Um tabu: afirmar que o montanhismo não é seguro
Por Edson Struminski (Du Bois)
Em recente artigo publicado neste blog (1*), eu relatei alguns acontecimentos que envolveram problemas de segurança na montanha. Este artigo provocou uma violenta reação emocional por parte de pessoas envolvidas em um pequeno acidente e em um posterior resgate bem sucedido, ainda que improvisado, realizado por estas pessoas, integrantes de um grupo de montanhismo.
À parte o tom emocional do artigo e a reação dos meus contendores, ficou evidente a existência de um terreno nebuloso no tratamento do tema segurança na montanha. Uma jovem e indignada participante do grupo me contestou violentamente e escreveu uma frase de grande valor para a presente reflexão. Ela afirmou, em relação ao acidente e aos procedimentos de resgate em que ela participou e que eu critiquei, que “tudo estava sob controle”, algo que me pareceu duvidoso.
Me ocorreu, então, que este assunto, segurança em montanha é, de fato, um grande e nebuloso tema do montanhismo e que valeria a pena explorar, ou seja, seria importante verificar o quanto “tudo está sob controle” em se tratando de segurança em montanha. Para tanto pesquisei em algumas fontes que pudessem me esclarecer sobre este assunto: um trabalho de pesquisa sociológica sobre escaladores que realizei em 1997 juntamente com um jovem amigo, a coleção da revista Headwall, que durante alguns anos recentes representou a mais diversificada e prestigiada revista de montanhismo brasileira; alguns sites, como o do Cosmo, o conhecido corpo de socorro que atua no Conjunto Marumbi, no Paraná e a respeito do qual eu já escrevi algo neste blog (2), bem como o site de segurança em montanha, mantido pela CBME, além de alguns espaços existentes na internet.
Em função da diversificação de fontes e de uma certa sistematização deste trabalho, este artigo acabou se revestindo de uma leitura científica, ainda que limitada. Os resultados, entretanto serão relatados de forma acessível a todos, mas compreensivelmente serão apenas parciais, pois o assunto é vasto.
Segurança em montanha, dados subliminares coletados em uma pesquisa científica.
Em 1997, Alexandre Lorenzetto, hoje biólogo com mestrado e eu aplicamos uma pesquisa intensiva a 150 pessoas que praticavam escaladas no morro Anhangava, no Paraná (3).
Tratam-se, é claro de dados desatualizados, mas são uma referência interessante para o assunto deste artigo. Assim, tínhamos que, em 1997, 82% aqueles escaladores tinham menos de 25 anos de idade, 70% praticavam o esporte há menos de 2 anos e 78% tinham aprendido os rudimentos de escalada com amigos ou através de outra fonte informal.
O tema segurança em montanha surgiu de forma subliminar naquela pesquisa. Apenas 23% possuíam capacete e 64% conheciam o Prussik, nó básico de autoresgate, porcentagem esta de qualquer modo superior aos apenas 23% que sabiam fazer o UIAA no mosquetão, outro nó básico de segurança dinâmica. Com isto e talvez pela precariedade desta base de conhecimento, 84% achavam que resgate e 86% consideravam que regrampeação eram serviços que deveriam ser prestados no lugar.
Esta pesquisa registrou ainda nada menos que 21 acidentes relacionados a esportes de montanha (caminhadas, escaladas e paraglider), entre os anos de 1995 e 97, sendo apontadas a inexperiência, o descuido e a imprudência como causas principais em acidentes banais como quedas mal asseguradas ou danos em descidas com cordas.
Na época o aprendizado informal somado à inexperiência refletia-se em muitos acidentes neste campo escola, apenas um dos tantos locais de escalada existentes no Brasil. Efetivamente, naquele momento, a prática do montanhismo era realmente muito pouco segura neste local, muito pouco “sob controle”, situação, em tese, um pouco melhor atualmente, pois o número de acidentes caiu (aparentemente) bastante, estando portanto “sob controle”. Mas como andava este assunto no resto do país?
Segurança em montanha nas páginas de Headwall.
