Até que ponto a deselegância crônica no montanhismo paranaense está prejudicando sua evolução?
Por Edson Struminski (Du Bois)
Depois de alguns dias escalando em diferentes lugares de Santa Catarina, é com uma espécie de prazer renovado que volto a subir as pedrinhas do nosso Anhangava, aqui no quintal da minha casa.
Andar pelo Anhangava em um fim de semana é um pouco como participar destes programas de auditório da televisão, estilo Domingão do Faustão ou Silvio Santos. Aparece todo tipo de gente: farofeiros em grupos alegres e barulhentos, crianças, idosos. Gente super equipada para fazer big wall, rapazes grandalhões se pendurando em lugares inimagináveis, meninas bonitinhas enfeitando bases de vias e até mesmo escalando algumas paredes sem muita habilidade. Ao mesmo tempo cruzo também com garotas e garotos fortes malhando de verdade e evoluindo na pedra. Há gente preguiçosa, agitada, empenhada. Gente querendo aparecer, gente desaparecida. Videocassetadas. Eu posso cruzar, em um mesmo dia, com algumas das melhores ou das piores pessoas que eu já conheci nas últimas três décadas. Enfim, mesmo depois de tantos anos, o Anhangava é um lugar que tem um repertório aberto para qualquer um adquirir novos conceitos ou preconceitos.
É um fim de semana em que faço também um pouco de tudo. Escalo com Sato, um de meus parceiros mais frequentes, escalo em solitário, com corda de cima ou de baixo, escalo com uma turminha simpática que me oferece a ponta da corda em uma das fissuras do morro, faço boulder, solo algumas vias. Escalo sozinho em alguns lugares absolutamente calmos, depois passo para outros onde há um monte de gente falando. Escalo em pedra seca ou molhada. Alterno momentos de concentração máxima com descontração total. Enfim, acabo aproveitando coisas das mais diversas do Anhangava.
Uma moça chama a minha atenção. É uma pessoa que eu conheço já de algum tempo. É uma pessoa correta, trabalhadora e batalhadora, que sei que já passou por muitas dificuldade na vida e certamente não é nada filhinha do papai, pois eu sei que ela ganhou pouca coisa de graça na vida. Enfim, é uma pessoa madura e uma boa amiga. Particularmente é uma destas pessoas que não precisa de cordas, capacetes ou mosquetões coloridos para dizer que é uma montanhista de verdade, pois para ela, assim como para mim, montanhismo é uma filosofia de vida aprendida no convívio diário com este ambiente.
Não é de hoje que eu vejo ela correndo atrás de questões ambientais, ou outras igualmente dignas, destas que somente se empenha quem tem paciência e enxerga à frente dos fatos. Com esta grata amiga, a Dedé, tive uma conversa muito prazerosa, a ponto dela não se furtar a comentar, na lista da FEPAM, o que ela viu de bom surgindo no Anhangava durante um ano em que ela está morando longe daqui.
Ela lançou alguns elogios sobre coisas que ela enxerga como meu trabalho no email para a lista desta federação, coisas que na verdade são como filhos que se orienta, pois já andam sozinhos, que você sabe que crescem todo dia, mas que até pela proximidade, você enxerga os detalhes, mas não vê o todo. São coisas que hoje achamos banais, mas que deram muito trabalho para conseguir, como uma trilha gradativamente melhor e mais bem conservada, platôs e bases de vias estáveis, menos lixo na montanha, árvores vivas crescendo no lugar de tocos queimados ou mesmo o trabalho de formiguinha de conter bambus e samambaias que sempre são um convite para um novo incêndio. Enfim, trabalhos de muitas pessoas, embora eu tenha um prazer particular em executá-los ou orientá-los.
Mas ela também me lembrou das enfadonhas e vazias reuniões “de planejamento” que tivemos que suportar, da incontável papelada protocolada tentando evitar que algum projeto aloprado ou ostensivamente estúpido e degradante acontecesse nas montanhas (e que inevitavelmente nos custou a animosidade de gente defensora destes projetos) dos inevitáveis “chás de cadeira” que tomamos em orgãos públicos e também da incompreensão ou indiferença de muitos autoproclamados “montanhistas”.
Lembramos ainda de alguns de nossos fracassos ou dos erros que inevitavelmente, como humanos apaixonados pela montanha, cometemos ao longo do percurso. Erros estes sempre rapidamente apontados por uma certa parcela de gente pequena, muitos ligados ao mundo da montanha, que sempre veem aí a chance de tentar crescer um pouco tentando diminuir quem faz algo de bom.
