Por Edson Struminski (Du Bois)
Parte 1: emoção
“Rutilante”, esta palavra pouco usual em português e, para mim nova em espanhol e que eu ouvi no sonoro sotaque chileno, era a que melhor definia a impressão que eu tinha do cume do Trinidad Norte, visto de cima de uma montanha vizinha, o Elefante, de onde eu estava naquele instante. “Rutilantes” eram também o distante Cerro Tronador, já na Argentina e o vulcão Osorno, cartão postal do sul do Chile. “Rutilantes” eram as montanhas nevadas em volta, o deslumbrante vale suspenso de La Paloma, verde até uma certa altura, sendo que deste verde, do nada, subia um rio em uma inacreditável rampa de pedra até um glaciar, com linguas de gelo que se sustentavam nas enormes paredes das montanhas nevadas vizinhas. Parecia um cenário de sonho, de filme.
“Rutilantes”…
Mas nem tudo era assim tão sonho, tão cinematográfico, tão “rutilante”, neste pedaço da Patagônia. Dias atrás, em uma das raras janelas de bom tempo, um dos meus colegas de viagem tinha se acidentado, derrubou uma pedra sobre si mesmo durante um passeio tranquilo que fazíamos junto com a namorada dele em um “acarreo” no Trinidad sul e este acidente inesperado e chocante me levaria a estar sozinho na montanha dali em diante.
Então tudo o que eu tinha visto até então me faria pensar: o mau humor do clima patagônico, as paredes enormes, a aderência precária do granito alisado pelo gelo e pelo vento, as agarras e fendas marotas, as trilhas horríveis, geralmente despencando, o terreno instável, enfim, pensei em todo o desconforto e insegurança que o lugar transmitia e imaginei se não seria mais cômodo e seguro para mim simplesmente voltar para o Brasil junto com este colega, mas acabei ficando.
Acabei ficando porque se havia o cansaço depois de dias desmontando o acampamento deles e porteando para baixo, se havia o medo de também me acidentar e não ter a quem recorrer, se havia ainda o desconforto causado pelo frio, pela chuva e pelo granizo, havia também a promessa de um cume “rutilante”, de talvez chegar naquele vale suspenso que parecia um Shangrilá, um cartão postal ao vivo. Haviam os estonteantes rios de água verde esmeralda e as cachoeiras de tirar o fôlego para ver. Haviam os alerces gigantes, as flores minúsculas e as esculturas de gelo para tocar, a chance de passear um pouco na neve.
Acabei ficando em Cochamo sobretudo porque percebi que seria um excelente lugar para aperfeiçoar meu instinto, minha capacidade de interação com uma montanha e com uma floresta tão diferentes das que eu estava acostumado, de testar se o que eu sabia de montanhismo servia, afinal, para alguma coisa.
Fiquei porque percebi que poderia aprender com os detalhes e que eles fazem a diferença em lugares como aquele. A temperatura do meu corpo, a vibração dos meus passos, poderiam fazer com que pedras se movessem dentro do estreito desfiladeiro onde andava, onde o que existe são só pedras soltas e blocos de gelo suspensos. Então nada de ficar saltitando, nada de brincar com o perigo, nada de fazer de conta que eu era montanhista como as pessoas às vezes fazem na internet. Talvez, já tinha percebido, simplesmente não voltasse vivo.
Descobri que eu podia, sim, montar meu bivaque em lugares onde seria menos afetado pela chuva e pelo vento, descobri truques para me manter seco, dormir seco, usei os velhos conhecimentos para achar madeira seca no meio da chuva desmoralizante quando o fogareiro falhou. Descobri logo as melhores madeiras para isto e com isto meu moral subia. Aprendi a olhar as nuvens para sentir a mudança no clima, a usar o tempo a meu favor (o sol se põe às 9:30 da noite nesta época do ano nesta latitude). Comecei a ficar alerta. A água do rio estava a 2oC., o degelo transformava o rio em corredeiras de tarde. Não se pode derrubar a bota em um rio destes. Eu não passava sobre o gelo e depois entrava em aderências de rocha sem deixar a sola do calçado secar, não eram lugares para se brincar de aventureiro ou ser vacilão. De que me valeria contar a vocês: “puxa estava a 3 mil quilômetros de casa, pisei em uma pedra com a bota molhada e caí, que azar, não?”. De que me valeria tentar fazer mais do que eu podia, subestimar a montanha, me machucar e depois dizer: “estava em um lugar sem segurança e me machuquei”. Todos os lugares são inseguros ali, mas minha atitude não precisava ser insegura.