Nas centenas de páginas editadas pela ótima revista Headwall, de circulação nacional e que apresentou vários locais de prática do montanhismo no Brasil e no exterior, o tema segurança em montanha foi, porém, tratado de forma dispersa, em apenas 17 páginas (como comparação, uma única matéria sobre escaladas no Rio Grande do Sul consumiu 16 páginas). Não era exatamente um assunto popular ou freqüente nesta revista. A maioria era de páginas institucionais, como a do programa Pegaleve ou esforços didáticos da própria revista. Eram recomendações, do gênero daquelas que existem no manual de equipamentos ou das advertências das carteiras de cigarros, ou seja, sugestões do tipo “revise seus nós”, ou “escale com pessoas habilitadas”, ou seja, escalar descuidadamente faz mal a saúde, informações que evidentemente garantiriam que danos pessoais, acidentes, pequenos ou grandes e resgates seriam evitados se sempre fossem seguidas.
Havia uma matéria institucional do grupo Cosmo, sem muitas novidades e um texto bem elaborado sobre responsabilidade civil do guia de montanha, que é bem escrito mas ligeiramente árido para quem não é da área jurídica. Haviam também depoimentos, sobre o uso de capacetes, com seis páginas, no qual ficava a cargo do leitor decidir sobre a validade do uso deste equipamento. Também existiam notas sobre cursos de resgate em montanha, etc. Uma pequena página falando levemente de comportamentos inseguros vistos em Itatiaia, nada que apavorasse. Assim, em um certo sentido, “tudo está sob controle” se certos procedimentos fossem seguidos pelos leitores da revista e se as pessoas tomassem as decisões certas.
Em todo o acervo de Headwall existe apenas um texto consistente que foge do normal sobre o assunto. Trata-se de um editorial (4), uma página apenas, escrita por um enfant terrible do montanhismo brasileiro, Eliseu Frechou, que no seu estilo ranzinza habitual pôs o dedo na ferida e expôs sem meias medidas uma opinião polêmica, a de que os escaladores tem, de fato, procedimentos inseguros, que podem levar a acidentes. Enfim, não liam o que a própria revista divulgava em termos de segurança. Ele afirmava que escaladores tinham problemas de foco, achando que com bom equipamento ou escalando bem estariam livres de acidentes. Com a autoridade de um escalador de nível e instrutor de montanhismo, Eliseu destoa do tom colorido e alegre das inúmeras páginas da revista que mostram lugares paradisíacos, escaladores e escaladoras jovens e atléticos, belas imagens que convidam à aventura da escalada. Para meu supremo azar, como Eliseu não se satisfaz em ser amaldiçoado sozinho, cita justamente uma frase minha (Du Bois) ao fim de seu editorial como um resumo do seu pensamento. “não existe montanha segura ou perigosa e sim escaladores seguros ou perigosos”, enfim, uma frase lamentável que destoa da “tudo está sob controle”, idéia que a jovem leitora do meu blog acalenta. Eliseu e por tabela eu mesmo, acabamos tocando em um tabu, o de que o montanhismo não vem sendo praticado de forma segura.
Para entender até que ponto um pensamento francamente minoritário como “existem montanhistas com comportamentos perigosos” tem validade frente ao predominante “tudo está sob controle”, é interessante consultar a base de dados sobre acidentes em montanha no Brasil, o que poderia desmentir a opinião francamente reacionária e conservadora de Eliseu e de Du Bois.
Segurança em montanha buscando as fontes seguras de informação
Não existem informações sobre acidentes e resgates em montanha no site do Cosmo (5), primeiro grupo de resgate formado por montanhistas no país. Se o seu interesse é a busca de dados sobre acidentes em montanha, o local mais adequado ainda é o site da CBME (6) que considero uma fonte idônea de informação, ou seja, tudo o que ali está relatado realmente aconteceu.
De acordo com Pedro Lacaz e Kiko Araujo, que organizaram inicialmente o segurança em montanha e depois o doaram à CBME, a idéia de criar relatórios de acidentes em montanha diz respeito à tentativa de alertar as pessoas para procedimentos óbvios, alguns nem tanto, que aqueles dispostos a praticar esportes na montanha, devem conhecer e respeitar, para sua própria segurança e a dos seus parceiros.
Pedro e Kiko definem um conceito útil para esta discussão sobre segurança em montanha, que é comportamento de risco como sendo qualquer comportamento, atitude ou ato que tenha um risco inerente. Se repetido com freqüência, resultará em acidente com danos pessoais ou a terceiros. As estimativas deles são de que uma lesão ocorra para cada 1.000 “comportamentos de risco” praticados. Para eles, analisando-se a Pirâmide dos Acidentes, muitas vezes chamada de Iceberg da Fatalidade, é possível ver na base os comportamentos de risco. Mas como não aparecem, não recebem a importância devida. Assim, a maioria das pessoas só se lembra da segurança quando acontece uma fatalidade.
