O montanhismo está decadente?
Por Edson Struminski (Du Bois)
Esta discussão que surgiu recentemente na lista da FEMERJ é recorrente, ou seja, de tempos em tempos alguém, em algum lugar e de alguma forma comenta inconformado que o movimento inicial inovador que impulsionava alguma tendência vanguardista perde o ritmo, a freqüência, a cadência, entra, enfim, em decadência.
Na verdade, isto me parece que vale para qualquer manifestação cultural, ou seja, a música perde as pessoas que faziam coisas bonitas, a literatura já não vê poetas românticos, a pintura perde a elegância impressionista ou expressionista e por aí vai. Na política o socialismo passou a ser uma idéia envelhecida, na arquitetura o modernismo passou a ser uma mesmice, a própria história, vejam só, deixaria de acontecer porque tudo o que era importante já teria acontecido, o resto seriam repetições. E quanto ao montanhismo? Ele estaria decadente porque teríamos menos gente escalando, abrindo vias, poucos apoios institucionais, empresariais, clubes estagnados, menos publicações de montanhismo, etc.
Mas será que isto é assim mesmo ou é porque achamos que assim é? Curiosamente, alguns anos atrás, na primeira página do primeiro número do boletim, Mountain Voices, que aliás continua por aí, o Eliseu Frechou encaixou esta mesma pergunta mas com outras palavras. Lembro-me bem do título que era “o montanhismo já atingiu o seu cume?”.
Aliás, quando iniciei no montanhismo há trinta anos também era exatamente esta a questão, se comentava que a estagnação e a decadência eram o cenário com que íamos nos defrontar nas montanhas, sendo a nossa, digamos, “missão”, renovar o esporte, produzir escaladas novas, etc.
E, de fato, foi o que acabamos fazendo, não só escaladas novas, mas novos jeitos de fazer velhas escaladas (artificiais em livre), novas maneiras de fazer novas escaladas (totalmente com material móvel, ou em solo), ou mesmo novas maneiras de se relacionar com as rochas (boulder).
Mas depois de viajar um tanto e de repetir algumas tantas vias, mesmo alguns daqueles decadentes e bregas artificiais em paliteiros, tão comuns em tempos passados, eu acabei abrandando um pouco o julgamento em relação aos “velhos decadentes” que me precederam. Isto aconteceu particularmente depois de fazer uma destas vias “das antigas” do Marumbi, aqui no Paraná (a Fenda 2). Fiz esta escalada em solitário (um novo jeito de fazer uma velha escalada), o que envolveu irritantes trepa-matos, paliteiros sem graça, lances de chaminé sem muita importância e uma estranha, extraordinária e assustadora passagem de 20 metros de off widgth sem chance de proteção, fosse com uma cunha dos anos 50 ou com um friend dos anos 90 e, mesmo assim, com grau respeitável de dificuldade. Algo de me deixar de queixo caído, além de ser, é claro, ruim de cair.
Depois disto estes escaladores antigos já não me pareciam mais decadentes e sim apenas montanhistas que em seu momento produziram escaladas que eram interessantes para eles e que para nós já não eram tanto, mas eles não eram fracos, eles tinham vislumbrado a escalada livre deles e tinham feito bem o que tinham de fazer. Assim, simplesmente parou de fazer sentido falar em decadência do esporte antes de mim.
A partir daí, parte da leitura que eu comecei a fazer do montanhismo passou a representar apenas conflito de gerações. De certa forma o que tinhamos feito até então era contestar os “velhos” com nossas escaladas mais arrojadas, com nosso treinamento, com nossos calçados novos e equipamentos móveis reluzentes que desdenhavam os toscos grampos de ferro deles, as cordas de sisal, as botas cardadas e outros artigos de museu. Mais, queríamos “salvar o esporte, enquanto esporte, de uma estagnação total”, como se lê no belo e apaixonado manifesto publicado no Rio pelo André Ilha (1), que misturava um pouco de auto suficiência e arrogância da juventude com uma missão naturalista bonita, heróica, mais pretensiosa, pois queríamos limpar as paredes do Rio de Janeiro e seus arredores, algo que se aplicava evidentemente também a outros estados “que haviam sido severamente castigados com milhares de grampos absolutamente desnecessários”. O mundo da escalada era poluído por dinossáuricos e pouco estéticos paliteiros, grampos em fendas, etc. Ilha comentava ainda que isto representava “o nivelamento por baixo do esporte”, contra o “purismo” da escalada livre que então re surgia.