Um outro amigo, o Sassá, com quem já escalei um punhadinho e também já fiz outras tantas coisas boas em montanhas, definiu este nosso papel militante como o de pioneiros, que a imagem clássica nos remete a alguém que “abre os caminhos para os demais”, o que se aplicaria, no meu caso, a estes cuidados ambientais com a montanha, a ciência na montanha, à abertura de novas vias de escalada, etc e, consequentemente, aos erros e acertos correspondentes.
O caso é que, tirando este lado do pioneirismo, o elogio que Dedé fez a mim é extensivo a qualquer pessoa que dedique um mínimo de amor à montanha. No meu caso e no dela também penso que isto é totalmente verdadeiro. Amor à natureza em geral e à montanha em particular é um sentimento que eu compartilho com esta amiga e que, embora isto pareça contraditório, foi justamente este amor e este apreço pelo pioneirismo que me afastou das instituições de montanhismo (clubes, associações, ginásios) e de grande parte das pessoas que frequentam estas instituições, mesmo hoje, pelo fato paradoxal de, ao longo dos anos, eu sentir muito pouco amor e generosidade nestas instituições para com a montanha e muito culto ao individualismo, como se a montanha fosse apenas uma tábua de exercício para inflacionar egos através da elevação da graduação da vias ou da superação de algum obstáculo momentâneo, ou mesmo servisse somente para ostentação de um vazio título de diretor/chefe/presidente/guru mor de alguma instituição montanheira. Enfim, aquele individualismo vazio, que transforma a montanha em um mundinho besta.
Mas antes que vocês leitores caiam na armadilha fácil de que estará lendo um “lá vem mais uma corrosiva crítica do malvado Du Bois aos clubes de montanhismo”, é preciso que reflitam sobre um fato histórico.
Com o passar dos anos e acompanhando alguns outros personagens emblemáticos do montanhismo percebi que também aconteceu algo semelhante com eles, este afastamento. Percebi que isto não é apenas uma particularidade minha. Alguns das pessoas mais importantes do montanhismo se afastaram das instituições organizadas (e isto não só no Paraná). Por que isto ocorreu?
Mas então e isto é importante, eu gostaria de prosseguir escrevendo agora este artigo não como uma crítica em particular, embora às vezes cite episódios particulares a título de esclarecimento. Este é um artigo bastante reflexivo e amplo e é importante que vocês pensem sobre o que vão ler agora e comentem, é claro, mas sem deselegâncias ou falsos moralismos, pois são truques baratos e vulgares que já usaram sem muito proveito no meu blog e eu não costumo subestimar a inteligência dos meus leitores. A intenção deste artigo é promover a evolução e não destruir instituições. Entretanto eu defendo a quebra de alguns dogmas que ainda existem no montanhismo paranaense em particular, mas que podem existir em outros estados.
Cito um episódio simbólico recente. Há alguns meses atrás algumas moças de um clube de montanhismo incomodadas com as críticas que eu fiz sobre questões de segurança em montanha, publicado neste blog compuseram (?) e cantaram para mim uma musiquinha, cuja letra falava de como eu incomodo as pessoas.
A palavra incomodar pode ter aí duas conotações. Uma é positiva, tirar-nos do comodismo e fazer com que avancemos, que haja progresso. A segunda é negativa, trazer desconforto e mal estar e induzir as pessoas à fuga ou estagnação. Pelas discussões geradas pelo meu artigo, pude perceber que o incômodo a que a música das garotas se referia dizia respeito a esta segunda conotação.
Tirando aspectos pessoais e particularidades, posteriormente eu soube que infelizmente outros parceiros de montanha, gente com currículo respeitável em montanha, ou mesmo pessoas de boa fé também sofreram com comportamentos deselegantes, como este protagonizado pelas meninas, ainda que com variações (não foram compostas musiquinhas e sim feitas condenações, ou depreciações por exemplo). E isto há não muito tempo. Relacionando isto depois a episódios ocorridos no passado, percebi então que estas cenas são mais comuns do que pensamos, são recorrentes, representam um dogma.
