Estudo avalia a capacidade de resistir a incêndios da vegetação do parque com as montanhas mais altas do Paraná.
Por: Edson Struminski (Du Bois)
A lembrança ainda fresca dos incêndios (incluindo cicatrizes na paisagem) que de forma tão trágica ocorreram no Parque Estadual Pico Paraná em 2007 e 2008, motivou a execução de um trabalho que pudesse prevenir, minimizar ou, ao menos, entender por que ocorreram estes incêndios nas montanhas mais altas do Paraná. Este trabalho foi desenvolvido entre os meses de julho e setembro deste ano de 2009 sob os auspícios do Instituto Ambiental do Paraná.
Percorrer a região com as montanhas mais belas do Estado, a estudo, prazer ou lazer, (na verdade todas estas coisas junto), representa um privilégio inigualável, todos sabem disto. Um certo número delas não visitava havia mais de uma década, um pequeno número delas eu ainda não conhecia. Então mapear o risco de incêndios nesta região surgiu como uma oportunidade de refazer o roteiro destas montanhas, ampliar e atualizar minha leitura montanhística da região, mas também representou uma grande responsabilidade, pois significa contribuir para proteger um pouco das paisagens notáveis desta região.
De início, posso dizer que aquilo que encontrei a respeito de teoria sobre incêndios florestais não me satisfez muito. A teoria tradicional não assimila bem a variedade de ambientes que encontramos em diferentes montanhas e como elas reagem ao fogo: florestas de baixa e média encosta, florestas de altitude, ou diferentes formações herbáceas de altitude: campos úmidos, secos, rupestres (arenito), rupícolas (granito), etc.
Na verdade esta teoria é bastante utilitarista. Pastagens, agricultura, reflorestamentos, etc, são priorizados pelo valor econômico que possuem, assim ambientes naturais ficam um pouco na berlinda, quando se trata de proteção contra incêndios.
Então, o jeito foi voltar para a escola. No meu caso a Escola de Florestas da UFPR. Bibliotecas, conversas com professores e colegas, muitas leituras (veja abaixo algumas das referências, de 1 a 7). Meu problema era menos entender como combater incêndios, algo que a prática muito já me ensinou e também a muitos montanhistas, do que em entender a capacidade de florestas e campos de altitude de resistir a eles, algo que tem o potencial de mudar equipamentos, técnicas e principalmente estratégias. Este entendimento começaria a surgir como um quebra cabeças que eu iria montando a partir da laboriosa contribuição de meus colegas engenheiros, que deixaram teses, dissertações e estudos sobre florestas e campos de altitude, incêndios, impactos ambientais em montanhas, etc.
À medida que fui assimilando este conhecimento me senti mais à vontade e mesmo necessidade de ir olhar para as montanhas com os olhos de quem tinha absorvido toda esta teoria e queria vê-la no lugar. Após elaborar um mapa de vegetação (as fotos aéreas disponíveis ainda são da década de 1980), base do mapa de risco de incêndios, projetei alguns pontos de visita, tanto na base das montanhas como em algumas das trilhas de altitude, para atualizar o mapa e conferir as condições do terreno.
Investidas
Junto com Vanessa Ariati, uma estudante de biologia da PUC-PR que está realizando um estudo botânico no pico Caratuva (uma das montanhas do parque, justamente a que incendiou em 2007) e com um funcionário do Instituto Ambiental do Paraná, realizei uma primeira investida aos pés do Pico Paraná, na chamada janela do rio Cotia (onde inicia a trilha que leva às escaladas do pico Ibitirati), um local degradado, mas com potencial para receber alguma estrutura de combate a incêndios e também a um local que eu não conhecia, a usina de energia Capivari-Cachoeira, que pertence à companhia de energia paranaense e que faz divisa com o parque. Neste último local fomos surpreendidos pela existência de um grupo de emergências, com pessoal treinado para incêndios e atendimento a acidentes. Um ponto favorável para a região.
Com Vanessa fiz uma segunda investida de tres dias no eixo da trilha do Pico Paraná (incluindo a participação em um resgate circunstancial de uma turista), com ascensões ao Getúlio Vargas, Caratuva (montanhas que sofreram o incêndio de 2007), PP, Itapiroca e ao belíssimo Taipabuçu.
Também fizemos uma laboriosa e cansativa investida no eixo da trilha Camapuã-Tucum, Cerro Verde-Siririca (dois dias), com volta pelo “caminho do Professor” (um dia). No início desta trilha encontra-se o Pedra Branca, montanha que também incendiou, em 2008. O cansaço foi compensado pelo tempo aberto e pela beleza e tranqüilidade destas montanhas.
No Getúlio e no Caratuva fizemos uma avaliação do incêndio de 2007 e dos impactos da instalação de antenas e de outros cacarecos no cume desta última montanha. Com isto, aos poucos, foi possível montar as peças do quebra cabeças do fogo nas montanhas.
Percepções sobre a ecologia de incêndios em montanha.
A intenção deste artigo foi apresentar uma breve conclusão sobre o que estudamos e vimos em termos de incêndios em montanhas aqui para o Paraná. Penso que parte disto vale para qualquer montanha tropical.