Claro que o Rio sempre representou, para mim, o local ideal para se evoluir na escalada livre, a Meca das paredes, grandes e pequenas, pelo privilégio de serem limpas de vegetação e acessíveis, o que se nota no próprio manifesto do André, onde ele comentava da abertura em “estilo impecável” de duas vias em 2o grau, ou seja “em livre e com grampos em número suficiente para torná-las seguras, e nada mais”.
Por outro lado, aqui no Paraná, nós tivemos um filtro natural de acesso às montanhas que é a distância até elas e a extenuante caminhada até a base das paredes, além de uma peculiaridade geomorfológica que fez com que o formato “meia-laranja”, comum no Rio de Janeiro, seja menos comum aqui, onde as paredes são mais escarpadas e com dificuldades altas, além de serem muitas vezes colonizadas pela vegetação da Floresta Atlântica que não foi destruída na Serra paranaense.
Então havia um filtro da natureza entre quem era realmente montanhista e quem apenas ficava em uma conversa, digamos, decadente. Em função deste filtro adaptamos esta doutrina naturalista vinda do exterior através do André de modo que executamos o esporte de forma talvez até mais purista que no Rio de Janeiro, ou seja, foram poucos os escaladores que realmente se dispuseram a “seguir o caminho muito mais árduo e exigente da escalada natural, onde dedicação, por vezes obstinação e firmeza de propósitos são requisitos indispensáveis”, como se lê nas elegantes palavras deste manifesto de 1983.
Isto não nos tornou melhores montanhistas que os cariocas, apenas mais pragmáticos, pois algumas vezes pequenas paredes de 3o ou 4o graus, que no Rio seriam grampeadas, ou grandes trechos com vegetação vertical que no Rio nem existiriam mais, foram subidos aqui sem corda e com mochilas, até com risco de vida em caso de queda, apenas porque faziam parte de um acesso longo e demorado até uma parede maior e um pouco mais limpa, ou então eram a própria via. Não contávamos que estas vias viessem a ser muito repetidas, como seria de se esperar no Rio de Janeiro, então não valia a pena grampeá-las.
Isto era então parte da nossa doutrina, mas era fundamentalmente a mesma coisa, a escalada livre em grandes paredes. Michel Foucault (2) comenta que uma doutrina tende a difundir-se e é pela partilha de um só e mesmo conjunto de discursos que indivíduos definem sua pertença recíproca. É o que fizemos e o que temos feito neste tempo todo, compartilhando o ideal da escalada livre, ainda que apenas nos últimos anos algumas pessoas estejam se preocupado, com mais afinco, com uma parte geralmente escanteada desta doutrina, que é o efeito destas escaladas nas montanhas.
Isto porque, no fim das contas, é bem possível que milhares de grampos, desta vez com o estilo impecável da escalada livre, também tenham sido, colocados no Rio de Janeiro (e certamente uma cota menor nos outros estados), nestes 25 anos que separam a publicação do manifesto do André de hoje e, seguramente a biodiversidade das paredes de rocha foi grandemente afetada pelas milhares de pessoas que subiram estas vias, retirando a vegetação ou perturbando os animais em suas moradias. Em um certo sentido isto contradiz o dogma da conservação e integração com a natureza da montanha acalentado por esta doutrina naturalista de escalada e que foi tão minuciosamente elaborada e é ardentemente defendida, até hoje.
Mas como Foucault prossegue, a doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciados e lhes proíbe, consequentemente outros, assim, a “heresia” e a “ortodoxia”, ou como acrescentaria eu, o germe da decadência, não derivam de um exagero fanático dos mecanismos doutrinários, elas lhes pertencem fundamentalmente, principalmente quando os discursos originais perdem o vigor ou entram em contradição, como esta que eu mostrei ou como o que podemos perceber em relação aos aspectos meramente esportivos dos debates sobre a decadência no esporte na lista da FEMERJ.
Assim, notem, em um certo sentido, as palavras de Foucault explicam o surgimento da escalada desportiva dentro do mundo da escalada livre. São escaladas utra atléticas em estilo livre nas quais muitas centenas e milhares de grampos foram e certamente serão colocados ainda em paredes menores onde o uso e o impacto deste uso, é mais intensivo, o que deixa aqueles defensores da escalada em grandes paredes em uma sinuca de bico, pois é um estilo que usa o “melhor” das gerações anteriores: alto nível em escalada livre e alto grau de proteção fixa. Então onde está a decadência, nos “novos” esportivos ou nos “velhos” das grandes paredes?