Com isto reaprendi uma destas lições de vida tão essenciais que vem do montanhismo: que se andasse leve, com a cabeça leve, centrado, com calma e paciência e só com o essencial, poderia chegar longe e alto…
Assim, aos poucos, Cochamo abriu suas portas para mim. Além do cume do Elefante, cheguei a outro cume deslumbrante: Cerro Arco Íris, apenas para descobrir que estava no começo de uma cadeia de cumes nevados, com despenhadeiros de tirar o fôlego e filos rochosos a se perder de vista. Caminhada e escalada se misturando. Tudo muito belo e assustador ao mesmo tempo, junto com a estranha sensação de em uma mirada ver um país inteiro: a oeste um braço do Pacífico, a leste as montanhas argentinas.
Experimentei as aderências do Cerro Gorila. Visitei o belo e esquecido caminho (trilha fechada) do vale do rio La Junta, fiz o circuito das cachoeiras, com impressionantes quedas d´água e cheguei ainda a um outro lugar que chamei de “nido de condores”, uma torre em uma das montanhas da região onde achei uma pena desta ave extraordinária, após algumas horas andando em uma encosta sem trilhas, porque queria saber, mesmo por um curto espaço de tempo, como era andar fora das trilhas, sem abrir trilhas, neste lugar.
Também, como quem não quer nada, após andar em uma trilha sem maiores indicações, acabei tropeçando no vale de La Paloma, o tal Shangrilá suspenso em meio a paredões, neveros e estrondo de cachoeiras.
Como descrever um lugar destes, mesmo em fotos? A perigosíssima caminhada/escalada nas rampas de aderência do rio, o frio da massa de gelo do lugar, o barulho da água de degelo despencando dos cumes, a brutalidade das rochas e a sensação de acolhida que um pequeno bosquete de alerces transmitia. A espantosa e efêmera delicadeza das flores andinas em meio ao caos de um mundo mineral em constante movimento.
Com isto, vejo que cada vez que eu entro em um lugar destes, não é do mundo comum que eu me afasto, é justamente do mundo do montanhismo, disto que hoje se convencionou chamar mundo do montanhismo: páginas de internet, blogs, listas de discussão, muitas vezes feitas de vazios, inconsistências e mentiras… É disto que eu tenho passado longe ultimamente, pois cada vez menos retrata o que eu vejo em lugares como Cochamo. Com isto é a cada vez menos pessoas que eu posso mostrar as fotos que eu fiz, que podem entender o significado de andar em lugares onde andei. Porque nada do que eu fiz representa um troféu. Não trouxe troféus de Cochamo, apenas mais uma vivência para repartir com as pessoas queridas.
Assim, depois de todo o frio, de todo o medo, foi já reconciliado e adaptado a aquele lugar, com pesar, que eu fiz a última refeição em Cochamo, pensando no longo caminho que me levaria da cidade de Puerto Montt até minha casinha no Anhangava. Sentei na beira da impressionante cachoeira do rio La Junta pela última vez, olhei para os paredões espetaculares do Trinidad pela última vez. Meu estado de espírito tinha mudado. Quisera agora ter mais um mês, conhecer outros lugares, andar em outras paredes, entrar em mais um ou dois vales de sonho daqueles, passear por mais um nevero.
Como definir a sensação de andar em todos estes lugares impressionantes, perigosos e de encher os olhos e a alma e sair sem nenhum aranhão?
Una sensación rutilante.
Hey Du Bois!!!!!
Vim parar no teu blog casualmente e pude reviver um pouco das lembrancas de que quando escalava no anhangava mais ou menos ah uns 20 anos atraz. Nos cruzamos algumas vezes mas tenho certeza que vc nao lembraria de mim. Eu era mais um aborrecente comecando a escalar.
Cochamo e realmente um lugar magico e que realmente traz a flor da pele todas esses sentimentos sobre montanhismo na sua forma mais pura. Eu tive a oprtunidade de abrir uma via la “vozes da Grota” e e repetir outras. Cochamo pra mim e um dos lugares mais lindos e desafiadores que ja escalei. Aventura garantida. Faz a gente se sentir tao pequeno e insignificante aos olhos do velho alerce e das paredes gigantes.
Eu moro na Nova Zelandia ha 4 anos, um pais incrivel onde lagos e montanhas tomam conta da paisagem. recentemente iniciei um projeto de bigwall perto da minha cidade no estilo de Cochamo. Quando quiser aparecer pelo lado de ca do planeta nao deixe de entrar em contato.
Bom saber de vc depois de tantos anos, apesar de vc nao me conhecer, eu de moleque ja ovia as suas historias e o tenho como uma referencia na minha vida montanhistica.
Saudacoes!
Stanley
Stanley fico grato por suas palavras e feliz em saber que eu pude ser uma referência positiva em sua vida. Espero que você tenha sorte nesta via que está abrindo por aí.
Um abraço
Du Bois