Por Edson Struminski (Du Bois)
Primeiro ensaio: o cansaço
A fissura sobe reto em direção a um pequeno teto que está a uns dois metros acima de mim. Encaixei uma peça para minha proteção e fiquei ali, cansado, olhando para o pedaço de rocha saliente que teria de ultrapassar. Estudei as agarras prováveis. Enquanto isto tentei achar uma posição confortável para os braços, que teriam de fazer todo o serviço pesado, mas não estava fácil…
Fiquei pensando nas coisas convencionais que as pessoas deviam estar fazendo naquele domingo: jogando bola, assando churrasco, assistindo TV. Sentia cansaço.
Passaram-se os minutos, meu companheiro embaixo já mostrava alguma inquietação, pois a parede era negativa e ele não conseguia me ver. Eu não me movimentava. Pensei que ultrapassar o teto não seria assim tão difícil quanto o desgaste e o cansaço que teria de enfrentar se fosse obrigado a parar antes para colocar mais uma proteção contra a queda. Então, para mim, naquele momento, a coragem se resumia a uma questão mesquinha, mas de qualquer forma essencial para manter minha integridade física: decidir se preferia me arriscar a deixar vencer pelo cansaço, às custas de colocar esta proteção adicional, ou se arriscava uma queda maior na peça que estava ao meu lado, apenas para passar logo pelo teto. Fora isto, é claro, tentar cair fora. Tinha de lidar, então, com dois tipos diferentes de medo: o de ser vencido pelo cansaço ou o de faltar força e habilidade. No fundo, no fundo estava cansado de ter de ser sempre corajoso.
Acabei chegando a um meio termo. Me movimentei um pouco para cima e coloquei mais uma peça na fissura. Uni as duas com uma fita longa e fiz uma equalização. As duas juntas poderiam suportar uma queda de respeito.
Avisei meu parceiro lá embaixo e agora fiz os movimentos rapidamente. Subi a fissura, ultrapassei o teto. Não foi assim tão difícil afinal. Acima dele uma pequena plataforma onde sentei e respirei. A coragem foi superar o cansaço e tomar a decisão certa.
Olhei para cima. Uma nova fissura subia até um outro teto. Ia começar tudo de novo…
Segundo ensaio: a brincadeira perigosa
Depois de tres temporadas e várias semanas abrindo a via em solitário eu já estava próximo do cume. Faltavam 100 metros, mas eu já tinha acesso à vegetação que poderia me propiciar uma saída de emergência. Sentia que era questão de dias para acabar a escalada, mas o tempo estava mudando, para pior.
Já tinha automatizado certos movimentos para subir e descer a parede, o que agilizava as coisas. Tres ou quatro cordas fixas para me movimentar até o bivaque. Tres ou quatro estações de rapel (paradas) com grampos fixos.
Uma destas paradas era em uma rampa de aderência, ao lado de um diedro encimado por um teto saliente. Um belo lugar.
Eu mantinha sempre as cordas fixas nas paradas superior e inferior ao mesmo tempo. Assim elas não ficavam balançando na parede, não poderiam ser levadas pelo vento e ficarem enganchadas em algum lugar fora da via.
Para evitar o desgaste da corda com o teto eu não a deixava fixa o tempo todo. Somente a instalava quando era necessário e a recolhia para cima do teto nos momentos em que não estava em uso. Então ela ficava fixa apenas na parada superior, acima do teto. Eu só a fixava embaixo quando sabia que subiria por ela de novo, em algum momento do dia.
Havia então uma rotina diária. Descer pela corda e ficar pendurado no teto, parar na estação de rapel, me autoassegurar na parada, fixar a corda à parada, soltar o aparelho de rapel da corda do teto e engatá-lo na corda de baixo, para descer até a estação inferior (esta sim fixa embaixo).
Aquela foi uma destas ocasiões rotineiras. Fiz todos os momentos iguais, mas soltei o aparelho da corda do teto antes de fixar a corda. A corda fez um rápido movimento para a esquerda, para o vazio.
Foi um choque. Fiquei pasmo por um momento, assistindo aquela corda balançando no vazio, no ar, longe da minha mão.
Para mim aquela corda era a garantia de uma saída da parede se algo desse errado, agora algo tinha dado errado com ela.
Avaliei minhas opções. Teria de descer mais 50 metros para soltar a corda inferior, subir de novo até a parada da rampa de aderência e usar então, aquela corda, como um apoio, para tentar resgatar a primeira, que continuava ali, balançando no ar indiferente à minha agonia. Seria praticamente um dia perdido, um dia vital com as nuvens começando a mudar o tempo, um desgaste físico e moral terrível por conta do erro tolo, ou…
Ou emendar um punhado de fitas com um peso (mosquetão) na ponta e sair sem corda mesmo, tentando laçar, como um boiadeiro, a corda extraviada. Seria uma cena estranha. Teria de confiar no calçado, na aderência da rampa, em Deus, em Marx, no meu sangue frio e habilidade, em qualquer coisa que pudesse me ajudar a me tirar logo daquela situação tonta e agoniante. Eu não podia me aproximar da borda da rampa, mas ao mesmo tempo quase queria flutuar, me atirar talvez, no vazio onde a corda estava, balançando a 300 metros do chão, para resolver logo as coisas.
