Por Edson Struminski (Du Bois)
A rapidez
Tem sido uma surpresa, para mim, encontrar nas páginas de um escritor como Ítalo Calvino inspiração para falar sobre temas de montanha. Em um livro em que apresentou propostas para o novo milênio (1) ele resolveu incluir o tema da rapidez como uma sugestão para levarmos em consideração .
É muito mais estranho falar da rapidez no mundo literário do que no mundo da montanha, pois no mundo físico isto é um tanto óbvio, parece mesmo uma característica da modernidade. Para nós, montanhistas, é fácil imaginarmos, por exemplo, a diferença entre cordadas rápidas e lentas. Mas assim como no caso da leveza, o tema que interessa para Ítalo Calvino e que diz respeito a nós montanhistas não é tanto a velocidade física, mas a relação entre a velocidade física e a velocidade mental.
Para Calvino a rapidez não significa escrever ou ler rápido e sim acontecimentos se sucedendo rapidamente. É como aquilo que pode acontecer em uma escalada, acontecimentos rápidos em uma luta contra o tempo, contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo. Algo que faz muito sentido na montanha, onde inúmeras histórias de cordadas fazendo escaladas lentas, que parecem se arrastar, já nos dão a antevisão de fracassos ou de situações até mais trágicas, ao passo que cordadas rápidas sugerem habilidades insuspeitadas.
Segundo Calvino, a rapidez de pensamento quer dizer antes de tudo agilidade, mobilidade, desenvoltura, qualidades importantes física e mentalmente para qualquer escalador que almeje algo mais que meramente passar o tempo na montanha. Com isto Calvino não nega os prazeres do retardamento, da divagação ou da lentidão, como acontece na literatura e como poderíamos imaginar à primeira vista, mas opta pela velocidade mental, pelo valor dela por si mesma, pelo prazer que proporciona a aqueles que são sensíveis a esse prazer e menos pela utilidade prática disto, muito embora eu entenda que raciocínios rápidos tem sim, grande utilidade prática para um montanhista. De qualquer modo, para Calvino, um raciocínio rápido não é melhor do que um ponderado, mas comunica algo especial que está precisamente neste ligeireza. Algo que faz muito sentido no mundo moderno, em particular no mundo da montanha.
Isto porque para Calvino, na vida prática, principalmente nos dias atuais, o tempo é uma riqueza de que nos tornamos avaros, por isto a economia de tempo é uma coisa boa, porque quanto mais tempo economizamos, mais tempo poderemos gastar, por exemplo, no fim de uma escalada, no cume de uma montanha, vendo um por de sol ou arrumando um bivaque com mais tranqüilidade.
A rapidez se ajusta muito bem, então, quando estamos falando de escaladas longas, onde minutos se transformam em horas e horas em dias, com tudo o que isto implica na sucessão de acontecimentos, decisões, dramas, aventuras e glórias (ou derrotas). A literatura de montanha está repleta de situações em que identificamos claramente a lentidão ou a rapidez como um fator determinante para uma história tomar um rumo ou outro.
Como existe uma farta literatura em montanha, a rapidez com que os acontecimentos se sucedem é muito fácil de ser verificar, particularmente nos relatos atuais dos escaladores. Mas tomemos uma história clássica, a primeira ascensão do Fitz Roy por uma brilhante expedição de franceses nos já distantes anos 1950 (2). Há uma sucessão incrivelmente veloz de acontecimentos entre a preparação da expedição, sua viagem, a inesperada e rápida morte de um dos componentes, a aproximação da montanha, a ascensão da parede por dois membros da equipe, a volta do grupo a Buenos Aires, a ida ao Aconcágua para mais uma ascensão e finalmente o retorno à França, Não por acaso o símbolo desta agilidade é aparentemente mais mecânico do que humano. Mais do que mulas, lentos caminhões em estradas impraticáveis ou longas aproximações, é em especial o avião, que neste período logo posterior à segunda Guerra Mundial havia se transformado em uma máquina confiável e segura para transporte de passageiros e de cargas, que podemos perceber uma mudança respeitável de como as expedições se tornariam rápidas a partir de então.
Mas a velocidade das máquinas, se pontua, define e facilita o deslocamento do grupo, apenas reforça a percepção e agilidade mental destes escaladores, conforme vocês podem ler em um trecho em anexo*. É a rápida tomada de decisões, mesmo diante de tragédias e a atividade incessante e coordenada, frente às longas e inevitáveis demoras na escalada ou às enervantes esperas causadas pelo mal tempo que sugere, afinal, escaladas feitas com notável rapidez, lembrando sempre que estamos falando dos anos 1950.
Isto se tornaria lugar comum a partir de então. Os novos equipamentos de escalada simplesmente acrescentariam mais rapidez ao “fazer” da escalada (um friend se torna mais rápido de colocar que um grampo fixo), mas não necessariamente rapidez à escalada. Esta última continuará dependendo sempre da agilidade física e da rápida tomada de decisões do montanhista, responsável pela velocidade na sucessão de acontecimentos, que é o como Calvino definiu a rapidez.
Também é na velocidade mental que os relatos das escaladas (que afinal de contas acabam virando literatura) se diferenciariam e não na sua velocidade de divulgação. Calvino nos alerta que em uma época em que mídias como a internet permitem uma velocidade espantosa e um alcance extraordinário, elas arriscam reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea (basta ver o vazio de ideias e os lugares comuns dos sites e blogs dos montanhistas). A função de quem escreve, no entender dele, é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas exaltando a diferença, segundo a vocação própria da palavra escrita. Nos tempos atuais a velocidade da mídia deverá estar, então, não a serviço de mesmices e sim a favor desta velocidade mental.
Leia mais em:
(1) CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
(2) DEPASSE. L. Al asalto del Fitz Roy. Buenos Aires, Ediciones Peuser, 1954.
*“Bruscamente, por primera vez, me doy cuenta de los lejos que estoy de Francia, en este avión, que a toda velocidad, se dirige siempre al sur del hemisferio austral. Muy lejos, asimismo, de Buenos Aires, porque estas playas, estas focas, estos pingüinos, no evocam en lo más mínimo la rica provincia, com sus cultivos y sus islas casi tropicales del Tigre, que hemos dejado atrás esta mañana. Estas playas parecem, más bien, anticipos de la Antártida que más Allá de Tierra del Fuego, extiende sus hielos caóticos y desolados donde resurgen altos picos, posible prologamiento de la Cordillera”.