Por Edson Struminski
Ignoro se o escritor italiano Ítalo Calvino foi montanhista. Mas em junho de 1984, ele foi convidado a fazer um ciclo de palestras na Universidade de Harvard, Estados Unidos (1). Ele criou aquela apresentação com base em valores literários que achava que mereciam ser preservados. Estou tomando a liberdade de tomá-los como valores do mundo da montanha que também acho que merecem ser preservados. Espero que apreciem a leitura.
A leveza
A leveza, em favor da qual argumenta Calvino, não se refere apenas ao peso corporal, embora ele sugira que isto também seja importante (inclusive acho que o é para nós montanhistas). A leveza de que ele nos fala é principalmente a das ideias. Calvino nos conta que no início do seu labor de escritor defrontou-se com o pesadume, a inércia e a opacidade do mundo, qualidades que logo se aderem à escrita como carrapatos, quando não encontramos um meio de fugir delas. Um peso que encontramos em muitos textos escritos por montanhistas, em muitas ações de montanhistas, em nós mesmos.
Ele cita também um outro escritor, Milan Kundera, que em um romance famoso (A insustentável leveza do ser), mostra exatamente o mundo oposto sugerido pelo nome do livro: o peso da vida está em toda forma de opressão social, constrições públicas e privadas, regras, normas, que aprisionam cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas. Enfim, o mundo formal, do qual as pessoas não sabem como sair ou se sentem pesadas ou inseguras (como em Kafka) em ao menos tentar sair. O romance de Kundera mostra como na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba se revelando de um peso insustentável. Será este o caso do montanhismo para muitas pessoas? Das suas instituições, obrigações, regras, competições e demonstrações de força tão densas, que tornam ao final, o esporte um peso? Isto explicaria porque muitos desistem no meio do caminho? Por não suportarem as exigências sociais ou formais do esporte? As estranhas cobranças que surgem no meio do caminho?
Calvino cita uma história que ilustra a oposição entre a leveza e o peso, ambos em posições pouco aparentes à primeira vista. Ele extrai dos episódios do Decamerão, de Boccaccio, uma cena em que um poeta passeia distraído e tranquilo entre túmulos de mármore de um cemitério e é quase atropelado por um barulhento grupo de jovens cavaleiros que faz uma correria com seus cavalos apenas para troçar dele. A resposta do poeta aos cavaleiros é interessante, porém mais interessante é a cena de leveza seguinte. O poeta simplesmente se apoia em um dos altos túmulos e “levíssimo que era, deu um salto arrojando-se para o lado e, desembaraçando-se deles, lá se foi”, deixando os cavaleiros atônitos e desconfortáveis no cemitério.
Para Calvino, esta leveza do poeta, que ele associa, como eu no montanhismo, com a precisão e com a determinação, mas nunca com o que é vago e aleatório (é preciso ser leve como um pássaro e não como a pluma) e que por isto exige disciplina e autodeterminação, contrasta com a leveza da frivolidade, pois a leveza do pensamento pode fazer a frivolidade parecer pesada e opaca, como no caso dos cavaleiros, ou então, das pessoas que andam sem objetivos, em correrias barulhentas pelas montanhas.
Com isto, Calvino finaliza de forma magistral este episódio comentando que se fosse escolher um símbolo para o novo milênio escolheria este: o salto ágil e imprevisto deste poeta-filófoso que detém o segredo da leveza, enquanto que aquela que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, estrepitante e agressiva, espezinhadora e estrondosa, pertence ao reino da morte (pelo menos no mundo das ideias), como um cemitério de automóveis enferrujados ou coisa que o valha.
E neste ponto da leitura de Calvino, a imagem que me veio à cabeça foi a estranha percepção que me surge toda a vez que eu me defronto com um destes ambientes artificiais de escalada: muros, academias, campeonatos, no qual a densidade da estrutura parece se somar ao insustentável peso do esforço das pessoas em domar as dificuldades destas estruturas, em lutar contra elas. Em contraposição a isto, lembro-me da agradável sensação de descoberta que os muros e praças de cidades como Curitiba sempre proporcionam a quem faz esta releitura das cidades, a leveza de quem quer treinar por estes caminhos. Sem contar, é claro, a óbvia e inestimável sensação de leveza que podemos sentir ao andar em uma montanha de verdade.
Mas vejam, isto é uma percepção. Assim como para Calvino, a leveza é apenas uma opção para mim, não é necessariamente o contrário do peso, pois a densidade do pensamento pode ser igualmente muito boa. Também não faço uma condenação ao peso que percebo, por exemplo, no mundo da escalada em muros artificiais como citei acima. Chamo a atenção a uma palavra que eu usei ali acima: percepção. Tenho uma percepção de “algo pesado” no ambiente dos muros artificiais, que começa mas vai além mesmo das suas estruturas pesadas. Será que a percepção que eu tenho dos muros artificiais estará relacionada às suas obrigações inconfessáveis, regras e competições a que seus freqüentadores estão submetidos? Coisas que vemos em todos os grupos sociais onde a aparência conta mais que a profundidade.
Parodiando agora este escritor, os montanhistas deveriam passar este novo milênio nas montanhas sem esperar encontrar nelas nada além do que forem capazes de levar (em suas mochilas ou cabeças). A leveza, por exemplo, cujas virtudes Calvino tão bem soube ilustrar em seu texto.
Mais de Calvino:
(1) CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
Dolce e chiara è la notte e senza vento,
E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti
Posa la luna e di lontam rivela
Serena ogni montangna.
Doce e clara é a noite e não há vento
E calma sobre os tetos e entre os hortos
Repousa a lua, ao longe revelando
Serenas as montanhas.
Giacomo Leopardi