Não foi preciso muito tempo para decidir. Olhei para a rampa, muito parecida com um local onde treinava e brincava no nosso campo-escola. Quatro passos pela rampa, um punhado de fitas com um peso na ponta girando no ar, nem muito forte a ponto de me desequilibrar, nem tão fraco para não fazer efeito e, logo, a corda fujona voltava para a mão. Fiz isto e até me apoiei nela, para olhar para o vazio.
A coragem foi então, como uma confiança laçada em cima do vazio, meu primeiro solo, um prêmio para uma brincadeira sobre um erro tolo, que felizmente deu certo.
Terceiro ensaio: o pavor e o respeito
Aquele bivaque tosco e improvisado já tinha virado um inferno, um inferno frio e úmido e eu já não queria mais saber da escalada, só queria saber da sair dali, mas o dia estava escurecendo e ficando nublado e eu apenas podia pensar no horror de ter de passar mais uma noite infernal ali, naquela parede, naquele bivaque frio e úmido.
Chegou a noite. Tentei fazer algo para comer em meio à neblina e à garoa. Lá pelas tantas virei a lanterna para o lado e vi uma pessoa. “Mas não há ninguém aqui! Estou sozinho há 20 dias neste lugar!”, pensei.
Comecei a resvalar para fora da minha sanidade. O que via eram meus fantasmas que vinham me atormentar.
Apenas sobrevivi a aquela noite, ao frio, à fome, à molhadeira.
O dia amanheceu com vento, frio e chuva. Juntei um punhado de coisas e abandonei o bivaque.
Já não era um homem, estava em frangalhos, como um soldado que antes mesmo de ver o inimigo já foge de pavor, só de ouvir sons desconhecidos. Apenas pensava em fugir daquela parede, daquela montanha, esconder minha vergonha e meu fracasso.
Me arrastei para longe daquele lugar. Mas o pavor me seguiu. Tive pesadelos, vi fantasmas e seres estranhos me perseguiram por muito tempo, fiquei em um extremo entre a razão e a loucura.
Meus joelhos ficaram destruídos. Fiquei seis meses sem escalar.
Lentamente, graças a alguns poucos amigos, recuperei minha sanidade e meu mundo. Descobri que não fui o primeiro que havia passado pavor na montanha. Me vi humano de novo. Percebi que meu medo e minha covardia poderiam ser curados se eu me preparasse melhor para as escaladas, para as montanhas. Se eu as respeitasse mais, se eu respeitasse mais os meus limites.
No inverno seguinte estava no mesmo bivaque, com uma pequena barraca que me protegia do clima, com meus medos superados, ou assim eu achava.
A noite chegou, ouvi vozes estranhas, uivos, mas agora já não era o soldado que fugia. Estava entrincheirado, tinha comida, roupas secas, estava protegido, preparado, treinado. Pensei “se algo quiser me pegar, terá de me jogar com tudo aqui de cima desta parede. Mochila, cordas, saco de dormir, barraca, tudo comigo dentro. Daqui eu não saio”.
O dia amanheceu, um dia de escalada como muitos outros que viriam na minha vida. Os fantasmas tinham desaparecido.
A coragem voltou para mim quando descobri que o respeito pela montanha e por mim mesmo era o antídoto que me fortalecia contra o pavor que eu sentia.
Quarto ensaio: um forte antes de tudo
Naqueles dias era tudo muito novo para mim. Estava em uma estrada no sertão da Bahia, muito jovem, com uma namorada igualmente jovem, ambos conhecendo aquela paisagem inusitada de montanhas. Até então o Nordeste para mim, para nós, nada mais era do que uma sucessão de cidades praianas.
Havíamos subido uma montanha daquela região onde havíamos dormido e até mesmo sentido frio, o que era uma extraordinária novidade para aquela moça nordestina criada a vida inteira no calor e no plano.
Também lembro que em alguns momentos eu mal dividia minha atenção entre cuidar dela e a curiosidade de olhar mais de perto algumas curiosas rampas de pedra, de explorar, enfim, o terreno, para mim tão diferente daquela montanha nordestina.
Com isto ela parecia me achar extraordinariamente corajoso apenas por ir à frente desbravando o terreno, o que, de qualquer forma me deixava lisonjeado.
Agora estávamos voltando em direção a uma pequena vila com uma estação ferroviária antiga e decadente. O sol era forte e fazia calor. A falta de água já se fazia sentir. A vegetação, de caatinga, acentuava o aspecto de secura do lugar.
Ao longe avistamos um homem montado em um jegue, um burrico, um animal que é o próprio sinônimo da resistência naquele mundo semi-árido. Ela trazia dois pesados galões pendurados. Paramos o homem para pedir água.
Ele abriu um dos galões e nos ofereceu uma caneca generosa de leite. Forte, refrescante, que nos matou a sede e nos alimentou ao mesmo tempo. Nos deu força para continuar.
