Por Edson Struminski (Du Bois)
Fazia um tempo considerável que eu não enfrentava uma longa viagem de trem, um meio de transporte que tornou-se fora de moda e incomum, assim foi um pouco surpreendente constatar que meu acesso até o sudeste do Pará, a partir de São Luis no Maranhão, seria feito através de uma viagem que consumiria 16 horas em um confiável trem de passageiros da Estrada de Ferro Carajás.
A partir de fins de abril esta região deveria estar já atravessando um período de estiagem, mas não foi o que aconteceu, assim a paisagem é um sem fim de áreas inundadas, com estradas interrompidas (a própria ferrovia seria interrompida dias depois, ainda que em um nível bem menor que as estradas de rodagem), casas embaixo d´água e pessoas circulando em canoas entre o interior do Maranhão e a região de Carajás no Pará.
É com chuva que chegamos em Parauapebas, fincada na província mineral de Carajás, tida como uma das maiores do mundo. A lenda (moderna) diz que algumas décadas atrás um grupo de engenheiros voava de helicóptero sobre algumas montanhas, quando a bússola do aparelho ficou maluca. Estavam em cima de enormes jazidas de ferro. Outra história conta que a vegetação diferente no topo da Serra dos Carajás (canga ferrífera) é que indicou o surgimento de algo a mais no subsolo.
O fato é que anos depois descobriram-se outros minerais: níquel, cobre, ou mesmo o ouro, a persistente miragem da Amazônia que atraiu montes de garimpeiros. Esta fase mais pioneira passou, mas mesmo assim Pebas hoje, com 21 anos, continua sofrendo uma invasão populacional, tendo hoje mais de 160 mil habitantes. Com isto é muito difícil encontrar um paraense pelas ruas. Uma típica cidade de imigrantes, onde o sotaque nordestino é o mais comum, mas, como seria de se esperar, existe muita gente do sudeste e mesmo do sul do país. O nosso grupo recém chegado apenas aumenta esta profusão de sotaques. Na verdade Pebas é uma cidade cosmopolita. Pessoas de diversos países passam por aqui e o espanhol ou o inglês não são difíceis de se ouvir.
A mineração em grande escala com todas suas exigências, rigores e gigantismos é o motor do crescimento deste lugar. Se uma nova cidade, uma nova ferrovia ou mesmo uma nova fábrica de alfinetes é montada na China, os chineses compram ferro. Com isto Pebas cresce, quase que na mesma escala chinesa. Mas ela cresce desordenadamente e é obrigada a planejar seu futuro ao mesmo tempo em que ele acontece.
É uma cidade jovem, com um movimento, uma agitação um pouco violenta e perturbadora ou mesmo uma riqueza, bem pouco típicas de uma cidade de interior, algo que eu sinceramente não esperava encontrar na Amazônia. Talvez seja a cidade do Brasil onde eu mais vi daquelas camionetonas 4 x 4 na rua. Na verdade existem muitas Amazônias e como já ocorreu no Brasil em regiões que começam a apresentar uma dinâmica econômica grande, já existe até um movimento para a separação do Pará e criação de um novo estado, o Carajás, algo que provavelmente veremos nos telejornais daqui a algum tempo.
Outra coisa surpreendente e que foge ao lugar comum que sabemos sobre a Amazônia é a paisagem. Nada daquela planície a perder de vista. Faço um vôo de helicóptero e percebo um relevo em geral montanhoso até onde a vista alcança. Pela manhã não é incomum uma neblina típica de regiões montanhosas e um certo friozinho. Viajando pelas estradas, em alguns momentos tenho a impressão de estar andando em paisagens conhecidas como as do interior de Minas, Petrópolis ou do montanhoso litoral do Paraná. É verdade que as montanhas aqui não são altas mas existem aqui e ali escarpas de arenito, ou coisa semelhante, que dariam belos setores esportivos, afloramentos de granito com paredes de seus 50 metrinhos e boulderes espalhados por vários lugares, além de pequenas grutas e ambientes de altitude (canga ferrífera).
