Por Edson Struminski (Du Bois)
Parece um pouco estranho falar sobre a região amazônica com um texto que se inicia na cidade de São Luis, capital do Maranhão, já que o lugar comum, coloca esta cidade e este estado no Nordeste, região brasileira que lembra muito pouco chuvas e florestas densas, mas esta é uma das surpresas a respeito da Amazônia, pois o fato é que ela é uma região tão vasta que extrapola a própria delimitação geográfica, aquela que aprendemos na escola.
Assim, mais de um terço do Maranhão tem (ou tinha) áreas com florestas como as da Amazônia. Então é em meio a nuvens fechadas e quase nenhum sol que eu aterriso nesta cidade.
Estou aqui fazendo parte de uma equipe grande de especialistas em temas ambientais, o que por si só conta muito sobre o que nos juntou em São Luis e mais a frente nos unirá em outro ponto da Amazônia. São pessoas oriundas de várias partes do Brasil. Alguns são de cidades bem conhecidas, como Curitiba, Brasília, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiania, Belo Horizonte, mas outros vem também de cidades das quais alguns de vocês talvez estejam ouvindo falar pela primeira vez, como Viçosa em Minas Gerais, Lusiania (Goiás), Bebedouro (São Paulo) ou Araguaía no Tocantins.
São especialistas em fauna, flora, geologia, geomorfologia, sociologia, mateiros, técnicos em segurança, enfim, aquele leque de profissões que qualquer estudo sério sobre a Floresta Amazônica demanda hoje em dia.
Mas antes vou falar um pouco sobre São Luis. Existe uma singularidade muito sutil, que é a que diz respeito à sua fundação. Luis era o nome de um rei francês e ele deu seu nome a uma cidade que inaugurava um pretenso projeto de uma França equatorial a muitos quilômetros da civilizada Europa nos anos 1600. Mas como aconteceu com tantos outros colonizadores pretensiosos (holandeses, ingleses, espanhóis), que tentaram a sorte no Brasil, o que acabou realmente se consolidando em São Luis foi mesmo a paciência, a perseverança e até mesmo, como diria Sergio Buarque de Holanda, um certo pragmatismo e desleixo portugueses, frente a uma natureza tão estranha para os europeus.
Portanto é em São Luis, uma estranha ambigüidade de Amazônia nordestina, de uma França portuguesa que começo esta viagem sobre a Amazônia. É a partir desta cidade que começarei a descobrir algo sobre as diferenças e sobre o que temos em comum com pedaços do Brasil que dificilmente vemos aparecer nos jornais e programas de TV.
Começo pelas pessoas, pelos ludovinenses, que possuem alguns linguajares próprios, ou mesmo inconfundíveis traços indígenas no rosto. Nas pessoas já é possível perceber uma certa proximidade com a Amazônia, com o norte do país. Afora isto, não há e nem poderia haver maiores diferenças entre os maranhenses e todo este grupo que vem dos mais diferentes lugares do Brasil. Em São Luis as pessoas trabalham, frequentam escolas, fazem compras em supermercados de coisas mais ou menos parecidas com as coisas compradas em outras cidades Brasil afora.
Além disso, como seria de se imaginar, São Luis, como capital de um estado, tem seu lado “Brasília”, moderno, bem definido. Como toda cidade de um certo porte no Brasil, o que mais vemos por todos os lados são grandes avenidas, prédios luxuosos prontos ou em construção, automóveis, correrias urbanas. Não há muitos mistérios nesta parte da cidade. Poucas calçadas, muitos carros. Carros amontoados em calçadas. Andando neste setor moderno, é preciso uma certa sutileza, como uma cobra atropelada na rua, ou pelo contrário, um evento amazônico, como um chuva copiosa, rápida e espantosa, destas de inundar cidades, o que realmente aconteceu em alguns dos dias em que aqui estive, para que eu perceba que estou na Amazônia.
As chuvas reviram a cidade pelo avesso, espalham o lixo abandonado pelas ruas, destroem estruturas antigas e avenidas modernas. Principalmente põem a nu a falta de planejamento e de previdência humanas. Isto, não representa nenhum desmerecimento particular para esta cidade, apenas, de certa forma, mostra o que São Luis tem em comum com a grande maioria das cidades brasileiras, o desleixo a que se refere Buarque de Holanda.
