Por Edson Struminski (Du Bois)
Prudentópolis, no centro sul do Estado do Paraná, tem muitas originalidades: seus imigrantes ucranianos com sua origem eslava ainda presente no sotaque pronunciado e em suas belas crianças loiras. A religiosidade desta gente manifestada, em plena páscoa cristã, no colorido das roupas e nas tradições mantidas no Brasil, como as pessankas e as toalhas com delicados bordados, suas manifestações culturais (1,2 e 3), que eu já tive oportunidade de conhecer em outras ocasiões. Há algo diferente também nos faxinais, um sistema de uso da terra onde os animais de criação ficam soltos em áreas florestais comunitárias e que fazem parte da tradição da paisagem rural desta região.
Para mim é sobretudo curioso andar por este pedaço do Paraná, um pequeno pedaço do Brasil, onde meus nomes de família (Doniak, Struminski), com mais consoantes que vogais, não soam estranho para as pessoas.
Estamos em plena sexta-feira santa, as igrejas estão cheias, mas o comércio está fechado, então não é possível encontrar informações com facilidade. Não existem muitas placas. Mas isto não chega a ser um problema. Consigo alguma informação com um grupo de motoqueiros em um posto de gasolina e depois entro na rota das cachoeiras, uma estrada com alguns trechos asfaltados e, na maior parte, chão batido, mas a estrada está boa.
Passo com Miriam, minha companheira nesta viagem, por um pouco de tudo isto: faxinais, crianças loiras, rios revoltos, quando vamos a caminho de mais uma das originalidades notáveis deste lugar, as inúmeras cachoeiras, saltos, quedas d’água e corredeiras dos rios da região, que segundo a propaganda oficial da cidade, são dezenas. Consigo identificar a entrada de um faxinal (Barra Bonita), pelos mata-burros, trilhos assentados no chão que evitam a saída dos animais para as áreas agrícolas. Neste trecho, a prefeitura construiu um pequeno espaço para desfrute no rio São João (Recanto do Cassiano), um local para fazer um lanche. Um antigo tronco de pinheiro está sendo lentamente desmanchado pela água do rio. Virou uma escultura, um tipo de natureza morta, com os nós de pinho bem saltados no que restou da madeira. Alguns dos pesados nós, já soltos no rio, começam uma lenta viagem rio abaixo. Capturo um deles para levar para minha casa no Anhangava.
A 23 quilômetros do centro de Prudentópolis, encontramos uma chácara onde fica a entrada do salto São João. Os moradores, que mantém um pequeno e agradável restaurante e estão construindo uma pousada, ajudam a reforçar o ar bucólico desta área rural. Curiosamente a simpatia das pessoas e a tranquilidade das plantações de feijão contrastam com a força e energia do salto do rio São João, que despenca mais de 80 metros de um degrau de basalto e no qual chegamos após uma pequena trilha.
Neste ponto, ali mesmo no salto, é como se estivéssemos assistindo a própria formação do relevo do planeta, já que o salto está “regredindo”, que é como os geólogos definem este movimento de recuo do rio em relação a esta imensa capa de basalto. Assim, o salto recua e o que vemos à frente dele é um cânion de tirar o fôlego, uma grande bacia circular com paredes verticais de basalto negro, um nível de pedimentos logo abaixo, formado pelas pedras desprendidas das paredes e diversas formas de vegetação que aos poucos vão colonizando as rochas, a partir do leito revolto do rio.
Tamanha é a beleza do contraste entre o verde da vegetação e a pedra escura que vem a mim aquela sensação de visualizar um tipo de beleza primitiva, que já não é de se esperar em uma região intensamente colonizada como o sul do Paraná. Mas está ali e é real e é, talvez, a maior originalidade desta terra…
Acabo não resistindo e armo um rapel para tentar a sorte nas agarras deste basalto, para ver o cânion por dentro. Há quantos anos não escalo no basalto, penso, então chegou a hora de voltar.
Existem muitas pedras soltas e um limo característico na rocha. A corda não chega até o fim do degrau, então verifico as possibilidades e escolho uma linha para subir a partir de um degrau existente na rocha. Passeio pela pedra, fendas, fissuras, agarras, tudo um pouco instável na verticalidade. Tudo sugerindo que ninguém passou por ali antes, naquelas agarras, naquelas fissuras. Uma agarra quebra, pendulo e vou parar no meio da cachoeira! Este banho me tranqüiliza um pouco, alivia o calor do momento.
Na verdade é tudo um pouco estranho, estar sozinho pendurado nesta pedra, não ter contato visual com ninguém, ouvir o rugido da cachoeira o tempo todo, um rugido tão forte que sequer é possível escutar o ruído das pedras que caem.
Acabo esta escalada um pouco exausto, feliz em rever a Miriam que pacientemente me esperava, mas sobretudo feliz de ter passado por ali, de ter me tornado um pouco mais experiente e certo de que valeu a pena. Valerá a pena abrir vias nos basaltos desta região, como alguns poucos meninos estão fazendo (4). Vale a pena a paisagem espetacular, o sofrimento, o medo, a aventura tão original…
Veja mais:
(1) http://www.pessanka.com.br/
(2) http://pessanka.wordpress.com/
(3) http://www.pessoal.utfpr.edu.br/zasycki/
(4) http://tradfriends.com/2011/04/26/a-face-sudoeste-do-pico-agudo/

E ai Du Bois, vamos combinar umas escaladas por lá.
http://tradfriends.com/2009/10/02/prudentopolis-tem-escalada-sim/
Ainda existem incontáveis possibilidades esperando por lá…
Abraços,
Andrey Romaniuk
Incontáveis possibilidades, Andrey, vale a pena o esforço. É algo para se combinar sim.
É um lugar abençoado por Deus. Uma natureza espetacular, seu povo, suas igrejas e sem falar da maravilhosa culinária.
Um dia eu vou te conhecer.
thiago andrey
No domingo que passou, 7 de agosto, esta linha que estou descendo no salto São João e que aparece nesta foto, estava totalmente tomada pela água do salto, acabei fazendo outra via uns 10 metros adiante, no canion…