Talvez em nenhum dos dois. O manifesto naturalista carioca, mesmo com os excessos típicos da época e com as contradições que surgiram dele, segue sendo um documento válido em termos de discurso, ou seja, dificilmente o valor da escalada livre em grandes paredes vai desaparecer porque é uma atividade muito atraente, desafiadora e apaixonante e se feita com bastante cuidado, conserva a natureza da montanha. É provável que sempre tenha alguém interessado nisto, pois é simplesmente o caminho natural para se subir uma montanha.
É bem possível que tudo isto apenas seja um novo “cume” do montanhismo, esporte que se renova na discussão, como esta mesma da FERMERJ, na permanência de pessoas ou grupos envolvidos na escalada livre em grandes paredes, ainda que em menor quantidade (menor quantidade não significa reduzir a qualidade) ou em caminhos que parecem hoje os mais diversos, inclusive o da academia de escalada. Muitas vezes o discurso da decadência, que pode andar tanto na boca de jovens como na dos menos jovens, apenas pode representar a difusão de um dogma, uma meia verdade conveniente, o próprio germe da decadência incubado em cabeças mais preconceituosas, pois ele tem, dentro de si o sintoma da estagnação, da falta de diálogo, da falta de disposição para o diálogo e da incompreensão em relação às diferenças.
Dias atrás na lista da FEPAM foi feito um elogia às atletas que, em uma etapa do Campeonato Brasileiro de Escalada Esportiva conquistaram boas colocações. Camila Santos de Armas, a garota que venceu na categoria iniciantes respondeu que escalar, para ela, era muito mais que dedicar-se a ganhar campeonatos, pois ela não era atleta de escalada e sim montanhista e que o resultado da participação repentina dela neste campeonato era apenas consequencia da paíxão crescente que ela tem pelo montanhismo.
No sentido dramático, rasgado e até passional que costumam caminhar estas discussões sobre a decadência do montanhismo pode-se dizer que esta breve declaração é surpreendente e confunde os menos avisados. É bem possível que na declaração modesta e despretensiosa de amor pela montanha desta garota esteja amadurecendo algo novo, que não estamos vendo corretamente em pessoas desta geração, uma espécie de melhor dos dois mundos. E é sempre bom ser surpreendido por uma declaração deste tipo por parte de alguém tão jovem.
É pagar para ver. E se mesmo assim for para decairmos, que seja então décadance avec élegance, como naquela via em Salinas.
(1) André Ilha. Manifesto da Escalada Natural. Disponível em http://leonobre.multiply.com/reviews/item/10
(2) FOUCAULT, M. Resumo dos Cursos do Collège de France (1970 – 1982). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1997.
Talvez o que esteja acontecendo é a saturação dos locais de escalada ja consagrados. Não ha como abrir mais vias sem uma severa observação da comunidade, o que implica em projetos impecáveis ao senso comum (que muita vezes se trata apenas do pensamento de um pequeno grupo que tem forte influência na formação da opinião dos demais) ou capacidade de ser criticado em publico sem se aborrecer.
A saída estaria no desenvolvimento de novos locais de escalada? No estabelecimento de uma nova cultura numa nova geração? Não sei.
O que nao vejo é esta decadencia, pois em diversos locais, onde as pessoas nao se importam com divulgação, tem desenvolvido vias em todos os estilos. Um exemplo disso é a Pedra de Santa Rita e do Hermitage, ambas em Teresóplois-RJ. Diferentes gerações de escaladores tem conseguido desenvolver características próprias em suas vias, o que seria, para mim, uma evolução, um crescimento do esporte, e nao a sua decadencia.
Talvez as pessoas devessem conhecer outras áreas de escalda. Dessa forma, conheceriam outros estilos, de escolas diferentes das que ja conheceram nos grandes centros de ecaladas ja existentes. A quantidade de abertura de vias nao tem diminuído, na minha opinião. O que tem acontecido, ao meu ver, é que novas escolas estão se formando à revelia de formadores de opinião ja consagrados, e a falta dessas informações tem dado esta impressão, principalmente aos que tem seu universo calcado em areas com muitas vias, de acesso fácil e/ou sem riscos.