Se a modernidade, para o bem ou para o mal, hoje nivela São Luis com qualquer outra grande cidade brasileira, sua raiz, como seria de se esperar, fica por conta da parte mais antiga da cidade, que deve ter uns duzentos anos. Restam poucos vestígios dos tempos coloniais, até porque os portugueses não se esmeraram em construir nada muito duradouro nos tempos em que eram os donos do pedaço, que dirá os franceses, que por aqui parece que só deixaram o nome (consta que um dos mais badalados destinos turísticos dos franceses nos últimos anos tem sido esta cidade brasileira, particularmente em 2009 que é o ano conjunto Brasil-França).
A São Luis antiga é quase toda do tempo do Império, com toda aquela pompa típica deste período: pedra, madeiras maciças, ferro. Materiais da época. Ruas estreitas com calçamento irregular subindo ladeiras. A particularidade da cidade corre por conta de um detalhe que faz a sua fama: as casas e construções são quase todas decoradas externamente com azulejos. Alguns realmente bonitos, o que gera um conjunto harmonioso e atraente. É bastante evidente que os azulejos não são apenas traços superficiais da cidade. Eles dão o tom e a alma a este lugar. Estão nos sinaleiros, nos prédios modernos, no artesanato. A cidade tem carinho por seus azulejos e isto é realmente importante para o modo de vida das pessoas. Entender que as pessoas demonstram esta forma de carinho nas suas moradas é algo que escapa ao mero afã turístico por artesanatos e outras quinquiliarias.
Parte da cidade antiga é do tempo do início da república. É muito visível a mudança psicológica que os (na época) novos donos do poder quiseram imprimir à população, através da construção de um centro cívico com a arquitetura que estava na moda na época, o neoclássico. Tudo muito bonito e artificialmente harmonioso. Neste ponto São Luis se assemelha novamente com qualquer outra cidade brasileira que passou pelo mesmo processo de transição império-república, ou seja, a maioria das cidades brasileiras mais antigas.
Foi um período de rejeição de tudo o que era lembrança da colônia, do império, ou seja, de tudo o que os republicanos viam como atraso do país: empirismo urbano, escravidão, poder público fraco e atrelado à igreja, falta de ciência e de engenharia. Aliás, foi no período republicano que São Luis virou capital de estado, status que antes pertencia à outra cidade vizinha. Alcântara.
Alcântara
Com uma hora de barco (catamarã, um barco leve que usa motor e velas) chega-se a Alcântara, antiga capital do Maranhão. A cidade tem um impressionante conjunto arquitetônico e respira história, nos barcos, nas ruas de pedras irregulares, nas muitas construções amontoadas, muitas em ruínas, outras tantas ainda em uso pela população, quase toda descendente de escravos que se revoltou após o fim da escravidão. Episódio este, aliás, que gerou a decadência desta cidade pois os senhores de escravos simplesmente deram no pé e fundaram uma nova capital em São Luis.
Um pequeno museu na cidade procura manter viva as informações que dão sentido a esta história toda. Existem pequenas preciosidades que integram a história na paisagem e acaba sendo possível entender o mundo que as pessoas que lá vivem herdaram.
Alcântara convive também com o supra sumo da modernidade. No município está instalada uma base de lançamento de foguetes da aeronáutica. Esta base ocupa nada menos que metade da área rural do município e isto gera uma porção de conflitos por uso do solo, algo que parece estar longe de ser resolvido.
Por outro lado é visível que a região ainda tem o ambiente natural bem conservado, pelo menos quanto a aquilo que sobrou de séculos de uso do solo na colônia e no Império. Na entrada da cidade ainda encontra-se um mangue muito bem conservado com uma ave extremamente bela que já é rara em muito lugares: o guará.
Em Alcântara eu me defronto com aquela característica que sempre é apontada como o lugar comum da Amazônia, o calor abafado. Será que ele será meu parceiro no resto da minha viagem pela Amazônia?
Tanto Alcântara como São Luis são cidades ligadas ao mar. No passado eram os produtos da escravidão que saiam pelo mar de Alcântara, hoje são os turistas que vem ver sua riqueza imperial. Já São Luis ganhou um ultra movimentado porto internacional (que transporta minérios em navios gigantescos). O porto é o fim de uma linha que começa algumas centenas de quilômetros antes, no Pará, na Serra dos Carajás, em plena floresta amazônica. É para lá que eu vou agora.