Por Edson Struminski (Du Bois)
Mais uma vez “eu clips”, diz a Lua. Um aluno aqui da geografia da UEPG me perguntou se “o clips da Lua era quando que o sol entrava entre a Terra e a Lua e não dava para a ver a lua…”
Nada tão sensacional ou caliente assim. Na verdade é uma coisa mais doméstica, entre nós e nosso, por assim dizer, satelitezinho, uma sombrinha que fazemos nele. O Sol se chegasse perto derreteria tudo. Então esta nossa sombra faz com que não dê para ver a Lua por alguns minutos.
Mais é um evento meio raro a clips, como Olimpíadas, outra só daqui a quatro anos, então eu resolvi dar uma chance a clips e fui vê-la ontem, 15 de junho de 2011, longe das city lights de Ponta Grossa, lá no morrinho que vai para a represa dos alagados, um descampado pedregoso, definição estranha, pois descampado deveria ser ausência de campo e no entanto, o que me atrai ali é justamente o fato de ter um campo aberto, com afloramentos de arenito, rochas para saltitar, local simpático para namorar, andar pelos campos, apreciar a paisagem, ficar sozinho, ver clips e como eu já tinha exercitado as tres primeiras atividades, ficaram os outros dois pogramas para conferir. Pogramão a tal clips.
Bem, então eu vi a clips da Lua. Inverno, noite fria e clara nestes descampados. A Lua aparecendo apagada, sem graça e, aos poucos se livrando das sombras da Terra, iluminando-se.
Me dei conta, então, de que, naquele momento, todo o meu mundo, em um certo sentido, fazia sombra naquele outro mundo. Montanhas, mares e geleiras da Terra, sombreavam a Lua. A grande floresta Amazônica, o deserto do Sahara, a Grande Barreira de Corais da Austrália, a Patagônia com suas montanhas geladas, todas projetadas no corpo celeste vizinho, que aliás continua com o mesmo corpinho de sempre, parece que nem viu o tempo passar.
Então estava tudo lá, as grandes muralhas da China, as pirâmides do Egito, os arranha-céus de Nova Iorque, o Coliseu de Roma, o Cristo Redentor do Rio.
Em um certo sentido, todo o meu mundo material estava ali, projetado no espaço, o mundo das coisas, das coisas naturais, das coisas construídas pelas pessoas.
Estava lá projetando sua sombra agourenta na Lua, a usina de Fukujima, os exércitos chineses no Tibet, as fábricas de agrotóxicos da Monsanto, algum petroleiro em sua última e perigosa viagem pelos mares do mundo.
Na clips da Lua também as pessoas, Obama e seu séquito, Lula de pijama, Justin Bieber, os BBBs, os 410 deputados que votaram a nova lei do desmatamento brasileira…
Minimamente na sombra da Terra que passou pela Lua, o morro Anhangava, onde aprendi a escalar, o Marumbi, onde quase morri, a simpática cachoeira do rio São Jorge em Ponta Grossa, o Salto São João em Prudentópolis, que conheci a pouco tempo e que encheu meus olhos.
Também meu mundinho, minhas coisas, as pessoas que amo, as que já não me interesso, meus desafetos, meus amigos, estavam projetadas na Lua distante. Tudo isto passando de leve pelo astro vizinho, nosso satelitezinho querido do coração.
Mas nem tudo estava projetado ontem na Lua: o amor do pai pelo filho, o carinho, o bem estar que podemos provocar em alguém que gostamos quando damos um presente inesperado, a música que alegra o coração.
Tampouco as sombrias atitudes humanas apareciam na Lua: a corrupção que usa canais internéticos para engordar contas na Suiça, as intenções ocultas dos deputados motoserras, a prepotência dos ditadores de plantão, o silêncio conivente dos burocratas.
Será que a Lua sentiu um arrepio quando a sombra da Terra passou por ela? Será que ela pensou? “Ufa, anda carregada esta Terra”, ou será que foi? “Acho que ainda tem esperança para ela.
Também estávamos na Lua ontem leitor, eu e você.