A percepção de quem visita o parque do PP com os olhos voltados não apenas para a paisagem e sim para o uso público, particularmente no que diz respeito ao risco que esta visitação traz ao ambiente natural (via incêndios) é, hoje, um tanto quanto desalentadora.
O visitante dos picos Tucum, Siririca, etc, inicia seu passeio por uma trilha com a sinistra paisagem do morro Pedra Branca queimado no seu lado direito. A trilha circula em meio a uma vegetação arbórea, mas que visivelmente sofreu em um passado não muito distante (20 anos) com incêndios. Bambus e altas taquaras em grande quantidade despejam grande quantidade de folhas e gravetos secos na beira da trilha. Trata-se, igualmente, de um ambiente propício a um incêndio florestal de superfície, como aliás foi o início do incêndio ocorrido em 2008.
Também a vegetação do início da trilha que dá acesso ao Pico Paraná, é basicamente secundária, porém herbácea e arbustiva (samambaiais, bambusais, gramíneas, arbustos) resultante de incêndios anteriores e recentes no pico Getúlio. Ela queima fácil, muito embora ela volte rapidamente ao estágio herbáceo, quando sofre um incêndio, particularmente em altitudes menores. De qualquer modo, a possibilidade de ocorrência de um novo incêndio é alta nesta trilha, uma questão de tempo, tendo em vista a alta visitação que esta região recebe.
Algumas conclusões
Algumas das trilhas deste parque estadual, mesmo algumas que não são assim tão visitadas, estão em péssimo estado de conservação, com erosões, deslizamentos, lama, áreas de instabilidade, degraus de ferro arrancados, degradação da vegetação, espécies invasoras, lixo, áreas de acampamentos em excesso, mas principalmente tem problemas com vegetação passível de ocasionar novos incêndios, este sim, um problema com impacto duradouro no parque. Algumas montanhas tem passivos ambientais gerados pela construção de antenas de comunicação (Caratuva, Siririca). Mas toda esta longa lista é relativamente fácil de resolver. Alguns recursos financeiros, materiais e pessoal com vontade de trabalhar dão conta destes problemas localizados, em tempo relativamente curto (com base na minha experiência no assunto estimo um ano ou dois). Uma antena desativada, por exemplo, pode simplesmente ser desmontada e levada embora de helicóptero.
Já o dano causado por um incêndio tem um efeito muito mais duradouro no ambiente. A recuperação natural pode acontecer (ou não) em uma escala de tempo muito superior a que estamos acostumados na nossa escala humana (centenas de anos?). O próprio tempo de formação destes ambientes de altitude extrapola o período que a civilização humana levou para chegar ao estágio atual nesta região.
A vegetação secundária ou oportunista (samambaiais, bambuzais) está em contato com áreas de florestas e campos de altitude. Nestas áreas, a ocorrência de incêndios acaba tendo impactos irreversíveis, como parece ser o caso do pico Caratuva. De modo geral as florestas de altitude, apesar do seu aspecto de antigas e duráveis, são extremamente frágeis, pois dependem exclusivamente da reciclagem das folhas que caem das próprias árvores (húmus), para se nutrir. O solo, basicamente orgânico retém pouca umidade em certas épocas do ano (períodos de estiagens sazonais), mas as árvores são resistentes a estas sazonalidades. Porém, caso ocorra um incêndio (como de fato ocorreu), o solo é queimado (incêndio subterrâneo), as árvores perdem a sustentação e ocorre uma instabilidade geral no ambiente. O efeito é devastador. Então, no caso de florestas de altitude não existe a menor dúvida. O incêndio é fatal, destrutivo e pode até mesmo se tornar um dano irreversível. As áreas em que as trilhas atravessam as faces norte e oeste das montanha são as piores situações de risco de incêndios, além é claro, dos acampamentos. Mas o risco é geral, pois um raio ou um balão podem cair longe destes pontos.
De modo geral um incêndio será um pouco menos desastroso para as formações de campos de altitude. Estas formações não são uniformes (podem existir arbustos, bambus, bromélias, etc) e nem sempre correspondem a aquela imagem de “campos” com a qual estamos acostumados. Dentro da variedade de campos, existem ambientes mais propensos a colonizarem locais permanentemente secos e outros permanentemente úmidos, além de campos em ambientes intermediários (sem considerar aí a florística). As espécies que colonizam estes ambientes podem ser diferentes e naturalmente o comportamento do fogo será diferente. Existe uma chance maior de sobrevivência por parte de algumas espécies em caso de incêndio em campos de altitude, dependendo da quantidade de umidade que consigam reter no solo abaixo deles, mas nem todas as espécies suportarão bem o fogo. O mais provável é que o campo de altitude fique mais semelhante e a um empobrecido “pasto de altitude”, caso sofra queimadas (caso do pico Getúlio).
De qualquer modo, como são ambientes altamente especializados e frágeis, não há nenhuma evidência científica de que o fogo seja recomendado como instrumento de manejo em nenhum dos dois casos. A respeito disto pode-se ler uma interessante polêmica na internet. (8).
