Por Edson Struminski (Du Bois)
A BR 373, que liga Ponta Grossa a Prudentópolis está tomada pela neblina e, felizmente para mim, o movimento nesta estrada está na medida certa, nem excessivo a ponto de testar os nervos, nem tão baixo a ponto de fazer com que a monotonia da paisagem esbranquiçada me leve a um sono perigoso nesta estrada de mão dupla, que apesar de bem conservada (é pedagiada) tem lá suas armadilhas e desta vez estou sozinho.
Alguns quilômetros antes de chegar à esta cidade, dou uma guinada em uma estradinha rural, que cruza um faxinal. Hoje já aprendi a entender os sinais sutis que caracterizam este singular uso da terra típico desta região do centro sul paranaense: mata-burros na estrada, animais soltos em meio às áreas florestais, cercas praticamente ausentes entre as propriedades, um certo ar bucólico na paisagem.
Andar em busca dos saltos dos rios da região exige uma navegação múltipla. É necessário usar alguns mapas precários, ficar de olho nas placas indicativas, quando existem, regular a quilometragem e perguntar para as pessoas, mais de uma vez, pois as informações podem ser contraditórias. Você pode se guiar também pelas latinhas que os visitantes jogam pela estrada, algo que, como já comentei em um artigo anterior aqui no blog (http://blogdodubois.wordpress.com/2010/11/11/livre-acesso-ao-salto-sao-jorge-ate-quando/), é uma espécie de marcador extra-oficial do turismo alienado que acontece nestas regiões.
Cruzo o rio dos Patos, volumoso e tranquilo, que nada sugere do que vem pela frente. E o que vem pela frente é o salto Barão do Rio Branco, que cai em mais um degrau portentoso que a geologia da região aprontou para os rios da região, no inevitável caminho das águas em direção às terras mais baixas.
Andando pelas estradinhas esburacadas da região, neste pedaço do Brasil que sugere um pouco da Ucrânia, com suas antigas picapes Willis, crianças loiras e casas de madeira, modestas e bem cuidadas, percebo que nada na paisagem sugere estas impressionantes alterações que os rios provocam no relevo. De fato, de cima do salto Barão do Rio Branco o que vejo é um impressionante cânion modelado pelo rio e coberto pela vegetação densa e úmida, que contrasta com as pedras escuras do rio. Uma sensação de natureza em construção, como havia visto em minha visita anterior a esta região (http://blogdodubois.wordpress.com/2011/04/26/prudentopolis-escalando-na-originalidade/)
Falar em geologia sempre nos lembra eras remotas da Terra, períodos antigos. Na verdade a geologia é algo dramaticamente vivo e marcante ali, na mudança do Terceiro para o Segundo Planalto Paranaense. Um dos processos de evolução do cânion parece ser o próprio trabalho da água erodindo e rompendo diretamente a rocha. Mas não o único, o relevo é incrivelmente dinâmico, como aliás eu veria dali a instantes.
Mas naquele momento, em cima de um platô plano do topo do salto, o que eu vejo é o belíssimo cânion do rio, um coalhado de pedras negras arrancadas das paredes rochosas e a vegetação tentando ocupar ao máximo a riqueza do solo gerado pela decomposição daquela pedra basáltica. Esta visão fascinante, um trecho de natureza que não tem como ser modificado, é o que tem justificado minhas visitas a estes lugares.
Também vi uma bela cachoeira vertical, com volume bem menor de água, mas que misteriosamente desapareceu minutos depois (este mistério eu descobriria depois), além de uma inusitada construção, uma robusta casa de pedra a algumas dezenas de metros da base da cachoeira.
Esta construção é uma casa de máquinas de uma PCH, uma central hidrelétrica construída em um período em que a geração e distribuição de energia nas áreas rurais no Paraná era algo remoto. Isto mudou, claro, mas a PCH continua em funcionamento, sendo usada por uma fábrica de cartões e embalagens. É uma complexa e pesada estrutura, mas que ainda assim representa uma forma de aproveitamento energético muito menos agressiva ao ambiente que as grandes centrais hidrelétricas, estas sim monstruosas e altamente impactantes. O fato é que o salto continua lá, apenas parte da água é desviada para a PCH e depois volta para o rio livre. O restante desce pelo degrau do salto Rio Branco.
Armo um rapel a partir de árvores e aproveito, mais uma vez um dos meus achados, um pedaço de mangueira que encontrei nos arenitos de Ponta Grossa, que uso para proteger a corda e que é obrigatório nestes ambientes angulosos. Eu sabia que as possibilidades de escalada nesta parede eram, naquele dia, praticamente nulas, pois a base da cachoeira estava totalmente encharcada pelo respingo da água, mas me interessava ver que tipo de vegetação se agarra às rochas, ver um pouco da diversidade de vida vertical desta parede, conhecer um pouco mais desta rocha, então desço pela parede.
