, na verdade, um grande ônibus convencional para 120 pessoas. Viaja o tempo todo lotado. É quente e desconfortável. Na tentativa de minimizar este desconforto, algumas pessoas se esparramam pelo chão tentando dormir um pouco. Espaços na proa são disputados pelo ar fresco. Mesmo assim é um barco rápido se formos considerar que um transporte mais lento leva em torno de 2 a 3 dias e embarcações de carga podem levar até 7 dias (balsas) para fazer este mesmo trecho.
Barcelos e Santa Izabel são as duas únicas localidades que o barco atinge neste trajeto. Pontos no mapa. São Gabriel da Cachoeira é o fim deste trajeto, pois acima daí começam corredeiras fortes e somente com voadeiras e barcos menores. O rio é tudo então para estes lugares, caminho, fonte de energia, de alimentos, de contatos com o mundo. São Gabriel tem aeroporto (mas poucos voos) Se o rio seca demais os barcos já não sobem e os problemas começam.
São Gabriel é a maior cidade do rio Negro. Assim como Carajás, talvez em um futuro não muito distante este trecho do Estado do Amazonas se separe em uma unidade nova da federação brasileira. A maior parte da população de 40 mil pessoas faz parte de alguma etnia indígena da região. A cidade tem tres línguas oficiais, o português é uma delas, as demais são de origem indígena, além de vários dialetos falados por diversas etnias. O outro contingente importante de pessoas é de militares das tres armas, que tem certos benefícios em servir na Amazônia e vem com suas famílias. Além de guarda da fronteira com nossos inquietos vizinhos, Colômbia e Venezuela, eles fazem trabalhos de engenharia, medicina, sendo as principais instituições governamentais nesta região.
Por conta do granito, o rio Negro é mais ácido que o Amazonas, isto significa menos peixe, uma água menos palatável, mas também menos insetos do que em outras regiões amazônicas.
Existem algumas montanhas, praticamente no fim desta viagem. Elas demoram a aparecer. São Gabriel é o ponto de partida para o Pico da Neblina, atualmente em um parque fechado pelo Icmbio. Porém, algumas horas antes da chegada em São Gabriel, aparece uma outra bela cadeia de montanhas de granito, objetivo desta minha viagem, a Serra da Bela Adormecida…