O rio Parauapebas se encaixa em meio a estas montanhas, formando belas corredeiras ou inundando áreas planas em momentos de chuvaradas.
O que infelizmente não nos surpreende é a forma como a Floresta Amazônica vem sendo tratada por aqui. Rodamos cerca de 100 km por lugares cujos nomes estranhos acabam se tornando familiares para nós, como Canaã dos Carajás, Mozartinópolis (nada a ver com o compositor clássico), Serra Sul, Racha Placa ou Cedere (um assentamento rural do tempo dos militares) e o que vemos basicamente são pastagens e áreas florestais degradadas. O gado já avança para cima dos morros. E apesar de algumas boas rodovias asfaltadas, o mais comum mesmo são estradões com enormes atoleiros e pontes que parecem improváveis de se passar. Daí o porque de tantas camionetes 4 x 4, elas mesmas de vez em quando entalam no lamaçal, que seriam um paraíso para os bobalhões urbanos sulistas que gostam de carros traçados e atoleiros, mas um transtorno para quem está no meio de um trabalho, ou para quem vive aqui, como constatamos ao longo dos dias.
Nestes lugares, a imagem da Amazônia devastada corresponde exatamente ao que vemos na televisão, o tal “arco do desmatamento”: pastos, árvores queimadas, erosões já aparecendo, com a honrosa exceção da Floresta Nacional (FLONA) dos Carajás, uma área federal que ainda mantém uma vistosa floresta em meio a morros empinados. Fora dela sobram capoeiras, algumas palmeiras como o Buriti ou o Babaçu e árvores enormes como a Castanheira do Pará nas fazendas, testemunhos isolados da devastação. Além disso, volta e meia tropeça-se em algum garimpo perdido. A miragem amazônica do ouro cobrando também uma cota de devastação.
Além do voo, havíamos feito no primeiro dia em Pebas uma visita até um zoo botânico que existe na FLONA dos Carajás, em meio às montanhas, o que serviu como ambientação para quem iria andar por aqui. Além de várias árvores identificadas, encontramos também animais da região. Alguns inclusive soltos pelas alamedas do zoo, como o veado ou o a anta, nenhum deles se importando muito com a presença dos visitantes. O zoo tem também um considerável número de espécies de vistosos psitacídeos (papagaios, araras), como aliás, a maioria dos zoos tem, só que aqui, no caso, os animais são os mesmos que encontramos na vizinhança. De qualquer forma, especial atenção acabamos dando para as cobras, pois elas são muito maiores do que as que acostumamos encontrar na Floresta Atlântica. Porém, avaliando o estado de devastação que a região de Pebas já alcançou não esperava encontrar nenhum animal em nossas andanças pelo campo.
Mas não foi assim. Eis que andando em estradas rurais e trilhas, do nada somos surpreendidos aqui e acolá por corujas, gaviões enormes, papagaios, pela bela arará-canindé ou pela mais espetacular ainda arara-azul, que por si só paga a passagem até a Amazônia. Mas ir até a Amazônia e não trombar com a lendária jibóia é como ir a Roma e não ver o Papa. Nada assustador (ela não é venenosa), mas realmente é um bichão, com vários metros de comprimento. Já a surucucu pico-de-jaca é muito venenosa e ágil. Com esta não deu para ficar de ora veja.
Assim, os animais, alguns deles, se adaptam a esta nova natureza criada pelos humanos. Em parte isto é tranqüilizador, em parte apenas sugere uma condição estranha de convívio do homem com a natureza do lugar. Os animais que suportam o convívio com o ser humano sobrevivem. E os demais? Isto sugere uma repetição de cenas que já se viu no restante do Brasil.
Resta, é claro, aquela Amazônia da grande floresta. O que será que se pode ver nela?