Duas vias espetaculares na Serra do Mar seguem sem repetição
Por Edson Struminski (Du Bois)
Mais de uma década e meia se passou e duas vias singulares, das quais participei da abertura seguem sem repetição. Duas vias em duas faces norte de duas montanhas da Serra do Mar que são hoje, muito mais acessíveis do que nos anos 1990, quando passamos por lá: Agudo do Cotia e Siririca.
Lembro-me que quando fizemos estas vias, eu e mais dois companheiros (Tiaraju Fialho e Julio Cesar Nogueira da Luz), tínhamos algumas experiências variadas em paredes de certa dificuldade em montanhas como o Marumbi, ou Pico Paraná. Cada um de nós já tinha freqüentado montanhas no Rio de Janeiro ou feito viagens para locais de escalada na Argentina, onde basicamente se escalava em móvel, na época. Tínhamos alguns bons equipamentos e estrutura adaptada para o bivaque leve em locais remotos. Assim, este cardápio básico e limitado, mas feito de vias interessantes e equipo certo foi o que nos credenciou a sonhar com ousadias maiores.
Os cumes do Cotia e do Siririca, situados no mesmo grupo montanhoso, não eram acessíveis com facilidade no início da década passada. A trilha para o Siririca, freqüentada talvez uma vez por ano, era praticamente uma navegação onde o farejamento contava mais que eventuais sinais de passagem de pessoas. Do Siririca ao Cotia não havia nada. Naquela época pré-internet e pré GPS, qualquer dica que pudesse ser obtida sobre o acesso a estas montanhas era de uma preciosidade que os mais novos hoje não tem como avaliar. Na trilha, o instinto, a agudez visual e mesmo o tato valiam mais que qualquer instrumento de navegação que eventualmente alguém se dispusesse a levar e, na verdade, eles se mostravam muitas vezes inúteis na densidade da Floresta Atlântica e em um terreno de sobe-desce onde qualquer erro de percurso significava horas de caminhada desgastante a mais.
Mas estas eram as condições postas no local e devo dizer, aceitávamos de bom grado porque havíamos entendido que, se por uma combinação de audácia, esforço, estratégia correta e também um pouquinho de sorte, a gente conseguisse subir uma daquelas paredes enormes que pareciam tão distantes e “futuristas”, para usar um termo que eu empreguei na época, então estaríamos fazendo algo digno da história do montanhismo do Paraná. Tirando o montanhismo de nível exclusivamente do Marumbi, mesmo porque eram paredes muito maiores que as que escalávamos no Marumbi. Se conseguíssemos fazer sem uso de grampos fixos, estaríamos fazendo algo relevante para o montanhismo brasileiro. E, finalmente, se conseguíssemos fazer tudo isto em estilo alpino (sem uso de cordas fixas) e em estilo cápsula (bivaque na parede), então teríamos uma via compatível com qualquer outra escalada que acontecia naquele momento no cenário mundial. Olhávamos para estas montanhas como os “nossos 8.000”, impregnados que estávamos pela leitura dos livros de Messner e sua ética apurada.
Eram estas as nossas pretensões, altas pretensões às quais ainda somávamos uma “cor local”, ou seja, iríamos acessar estas paredes e sair delas sem abrir trilhas, apenas “passando”, pela floresta, ou seja, nossa experiência prática já tinha demonstrado que o custo de energia em abrir uma trilha, o desgaste físico em fazer isto com uma mochila grande, mais o tempo gasto com esta atividade não compensavam o esforço, além do que traziam um impacto exagerado para o ambiente frágil daquelas montanhas.
Agudo do Cotia foi a primeira investida. Começamos com um golpe de sorte. Zig Koch um famoso fotógrafo naturalista tinha feito um vôo em frente da Serra e produziu uma sequência de imagens que nos mostrava um fenda ou um grande diedro que iria se tornar nosso objetivo. Então já sabíamos o que buscar. Calculamos 5 dias de investida, entre andar até a base, subir a parede, atravessar a sequência de montanhas e ir até a BR 116. E assim foi, um dia e tanto para acessar o fim do cânion onde começava a parede do Cotia, passando por paredes e rios encachoeirados. Dois dias na parede, mais dois até a civilização. No Siririca, um ano depois e mais confiantes, a situação se repetiu, embora com menos informação sobre a parede. Dois dias e meio de rio, dois de parede e um de caminhada até o fim da aventura.