Entretanto, infelizmente, não por culpa de ambos, uma busca no site que contém o trabalho deles revela uma base de informação limitada e já desatualizada. Existem dois Relatórios de Acidentes em Esportes em Montanha (RAEM), bastante amplos, mas datados de 2002 e 2003 (cumulativos e referentes a anos anteriores, desde 1977). No RAEM 2002 é possível encontrar dados resumidos do COSMO referentes a 2001. No entanto, as (3) mortes de excursionistas ocorridas em montanhas paranaenses em 2002 (Pico Paraná e Caminho do Itupava) e mais 4 no mesmo Itupava entre 2006 e 2008 não foram computadas, o que sugere que os dados ali existentes (191 acidentes entre 1977 e 2002, com 166 feridos e 17 mortos) já subestimavam a situação real, na época. Na verdade os autores souberam de inúmeros acidentes ocorridos nas montanhas do país, inclusive fatais, mas na sua grande maioria esses acidentes não foram relatados a eles. Também nota-se nos RAEMs que a memória coletiva parece apagada (o primeiro acidente fatal de que tive notícia aconteceu na Travessia dos Olhos, Gávea, em 1977 e não consta dos RAEMs). A maioria refere-se a acidentes dos anos mais recentes do relatório. Atribuo isto à contribuição também do COSMO à estatística nacional. Aparentemente algo não está assim tão bem, então.
Entretanto, fazendo-se uma releitura das listas das discussões das federações, surge um panorama mais vasto sobre o assunto acidentes e, por tabela, dos comportamentos inseguros em montanha.
Origens do tabu
Afinal porque informações sobre acidentes e comportamentos considerados inseguros em montanha são ainda tão difíceis de se obter? Porque parece haver um comportamento pouco claro sobre este assunto? Será apenas uma questão da nossa notória desorganização administrativa?
Como comentei, situações que afetam a segurança dos montanhistas e excursionistas em montanha circulam em qualquer lista de discussão. Mas dificilmente conseguimos perceber tudo o que acontece em termos de procedimentos perigosos, incluindo acidentes, ao longo de um ano inteiro, apenas participando destas listas de discussão, pois a função delas não é somente esta. As listas são muito dispersivas…
Também ao buscar pelo tema “segurança em montanha” nos buscadores da internet, várias páginas aparecerão. Em algumas delas é possível encontrar ações de instituições de montanha voltadas para este tema: autoresgate, currículos de cursos básicos, brigadas de voluntários em resgate. Tudo para nos tranqüilizar e reforçar o “tudo sob controle”.
Enfim, será que o turrão Eliseu e seu detestável amigo são apenas remadores contra a maré?
Os autores do “segurança em montanha” nos dão uma pista. Na verdade, ao criá-lo, a intenção foi certamente a de buscar agrupar as informações e torná-las mais acessíveis, o que representa a prestação de um serviço especializado, didático e de grande valor e interesse.
No entanto, conforme eles afirmam, espantosamente a comunidade de montanhistas pouco colaborou enviando dados. Segundo eles, muitas pessoas sentem vergonha e receio de se associar a algum acidente ou quase-acidente. Mesmo sem a necessidade de se identificar, muitos escaladores não se sentiram a vontade para relatar eventos de interesse ao relatório. Para eles, isso se deve principalmente ao fato de praticamente 100% dos acidentes terem como causa raiz algum tipo de falha humana. Inclusive, não teriam sido raros os casos de acidentes, inclusive fatais, que ocorreram por desrespeito a procedimentos simples.
Infelizmente também os RAEMs são nebulosos. Por uma falha metodológica eles não nos proporcionam dados úteis para entender se o fenômeno “acidentes em montanhas” está relacionado com o tempo de montanhismo dos escaladores, sua experiência, sua participação ou não em clubes ou associações que discutem este assunto de forma aberta. Os acidentes invariavelmente parecem se dever a causas meramente individuais, como se o montanhismo acontecesse em um vácuo social, ou como se os próprios acidentes acontecessem à parte deste contexto maior do montanhismo.
Algumas conclusões parciais sobre este assunto nebuloso
Lembro-me que há alguns anos atrás, conversava com um montanhista de ponta, uma pessoa altamente respeitada e experiente em escaladas de alta periculosidade e perguntei a ele casualmente a respeito de como ele enxergava o risco da morte nas vias que ele fazia e ele me respondeu que esse assunto (morte) era o único que ele não gostava de conversar, que ele sequer pensava nisto.
