Por Edson Struminski (Du Bois)
Números redondos são sempre curiosidades, o post de número 100 deste blog, este que vocês estão lendo, coincide com os quatro anos da criação do blog, que aconteceu em junho de 2007. A cada 12 meses, cerca de 25 textos foram postados, pouco mais de 2 por mês.
Outros números curiosos que coletei foram os de que aconteceram mais de 53 mil visitas a este blog, que recebeu 242 comentários pertinentes aos assuntos que foram publicados, indicando um diálogo em maior ou menor grau com vocês leitores. Hoje a média de acessos está em torno de 36 por dia.
São números discretos. Já ouvi comentários fora do blog que dizem que os montanhistas não são muito intelectualizados e que, portanto, fogem de textos que citam Ítalo Calvino, Foucalt, Morin ou Sérgio Buarque de Holanda. Preferem fotos. Isto não é verdade. Quando os textos são acessíveis às pessoas, eles são simplesmente lidos e apreciados.
Ao longo da vida deste blog foram publicados textos que classifiquei como “aventuras” (7), relatos (33), ensaios (40), entrevista (1), resenhas (2), história ambiental (7) e textos de pesquisas (9). Algumas vezes estas classificações se misturam, pois não há pretensão didática, educadora, na condução destes assuntos. Aliás, em termos mais didáticos, em março de 2009 surgiu o pesquisaemmontanha.wordpress, um filhote que surgiu do blogdodubois e que atualmente conta também com uma média de 30 acessos ao dia e que organiza a pesquisa científica justamente para fins didáticos.
A faceta pedagógica do montanhismo
Os gregos antigos criaram uma palavra de que eu gosto muito e que muito se encaixa na filosofia do montanhismo: paidós (criança) e agogé (condução). Portanto, pedagogia vem do grego e significa conduzir as crianças, mostrar caminhos, ou, em uma livre tradução, mostrar valores, enquanto que a educação visa, muitas vezes, apenas a adequação do indivíduo à sociedade, repassar os valores de uma determinada instituição ou professor.
No montanhismo estamos muitas vezes procurando caminhos, exercitando uma atividade que ultrapassa fronteiras de ideias, comportamento e de ações, uma atividade que não necessariamente se adequa a aquilo que a sociedade pensa ou quer do indivíduo, mesmo as associações de montanhismo. Por isto o montanhismo pode ser uma atividade muito pedagógica no que diz respeito a fazer com que as pessoas explorem tanto o mundo exterior como seus mundos interiores, que elas cresçam. Já a parte dedicada à educação formal ou informal no montanhismo é relativamente pequena. O auto aprendizado é muito maior.
Desde o início deste blog eu me propus a produzir textos que fizessem as pessoas pensar sobre o montanhismo, sobre as montanhas, sobre si mesmas nas montanhas. Em que medida as pessoas buscam hoje textos para ler e não apenas belas imagens? Textos que questionem quem elas são, suas posturas mais ou menos conservadoras, suas ideias mais ou menos atuais sobre a natureza, sua paixão pelas montanhas ou o mero exercício de um fetiche. Com isto, este blog se propôs a ser mais um espaço pedagógico do que de aprendizado. Há excelentes clubes, cursos e academias para as pessoas aprenderem a escalada e a prática do montanhismo, poucos espaços para elas pensarem sobre isto. Os blogs são ótimos espaços para isto porque permitem que os leitores até mesmo questionem o que eu escrevo e mudem minhas ideias. Por isto persisto, é divertido!
As montanhas e, em particular, a escalada que fazemos em montanhas, podem muitas vezes nos levar a estes questionamentos, pois nem tudo pode ser previsto, calculado ou sair como planejado. Podemos ir em busca da liberdade e acabarmos presos a uma cadeira de rodas. Podemos exaltar a vida e encontrar a morte. A escalada pode ser uma atividade exultante ou sombria, pode reforçar o melhor ou o pior lado das pessoas. Ressaltar o lado mais espiritual ou o material do rapaz ou da moça. Pode transformar um sujeito em um super escalador ou em um rato. Pensando nestes termos, percebi, com o passar do tempo, que algum esforço deveria ser conduzido, em textos que escrevi, para pedagogicamente tentar mostrar para as pessoas que os tabus deveriam ser discutidos, quebrados se fosse o caso. Alguns dos textos mais polêmicos e, talvez, menos compreendidos, que escrevi versaram sobre tabus.
Dias atrás estava escalando em um local novo para mim aqui nos arenitos da região de Ponta Grossa. Uma agarra quebrou e dei um pequeno vôo. Pensei em como tudo me parecia sempre muito difícil neste tipo de rocha, como meu esforço parecia inútil diante das (para mim) dificuldades das vias da região, mas, ao mesmo tempo, no pináculo que eu subia, podia apreciar uma paisagem das mais bonitas, então me esforcei mais um pouco. À noite estive em uma reunião do grupo de escaladores locais. Um deles me falou de uma escalada onde ele havia caído no Anhangava, local que é o quintal da minha casa na montanha e onde aprendi a escalar. Ele ainda almeja fazer esta escalada que para mim é tão banal que já havia passado dezenas de vezes sem corda. A escalada e as montanhas sempre nos trazem este tipo de curiosidade, esta diversidade de percepções sobre o mundo, são muito pedagógicas.
“A escalada pode ser uma atividade muito divertida!” Pensei. “Temos sempre que lembrar as pessoas disto”

Muito bacana chegar nesta marca, 100 post! São 4 anos com muitos textos de qualidade onde podemos aprender, refletir, questionar e principalmente tirar incentivo para conhecer e amar mais as nossas belíssimas montanhas.
Que muitos mais post venham pela frente!
Obrigada Du Bois.
Parabéns pelos seus 100 anos…ops..digo, posts…hehehe…
abraço!