Estas escaladas já foram contadas em números da época do Mountain Voices, assim não vejo necessidade de repetir os detalhes, mas o fato é que atingimos nossos objetivos, duas vias limpas, livres, sem abertura de trilhas. Tive a grata oportunidade de guiar boa parte das duas vias, o que não significou nenhum desmerecimento para meus parceiros, pela boa razão de que neste tipo de parede na Serra do Mar existem grandes trechos de “escalada mista”, onde uma vegetação frágil se apóia na parede e é nela que você se apóia para subir. A rocha fica coberta, é muito intemperizada pela vegetação e é praticamente impossível por um grampo seguro. Usar corda nestes trechos passa a ser temerário, pois a queda de um arrasta os demais. Então tudo isto, assumir este grande risco individual, ainda que o perigo de uma queda não fosse muito grande, faz parte do jogo de subir estas paredes, assim como um elaborado e seguro trabalho de escalada em móvel, paradas em móvel e tudo o mais, nos lugares onde isto cabe, onde só encontrávamos rocha. Na verdade eu não tinha dúvidas da qualidade dos meus parceiros, naquele momento, em relação à nossa segurança em andar em um terreno tão crítico e isto é um trunfo valioso quando se escala em locais perigosos.
Além de pré-internet, como comentei, era um período pré-celular. Então tínhamos grande autonomia e plena consciência de que um resgate dependeria de um dos membros do grupo sair da montanha sozinho e ir buscar ajuda, algo que levaria dias para acontecer. Então, estar em três, tomar decisões difíceis em três é sempre melhor do que só em dois, sempre há uma ponderação maior, uma segurança maior. Como se vê, então, apesar de uma dose grande de coragem éramos muito cuidadosos, não estávamos metidos em nenhuma empreitada suicida.
Em um dos artigos que escrevi recentemente neste blog eu debati sobre a decadência do montanhismo, aquilo por que se entende como decadência (1), um artigo derivado de uma discussão que rolou na lista da FEMERJ. Uma das hipóteses que as pessoas daquela lista levantaram é que não haveriam mais novos montanhistas interessados em grandes paredes, eventualmente no tipo de parede como estas que estou falando agora. A atração da escalada esportiva seria muito grande e a compensação maior do que a encontrada nas grandes paredes.
Não me parece que seja exatamente este o caso ou que necessariamente o montanhismo do Paraná esteja decadente porque estas vias não foram repetidas. Elas estão muito agregadas aquele nosso pequeno grupo, que naquele instante compartilhava da idéia de criar uma identidade própria para nós dentro do universo de grandes paredes no Brasil, uma identificação com a idéia de “montanhismo de aventura” que era mais do que só subir uma grande parede e para nós, naquele momento seria muito mais fácil de acontecer nestas remotas paredes da Serra do Mar paranaense do que em outros lugares do Brasil. Então, o que de fato gostaria que ficasse de relevante deste artigo e também destas histórias é exatamente a lembrança deste conceito, o de aventura em grau elevado nas nossas montanhas paranaenses e o quanto este tipo de escalada de aventura pode ser significativo para quem já atingiu um certo grau de maturidade no montanhismo, caso certamente de muitos de vocês leitores e que por isto ainda buscam fazer coisas significativas nas montanhas.
Claro, hoje existem certamente muitas “escaladas de aventura” Brasil afora, então vejo estas duas vias como duas garrafas de vinho que estão lá amadurecendo, esperando um novo grupinho ir lá sorver o gole da aventura representada pela ascensão destas magníficas paredes. Não existem grampos apodrecendo na rocha para marcar nossa passagem, não existe trilha marcada, só o desafio de ir lá e fazer. Isto irá acontecer algum dia, alguém será tocado e privilegiado novamente pelo gosto desta aventura. A aventura na montanha e, temos que reconhecer que este tipo de grande aventura sempre foi para poucos mesmo, ontem e hoje, então não há porque imaginar uma decadência neste terreno.
Apenas recentemente pude realizar, com outros companheiros, mais jovens, outra via no mesmo nível no Pico Paraná e que contei aqui no blog (2). De algum modo esta associação entre montanhismo e aventura ainda continua, como os bons vinhos que envelhecem e melhoram o sabor.
(1) http://blogdodubois.wordpress.com/2008/11/07/decadance-avec-elegance/
(2) http://blogdodubois.wordpress.com/2007/11/08/nova-via-em-estilo-alpino-no-pico-parana/