Naquele instante eu percebi que havia um tabu, ou seja, a possibilidade do esporte levar uma pessoa à morte é um tabu do montanhismo. No correr dos anos percebi que a própria contestação da segurança na prática do esporte também é, em certa medida, um tabu para muitas pessoas.
A conclusão até certo ponto perturbadora a que cheguei é que “tudo está sob controle” é a forma de tentar exorcizar o tabu de que o montanhismo não é assim tão seguro. Que ele vem se transformando, sob nossos olhos complacentes, ao longo dos anos. Que com a disseminação do esporte em cantos mais remotos, ou em grupos longe do olhar dos clubes ou de veteranos mais qualificados, nas academias e muros de escalada mais ou menos improvisadas, nos rapelistas também improvisados de viadutos e de cânions e por meio de empresas de ecoturismo, que são verdadeiras traficantes de adrenalina, parece ter surgido e vem ampliando-se rapidamente uma espécie de roleta russa onde procedimentos inseguros resultarão invariavelmente em algum acidente, mais cedo ou mais tarde, algo que tende a crescer na medida em que aumenta o número de praticantes do montanhismo e de seus filhotes.
Seria a forma que aquela jovem praticante de montanhismo que citei e que na verdade, todos nós montanhistas usamos para convencer a nós mesmos que toda a precariedade relacionada à segurança na montanha, que alguns podem facilmente constatar e que a maioria ignora por força da falta de conhecimento, não nos afeta, uma vez que “acidentes só acontecem com os outros”. Uma reação que me parece ser semelhante a dos motoristas imprudentes no trânsito.
O tabu existe? Em que medida você leitor, estaria disposto a relatar sua participação em um acidente, principalmente se você for o causador de um no qual seu companheiro sofreu as conseqüências? Me parece que esta nossa inibição natural de se expor e mostrar nossas deficiências, ou o medo de sofrer conseqüências de nossos atos inadequados alimentam o tabu que impedem que vejamos que o montanhismo pode não ser assim tão seguro.
Além do desconfortável pensamento de que a escalada ou mesmo um alegre e descontraído passeio na montanha podem causar sérios danos a uma pessoa, ousaria afirmar ainda que “tudo está sob controle” representa também uma tentativa de afastar de nosso mundo montanhístico a desagradável, ainda que inevitável (para o ser humano) evidência da morte, uma palavra, aliás, que invoca outros tipos de tabus que nós como seres humanos temos, como o medo do fim, do desconhecido, entre outros.
A meu ver, esta precariedade é ainda diretamente proporcional à constrangedora ausência de dados completos e atualizados sobre comportamentos inseguros em montanha ou sobre acidentes e resgates no Brasil, dados estes que dependem ainda basicamente do interesse individual de cada montanhista em relatar fatos desta natureza e também da informação limitada e já desatualizada sobre este assunto no site da CBME, que compreensivelmente depende de trabalho voluntário para funcionar.
Em um plano mais geral, existe uma ausência ainda maior, que é aquela representada pelo tamanho real do universo do montanhismo no Brasil. Por não saber nosso tamanho real, somos tentados a achar que as pessoas que ingressam hoje no montanhismo tem uma formação básica que garante que elas praticarão este esporte de forma segura, pois parece inconcebível imaginar que alguém comece a praticar um esporte tão arriscado sem todas as condições ideais de segurança (sem conhecer, digamos os 30 nós que eu aprendi) algo, entretanto, que a pesquisa pioneira produzida em 1997 já indicava. Assim, eventuais observações de erros praticados por montanhistas em ambientes de risco seriam a exceção e não a regra. Mesmo nossos eventuais erros seriam exceções por não gerarem acidentes.
A ausência da coleta de dados sobre o tamanho real do universo do montanhismo poderia ser justificada pois representa um ônus a mais para as estruturas amadoras do esporte, ainda que, contraditoriamente estes dados apenas fortaleceriam o esporte. Porém, o mesmo não pode ser dito dos dados referentes a acidentes, pois dependem de relatos individuais.
Também é preciso ressaltar que mesmo sendo listas de discussão públicas, as listas de federações continuam sendo espaços restritos de coleta de informação. O interessado terá de garimpar informações, partindo do pressuposto que ele não seja um leigo no assunto. Mesmo o acidente que relatei no meu artigo anterior (1) não apareceu na lista da FEPAM. Se eu não tivesse relatado no blog ele não teria “existido”.