Conversamos, ele nos contou um pouco da sua história, das secas que enfrentou, dos seus poucos animais, dos filhos “que se criaram” e de outros que não resistiram.
Ele contava sua história e eu não conseguia falar, não conseguia entender aquela pessoa, por que ele continuava ali, naquele lugar que tanto havia levado dele, que tanto o maltratava.
Levariam muitos anos para eu entender aquele homem, sua resignação aparente, sua fortaleza (como diria Euclides da Cunha), sua coragem, apesar de tudo, da dor, da tristeza, de lutar e resistir naquele mundo que para mim era tão inóspito, mas que para ele era seu mundo e nele era um homem verdadeiro, digno, onde cabia até mesmo a solidariedade e a generosidade com pessoas estranhas como nós.
Apenas um sertanejo perdido em aos pés de uma montanha da Bahia, mas de quem eu nunca consegui esquecer a coragem.
Quinto ensaio: a busca da dignidade
Neste instante personifico a própria tranquilidade, compenetrado na tarefa de retirar os cristais soltos da aderência que vou pisar. São cristais de quartzo brilhante, muito pequenos, 2 a 3 mm de tamanho. Soltam-se facilmente e por este motivo não posso escalar sem fazer esta pequena limpeza prévia das agarras. Os cristais caem em direção ao início da parede. Por menores que pareçam, se eu os pisasse, eles funcionariam como pequenas rodas de um patim, girando e impedindo que meu calçado toque a parede. Poderia escorregar e cair.
Fico imaginando se os cristais se acumularão nas agarras alguns metros abaixo de mim e formarão uma sutil camada de areia que possa me prejudicar se eu tiver de desescalar por ali, ou se irão saltitando até engatarem na vegetação em algum ponto desta longa parede. Penso que talvez eles possam entrar dentro das folhas em forma de tubo de alguma daquelas bromélias que eu vi há uns cem metros abaixo de mim e ficar lá por anos, gerando uma estranha convivência planta-rocha.
Depois que solto a primeira camada de cristais de quartzo, é necessário esfregar a agarra com a palma da mão para desprender a areia formada por mica ou feldspato que envolvia os cristais e que tem a aparência de um fino pó branco, que contrasta com o escuro da parede.
Quisera eu ter uma escova agora, mas eu tenho de me contentar com o serviço que faço com os pés e com a palma da mão. Agora assopro a agarra que surgiu, imaginando que talvez este fino pó servirá como uma inesperada janta, nutrientes para alguma daquelas plantas que vejo a minha volta, alguma planta que irá se beneficiar da minha intromissão naquele ambiente, daquela pequena marca do tamanho de duas pontas de pés que eu faço naquela parede de centenas de metros.
Após retirar a primeira camada de cristais e a areia que os envolviam, surge uma segunda camada de cristais, estes sim firmes na parede, cujas pontas penetrarão na borracha do tênis de escalada e permitirão que eu me sustente na aderência. Pude sentir eles com a palma da mão quando limpava a areia. Eles me fazem pequenos cortes, por isto eu poupei as pontas dos dedos, pois elas são importantes para que eu possa manter o equilíbrio e buscar agarras, por menores que sejam, nesta parede de aderência extrema.
Estou sendo meticuloso porque minha vida depende disto. É a meticulosidade, que vem de longos anos de experiência, que me dá a coragem que eu necessito para escalar neste tipo de situação, sem corda, a centenas de metros do chão.
Estou concentrado e compenetrado no que vou fazer, não é uma brincadeira, uma improvisação. Não sinto fome, ou frio, ou cansaço. Estou onde quero estar, não penso em fugir, em fazer o caminho mais fácil. Estou apenas fazendo uma escalada digna do lugar e digna de mim, sem aplauso, sem plateia. Às vezes é necessário coragem para isto também: apenas ser digno de si mesmo.
O tempo não para, diz a música do Barão Vermelho. E muitas vezes vejo que fantasiamos a coragem na montanha apenas para melhor suportar o tédio, o medo e a insegurança que a vida comum nos traz. Com isto, muitos de nós nos agarramos a atividades tolas, mecânicas e pouco criativas. Nossa vida covardemente conduzida por outros.
Nestas horas eu lembro de pessoas que conheci e que realmente admiro pela coragem: médicos plantonistas, bombeiros, catadores de lixo, aquela família de agricultores que perdeu tudo em um destes planos econômicos desastrosos e que estava lá, acampada, apenas querendo começar de novo, o líder da comunidade de pescadores de Ararapira, o sertanejo no fundão da Bahia, aquela senhora que decidiu que a quimioterapia não ia ser o fim da vida dela. Daí eu percebo como somos privilegiados, pois podemos nos dar ao luxo de sermos corajosos na montanha, apenas porque queremos e não porque necessitamos.
“Das Ilusões”
Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entretanto, após cada ilusão perdida…
Que extraordinária sensação de alívio!
Mario Quintana
Livro: Rua dos Cataventos & outros poemas
Caro amigo!
Muito bom esse seu ensaio, envolvente e lúcido!
Obrigado
Dani Casas