Por Edson Struminski (Du Bois)
A exatidão
Gostaria de terminar esta minha análise do livro do escritor italiano Ítalo Calvino em que ele apresentou propostas para o novo milênio (1), imaginando que se houver um leitor, mesmo que somente um entre os tantos que passam por este blog diariamente, que eventualmente se torne uma pessoa interessada nas propostas de Calvino para aperfeiçoar a literatura e que enxergue nestas propostas uma estranha, ainda que possível fonte de diálogo com o montanhismo (e com possibilidade de aperfeiçoá-lo), então estes textos terão valido a pena ser escritos.
Quando argumenta a favor da exatidão, Calvino comenta de fato sobre aquela que é a ferramenta dele, a linguagem e que no entender deste escritor parece que vem sendo usada de modo aproximativo, casual, descuidado, com um automatismo que tende a nivelar a expressão em fórmulas genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos. É o caso, então de começarmos a observar se é isto o que estamos observando agora, em grande escala, no cruzamento do mundo da internet com o mundo da montanha.
Para Calvino não interessa indagar se as origens disto que ele identifica, de antemão, como uma epidemia (por esta escala planetária) devam ser pesquisadas na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media ou na difusão acadêmica de uma cultura média. Para ele o que temos é uma mediocridade. Se formos usar a análise radical deste autor teríamos que nos perguntar se que o que vemos hoje no “meio literário” montanhês é de fato expressivo, ou são apenas lugares comuns. Será que nós temos mesmo bons escritores de montanha ou não? Será que estamos fazendo a nossa parte?
Como se não bastasse esta assustadora avaliação, Calvino lembra que vivemos também sob uma chuva ininterrupta de imagens, a mídia toda poderosa (e nós com a internet fazemos parte dela) não faz outra coisa senão transformar o mundo em imagens, multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de espelhos, imagens que são em grande parte destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem como forma e como significado, como força de impor-se à atenção, como riqueza de significados possíveis. Para ele, grande parte desta nuvem de imagens se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória, mas o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal-estar.
Mas, segundo Calvino, talvez a inconsistência e a falta de exatidão não esteja somente na linguagem e nas imagens, está no próprio mundo. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna as histórias informes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim, coisa que eu próprio já tive a oportunidade de constatar e comentar em artigos anteriores.
Para ele, a busca pela exatidão passa, então, pelo esforço das palavras para dar conta, com a maior precisão possível (minimalismo), do aspecto sensível das coisas. Assim, o justo emprego da linguagem é aquele que permite o aproximar-se das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem o recurso das palavras.
Para Calvino, a obra literária é uma destas mínimas porções nas quais o existente se cristaliza numa forma, adquire um sentido, que não é nem fixo nem definido, nem enrijecido numa imobilidade mineral, mas tão vivo quanto um organismo. Calvino dá a entender que as narrativas, quando tem esta vida, se tornam mais interessantes, visando antes à novidade, à originalidade, à invenção.
Talvez como grande ensinamento final do mestre Calvino a todos nós que gostamos de escrever sobre temas de montanha e para compensar o predomínio da imagem visual, fica a sugestão de que a busca de um equivalente às imagens aconteça no desenvolvimento coerente da impostação estilística inicial, até que pouco a pouco a escrita se torne a dona do campo e da imaginação dos leitores. Assim, nossa imaginação deverá estar a serviço do repertório potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.
Calvino nos lança esta pergunta. Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Ele nos lembra, finalmente, que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis, por isto, para ele, escrever vale à pena.
(1) CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
Acho que minha interpretação ficou aquém do texto, não consegui absorver direito seu conteúdo, mas pelo pouco que entendi ele fala sobre a essência das coisas, sem rodeios que acabam por mascarar e depreciar as “coisas”.
Particularmente gostei muito das partes 1 e 2 pois são comceitos muito importantes na montanha e vitais dependendo de seu objetivo, leveza e rapidez com uma exatidão (clareza) de suas pretensões e decisões são ótimos ingredientes para uma prazerosa aventura nas montanhas.
Abrass
Ops conceito é com “n”, puxão de orelha de Calvino! eheheheh
Estava pesquisando algumas possibilidades que esse livro maravilhoso de Calvino (Seis propostas para o próximo milenio) suscita e achei esse blog e suas considerações. Gostei muito de ter minha visão expandida por essas reflexões sobre a Montanha e levei trechos dela para nosso blog da Companhia de Aprendizagem onde estamos abordando essa obra na categoria Diálogo com o Milênio.
Valeram portanto, essas reflexões!
E para contribuir com o montanhismo, uma frase do pensador, psicologo, antropologo e teologo contemporâneo o frances e pensador transdisciplinar Jean Yves Leloup:
” Era preciso reaprender a ser, simplesmente a ser – sem objetivo nem motivo. Meditar como uma montanha era a própria meditação do ser “do simples fato de ser”, antes de todo pensamento, de todo prazer, de toda dor. …Meditar como uma montanha também tinha modificado o ritmo de seus pensamentos. Havia aprendido a “ver” sem julgar , como se ele desse a tudo que brota na montanha “o direito de existir”.
TCris
(Citação: Leloup, Jean Yves. Esinamentos sobre o hesicasmo. ed. Vozes)