Eu lembro que pessoalmente já enviei há alguns anos atrás os dados coletados em 97 para o site Segurança em Montanha, mas estes dados de acidentes também não constam dos dois relatórios de acidentes que li. Assim a própria CBME não está conseguindo manter uma pessoa para administrar este departamento do esporte, uma falha que é, enfim, de todos nós.
Uma alternativa seria, então, criar-se uma lista especial “segurança em montanha”, exclusiva para este assunto e que facilitaria a discussão sobre isto e, a qualquer pessoa interessada, a coleta de informações e produção de resumos e relatórios anuais. Nestes relatórios seria interessante discriminar Estado, local de escalada, tempo de experiência do escalador. Isto desoneraria a CBME deste encargo.
Porém, uma outra solução seria que pessoas ligadas aos grupos de resgate em montanha já existentes no Brasil, que já adquiriram capacitação para entender o universo dos acidentes, assumissem a tarefa de manter os Relatórios de Acidentes em Montanha atualizados, inclusive metodologicamente, no site da CBME, coletando dados, por exemplo nas listas de discussão (que são públicas), de forma até mesmo independente das pessoas envolvidas nos acidentes (respeitando o anonimato, claro).
Enquanto estas ações não acontecerem e, para desconforto de minha jovem colega de montanha, provavelmente teremos que conviver com esta (falsa) idéia de que “tudo está sob controle” em se tratando de segurança em montanha no Brasil.
Eu gostaria de finalizar dizendo que fiz aqui um esforço para entender este assunto, mas confesso que este terreno ainda é nebuloso para mim, porque são nebulosos os dados a este respeito e também meus conhecimentos sobre psicologia, sociologia ou antropologia são parcos, insuficientes para entender toda a amplitude deste tema, tudo o que está por trás dos relatos dos escaladores. Assim, para todos os efeitos, este artigo não chega a ser conclusivo. Para o nosso próprio bem, eu peço a colaboração de vocês leitores para ampliarmos a discussão sobre este assunto.
Adendo: sobre os tabus
Conforme comenta Maria Luiza Tucci Carneiro, no prefácio do instigante livro “Os tabus da história”, de Marc Ferro (7), tabu tem a ver com algo perigoso de ser dito, a algo que estorva, vedando o acesso a certos bens, espaços e informações. Para conseguir esclarecer certos fatos, o pesquisador que investiga tabus tem que se transformar em um militante das liberdades de informação e de expressão, indícios de sentimento ou de caráter. Ele é convidado à reflexão, à rebeldia.
“Quebrar tabus” exige ousadia para dizer o não dito, da mesma forma como requer prudência e coragem para mostrar a verdade a olho desarmado. E tudo o que é ousado, por si só, está fora do lugar, pois implica desacato e atrevimento. Atrevimento para expor aquilo que por, uma questão moral, jurídica ou política não deveria ser dito. Está em questão questionar os conformismos inerentes a todas as sociedades e grupos sociais.
Os tabus nascem sustentados por um pensamento organizado, racionalmente construído e logicamente conduzido. E o tempo de vida destas crenças depende, na maioria dos casos, da omissão dos fatos, dos silêncios da história…
Fontes de pesquisa e informação:
(1) http://blogdodubois.wordpress.com/2008/11/11/acidentes-quase-acidentes-videocassetadas
(2) http://blogdodubois.wordpress.com/2007/11/20/resgates-em-montanha/
(3) STRUMINSKI, E. & LORENZETTO, A. Perfil sociológico do escalador paranaense. Curitiba: Instituto Gaia do Brasil. Revista Temas de Gaia, Vol. 1, n 1. 35 p. 1997.
(4) FRECHOU, E. Segurança, algumas considerações sobre o que não está escrito nos manuais de equipamentos e que devemos estar atentos. Revista Headwall. São Paulo, jan/fev 2003. P.6.
(5) http://www.cosmo.org.br/
(6) http://cbme. org.br/index. cfm?fuseaction= conteudo& secao=5,
(7) FERRO, Marc. Os tabus da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
(*) Esta breve pesquisa se originou de um feroz debate produzido por meu artigo “Acidentes, quase acidentes e videocassetadas”. Agradeço às pessoas que participaram do debate e que de um modo ou de outro me inspiraram a pesquisar com mais afinco o tema “segurança em montanha”. Espera-se com a publicação do presente artigo renovar o alerta sobre a existência de pensamentos coniventes com procedimentos perigosos na montanha e, com isto, reduzir o número de acidentes nestes ambientes.