E é aí que eu os convido a uma reflexão, pois chegamos a um ponto chave. Quando algumas garotas tem um comportamento deselegante com alguém que escala há mais tempo do que elas tem de vida, o que isto significa? Apenas mulheres com momentâneo comportamento bobo e passageiro de adolescentes ou algo mais? Quando um montanhista veterano apresenta seu conhecimento para um público e recebe de troco deselegância o que isto significa? Apenas um público invejoso e bobo ou algo mais? Quando alguma pessoa apresenta alguma declaração que defende as montanhas, mas contraria a política momentânea de clubes e federações e com isto sofre uma repreensão deselegante (*), o que isto significa?
Penso que o dogma da deselegância reflete um estranho conservadorismo que se produz e reproduz nestas instituições como bactérias e que contamina pessoas jovens e aparentemente saudáveis que circulam por elas, algumas postadas até mesmo nas cabeças destas organizações de montanha e que culmina em cenas cíclicas e deselegantes de mau gosto, que não engrandecem quem protagoniza as cenas e que tentam diminuir quem é vítima. Isto existe ou é imaginação minha?
Neste momento creio que vocês podem começar a me apedrejar se quiserem, mas reflitam antes e não se esqueçam dos respectivos e inumeráveis telhados de vidro frágil e transparente existentes.
Entender o dogma e seus reflexos me parece vital para a sobrevivência do montanhismo, em particular no Paraná, embora isto certamente não deva ser exclusividade daqui. Note-se que existe aí um limiar entre uma evolução criativa com um certa dose saudável de dialética ou a cristalização da estagnação mental em uma doutrina que condena todo o esforço criativo independente (o montanhismo é um campo em que o grau de dificuldade das escaladas pode até ser eventualmente ampliado, pois depende do esforço individual e não dos grupos, mas isto não necessariamente representa uma evolução socializada).
Para ultrapassar este limiar da psicologia coletiva bichada é possível que alguém tenha que mergulhar na antropologia ou estudar algum destes sociólogos que falam de abstrações como “transmissão do poder simbólico” (Pierre Bourdieu). Sugiro que vocês deem uma buscada por aí, mas principalmente discutam sobre isto, conheçam mais a si mesmos e a própria história do montanhismo que vocês estão reproduzindo, a banda podre que vocês estão reproduzindo. É bem possível que o montanhismo paranaense, em particular, comece a mostrar uma faceta desconhecida para vocês. É possível que vocês arejem o montanhismo do Paraná, ou até mesmo que o montanhismo como um todo ganhe com isto.
A forma como estou terminando este artigo está insatisfatória? Concordo. Como eu comentei anteriormente, este artigo teve por objetivo apenas provocar a reflexão e não trazer as respostas prontas, saídas do forno do lap top, pois isto seria facilitar demais as coisas e este é um papel que eu, distinguido há muito como “incomodador honorário”, “persona non grata”, ou “enfant terrible”, entre outros nomes, não me disponho mais a fazer. Incluso, se alguns de vocês leitores se sentiram pessoalmente atingidos pelas minhas observações, ótimo, é sinal que o artigo atingiu seu objetivo e de que vocês devem começar esta reflexão, isto porque entendo que é importante quebrar tabus e barreiras, mas é importante que não sejam apenas alguns poucos e isolados pioneiros a fazer sempre o serviço pesado. Todos tem a obrigação de melhorar, é da natureza humana. O pêndulo da ruindade impulsionado por vocês até vai longe, mas volta, então é preciso mudar isto.
(*)o episódio referente a este exemplo foi documentado na lista da FEPAM durante discussões sobre o papel do estado (bombeiros) no combate ao incêndio do morro Pedra Branca (P.E.Pico do Paraná), no qual uma montanhista que participou dos combates foi repreendida pela diretoria da FEPAM por enviar um email independente à ouvidoria estadual reclamando do descaso estatal no combate ao fogo.
Clap-clap-clap!!! Muito bom! Artigo, apesar de um tanto extenso) que tenta explicar a decadência do montanhismo no Paraná. Provocar a discussão, du Bois, você provoca, eu provoco, muita gente provoca. Mas o que não conseguimos até hoje foi encontrar soluções, talvez porque o problema esteja realmente dentro dessas pessoas. Enquanto isso a gente vai levando né?
Um abraço!!!
Dubois!!! Eu não acredito no que eu li!!! Para mim, (eu acho que vc começou com a provocação) a musiquinha é uma brincadeira, a mesma do tipo”pisar no saco de dormir de alguem, com a bota cheia de lama, , e ainda diz:”OPS!!”
Não leve a vida tão a serio!!! Se mantenha no seu trabalho, é o que vc faz de melhor e que é de grande valor para as montanhas!
Bj