Como recomendações gerais para este parque está a orientação dos visitantes, o manejo (corte de samambaias e bambus) nas margens da trilha (para favorecer o crescimento de vegetação florestal) e a formação de brigadistas, com fundamentos em ecologia de montanha.
Também recomendo o acompanhamento meteorológico. A retirada de alguns equipamentos inservíveis no cume do Caratuva e a instalação de uma estação meteorológica pode ser uma opção interessante para o parque. Da mesma forma estou sugerindo a construção de uma casa de combate a incêndios e apoio a resgates no pico Getúlio, nos moldes das existentes no morro do Canal e Anhangava. Neste local pode ser feito um armazenamento de água para rescaldos.
Anualmente ocorre, de forma natural, um fenômeno simples e importante nas florestas de altitude: as árvores renovam as folhas. Folhas velhas caem, se acumulam no solo, decompõem-se lentamente e liberam nutrientes para as próprias árvores. Este fenômeno ocorre no fim do inverno e início da primavera, época em que o calor aumenta no hemisfério sul e em que pode ocorrer uma estiagem eventual. Esta combinação de grande quantidade de material seco no solo, mais temperaturas subindo, mais secas eventuais, junto com um “plus” adicional nas faces norte e oeste (além é claro da visitação desregrada das “temporadas de montanha”), foram determinantes para os incêndios anteriores.
Conhecer isto é fundamental para prevenir novos incêndios.
Mais sobre ecologia de altitude:
(1) ROCHA, M. do R.L. Caracterização fitossociológica e pedológica de uma Floresta Ombrófila Densa Altomontana no Parque Estadual Pico do Marumbi, Morretes, PR. Curitiba, 1999.Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.
(2) SCHEER, M.B. & MOCOCHINSKI, A.Y. Florística vascular da Floresta Ombrófila Densa Altomontana de quatro serras no Paraná. In: São Paulo, Biota Neotropical, FAPESP, n. 9(2), 2009, p. 1 -19.
(3) STRUMINSKI. E. Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p.
(4) PORTES, M.C.G.O. Deposição de serrapilheira e decomposição foliar em Floresta Ombrófila Densa Altomontana, morro do Anhangava, Serra da Baitaca, Quatro Barras, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.Curitiba, 2000.
(5) KOEHLER, A. Floresta Ombrófila Densa Altomontana: aspectos florísticos e estruturais do componente arbóreo em diferentes trechos da Serra do Mar, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2001.
(6) MOCOCHINSKI, A. Y.; SCHEER , M. B. Campos de altitude na serra do mar paranaense: aspectos florísticos. In: FLORESTA, Curitiba, PR, v. 38, n. 4, p. 625-640, out./dez. 2008.
(7) TRAMUJAS, A de P. A Vegetação de Campos de Altitude (Áreas de Refúgio) no Maciço Ibitiraquiri – Serra do Mar no Estado do Paraná. Curitiba, 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.
(8) RIBEIRO, K. T. Campos, fogo e gado, considerações sobre o artigo de Pedro Hauck “origens dos campos de altitude”. In: http://www.altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=1425. Acesso em 26/5/2009 .
Oi Du Bois, muito interessante o trabalho. Vc também pesquisou a relação entre a Floresta de Araucária e o fogo?
Tenho em PDF dois interessantes trabalhos de Soares sobre o assunto.
Complementando o tema, realizei meu mestrado sobre a evolução da paisagem nos Planaltos do PR, tendo em consideração dados paleopalinológicos e consideraçòes sobre a teoria dos Refugios.
Muito se fala sobre sobre os campos, mas pouco se pergunta sobre a origem genética deles, assim como a sucessão para Florestas de Araucária e muito menos sobre a substituição delas por Lauráceas.
Eu enxergo uma relação entre a manutenção de Araucárias atraves da ecologia do fogo e veja que nossas paisagens ainda não haviam atingido um climax climático antes de sua total alteração.
De fato Pedro a relação entre a Floresta de Araucária e o fogo ainda é tema de controvérsias, mas a conversão dela para lauráceas já é um tema debatido há bastante tempo. REITZ & KLEIN (1966), já haviam distinguido diversos tipos fitosociológicos nas florestas com araucária do sul do Brasil.
No Parque Estadual do PP não existe a tipologia “Floresta de Araucária”, embora a gente possa ver árvores isoladas, por isto não pesquisei ela. Já os campos de altitude tem diversas fisionomias, mas eu não encontrei nenhum trabalho e, principalmente, não encontrei nenhuma evidência no lugar de que este tipo de campo seja favorecido pelo fogo, até porque existem várias tipologias de campo de altitude, algumas eminentemente úmidas. Por isto não recomendo o uso do fogo neste ambiente, até porque, o que eu constatei é que quando a Floresta Altomontana é queimada, o que vem no lugar não é campo, mas formações secundárias arbustivas. Enfim, me parece tudo bem delicado. Estou sendo bem cuidadoso nas minhas recomendações ao IAP.
É um tema vasto este Pedro, vale até um doutorado.
Du Bois