Apenas 6 ou 7 metros abaixo do platô plano do topo do salto aparece um primeiro teto e logo depois um segundo, formado recentemente. Lá pela metade da corda faço um pêndulo e consigo me agarrar aos galhos de um Guaperê (Weinmannia sp) , uma arvoreta que cresce ali, em meio a um caos de pedras soltas.
Deduzo que esta parte do cânion está sendo formada a partir “de baixo”, com a desagregação da rocha a partir da base da cachoeira, que se decompõe e sobrecarrega trechos mais altos até chegar ao topo do platô, ali mesmo onde amarrei a corda. Neste momento falta desabar apenas aqueles 6 ou 7 metros acima do teto que ultrapassei, mas há locais ali ao lado onde a espessura já é bem menor, coisa de 50 cm.
Agora que minha porção “científica” já havia entendido este novo processo de evolução do cânion, era hora de cair fora, sem derrubar nada, sem fazer movimentos bruscos, sem precisar assistir ao desabamento ao vivo. Armo, então, uma subida em ascensores e sigo jumariando parede acima, um tipo de manobra tensa, em que sempre tento resistir a tentação de pensar em quanto a corda parece fina, em que tenho que me concentrar nos meus próximos movimentos, em não cometer erros que possam ser difíceis de consertar, em não derrubar coisas das mãos, em torcer para que o rio não resolva, por um motivo qualquer, encher exatamente naquele momento…
Para quebrar a tensão aproveito a oportunidade para fotografar a vegetação, as rochas e a água do salto deste ângulo incomum e assim vou até chegar a um trecho em que posso subir escalando, testando novamente pés e mãos no basalto.
Resta a curiosidade sobre a PCH. Recolho o material e vou em busca de alguma trilha que dê acesso à base da cachoeira e à casa de máquinas. Encontro o canal de desvio de água do rio e muito, mas muito lixo mesmo, recolhido pelo pessoal que faz manutenção da PCH nas telas de filtragem da água que desce até as turbinas. De onde vem tanto lixo? Esta é a pergunta inevitável. Ao longo do curso deste rio, zonas rurais e urbanas certamente devem usar rios como este como despejo de lixo, fora, é claro, aquilo que os turistas gentilmente despejam quando aparecem para ver esta maravilha natural. Assim, em meio ao selvagem, sinais da cidade.
Mas há toda uma complicada engenharia pelo caminho. O canal de desvio acaba e a água entra por imensos canos que descem até a casa de máquinas. Em cima dos canos corre um trilho e vagonetes que servem para transporte de materiais. Uma longa escadaria de ferro, mais de 400 degraus vai em direção à casa. Há também registros que esgotam a água do canal de desvio para as rochas e para o rio, a misteriosa cachoeira temporária que havia visto quando cheguei.
A casa de máquinas é uma sólida construção antiga e é possível sentir a vibração das turbinas na própria escadaria de ferro.
A montagem de toda esta complicada estrutura é fascinante e não deixa de ser um pouco decepcionante você visitar um lugar como este e não encontrar nenhuma informação visível, seja em relação ao salto, ao rio ou à esta casa de força. Nada que valorize a história do lugar, o esforço humano para produzir energia a partir da força bruta da natureza, nada que nos fale da forma como a vida se adaptou a este ambiente inóspito.
Carrego um tanto de lixo de volta para a cidade e saio em busca de outro salto. O salto Sete.
Outra estrada rural, outros caminhos, ausência de informações. O faro funciona mais que as indicações confusas e me vejo em uma área particular degradada, aparentemente sendo preparada para um “turismo sofisticado”, leia-se, urbanóide, com pouca integração na história local.
Desta vez estou no meio do vale, do cânion. Vejo os saltos pelo caminho da floresta, experimento a verticalidade da vegetação se agarrando aos lugares e vislumbro a cachoeira apenas pelas frestas entre as árvores. Mas o tempo passa e desta vez não terei o tempo necessário para explorar esta região também.
Na volta não resisto e paro em um pequena e simpática igreja com arquitetura ucraniana, toda colorida e cuidada de forma carinhosa pelos moradores da região que permitem que eu visite e fotografe os detalhes arquitetônicos que sempre me fascinam nestas construções.
Assim, visitando esta singela construção é que percebi que é preciso manter a sensibilidade aguçada, não se concentrar apenas na limitada descarga de adrenalina que uma mera descida de corda provoca, que é o que lemos nos blogs das pessoas que passeiam na região . Em detalhes delicados ou paisagens majestosas, é que esta região pode manter o fascínio para nós.


linda foto. ainda não conheço Prudentópolis…rsrsrs…mas ainda vou!
tbm adoro arquitetura de igrejas, até casei numa ucraniana, aqui em PG, bem antiga…conhece?
Oi Malu
Esta simpática igrejinha é no caminho para o salto Barão do Rio Branco