Edson Struminski (Du Bois)
Este é um tema bastante amplo e certamente sou suspeito para falar dele, simplesmente por ser homem. Mas esta conversa surgiu entre um grupo de homens e depois eu estendi as conclusões da conversa para amigas que freqüentam montanhas e, bem, é um assunto simplesmente inesgotável e eu imagino que, com sensibilidade, mais pessoas podem contribuir com ele. Assim sendo, vamos lá.
Há anos atrás, em 1997, eu e um colega produzimos um inédito perfil sócio-econômico do escalador paranaense (1). Na época, entrevistamos 150 pessoas e o universo feminino deveria ser algo em torno de 15% deste total, umas vinte e tantas garotas, que simplesmente ficaram mascaradas como uma minoria estatística. Como a pesquisa era então genérica e não por gênero (masculino ou feminino), nós tolamente não coletamos qualquer tipo de dado que permitisse, a nós, entender este universo. Na verdade, devo dizer, a contribuição feminina ao montanhismo (em um período pré-Roberta Nunes, pré-academias e pré-campeonatos) nos parecia irrelevante, as garotas apareciam como meras acompanhantes de seus parceiros masculinos e o esporte tinha perfil eminentemente masculino.
Será que de alguma forma este universo é mais claro, mais amplo ou mais diversificado hoje em dia?
De imediato não poderia responder a esta pergunta. É possível que em outros estados já existam dados sobre as garotas, seus interesses, suas demandas. Na verdade, passados dez anos seria extremamente útil ter novamente um novo “perfil do escalador e da escaladora paranaense”, ou do montanhismo paranaense (e certamente dos demais estados), enfim, alguém se habilita a isto?
Assim este ensaio se limita às percepções de algumas pessoas sobre o assunto. É destas percepções que vou falar aqui, mesmo correndo o risco de desapontar quem queira algo mais consistente.
A primeira percepção diz respeito ao nível técnico das garotas, algo que segundo as conversas, tem sido grandemente estimulado pelo ambiente de academia. As garotas escalam mais forte e com técnica melhor. Na verdade o ambiente de competição e não só o treino, tem levado às escaladoras a procurarem ultrapassar desafios. “Enquanto não havia competição”, os rapazes comentaram, “não havia muito estímulo e o resultado das disputas eram mais ou menos previsíveis, com mais garotas competindo, as que estavam no topo se sentiram ameaçadas e começaram a treinar mais”. Enfim, trata-se do universo competitivo, algo que algumas pessoas (homens e mulheres), procuram usar, em nossa sociedade, para se destacar.
Na outra ponta está a escalada de grandes paredes. Excetuando o “fenômeno atípico” Roberta Nunes, aqui no Paraná ainda parecem ser poucas as garotas que se jogam em vias que exijam um comprometimento maior em termos de aventura, até porque a escalada em grandes paredes neste Estado necessariamente é uma aventura, por se desenvolver em locais onde as exigências física e mental são grandes. Mas será que estas exigências são assim tão restritivas às mulheres? Uma das garotas com quem conversei me disse que sim. Ela comentou que nestes casos o parceiro masculino se torna praticamente obrigatório. Falou-se até em um “machismo feminino”, adotado por segurança por algumas garotas em detrimento da própria autonomia. Por outro lado os rapazes citaram casos de garotas que já estariam começando a se aventurar em duplas femininas, apostando nos benefícios da aventura.
Uma outra percepção (além de minhas observações pessoais) diz respeito diretamente ao relacionamento destas garotas com seus parceiros de cordada. Hoje parecem coexistir as clássicas “cordadas de namorados”, em que a ascendência do homem (guiando) ainda é evidente, junto com outras formas de parceria na montanha, como casais de amigos e de amigas, ou cordadas femininas, onde a cabeça da cordada é dividida igualmente, ou mesmo, onde a garota é estimulada a guiar.
Finalmente, de todas as formas de benefício que a presença feminina pode trazer para o montanhismo, aquela que me pareceu mais evidente, nos depoimentos, é o da segurança. Por uma questão de paternalismo os rapazes declararam adotar mais procedimentos de segurança e serem mais cuidadosos quando estão com garotas. Isto inclui nós bem feitos e cadeirinhas revisadas, capacetes, crash pad em boulders, etc. Por outro lado, por inibição, as garotas parecem simplesmente se omitir se os rapazes adotam algum procedimento pouco seguro (“eles sabem mais que nós”, me disse uma delas). Mas eu poderia dizer que enxergo uma tendência (tudo bem, tendência não é destino) de que à medida que as garotas forem “doutrinadas” em segurança em montanha, elas passem simplesmente a adotar posições ativas a este respeito, exigindo capacetes, nós bem feitos, crashs, etc.
Como vocês podem concluir, apesar de não ser nenhuma pesquisa científica, eu não resisti e acabei dando um tratamento de quase pesquisa a este assunto. Mas admito que é uma forma cheia de falhas, assim eu torço para que este assunto se torne interessante a ponto de gerar uma pesquisa de verdade. Enquanto isto não acontece, eu convido vocês, em particular as meninas, a opinarem sobre o que sentem e sabem a respeito deste universo feminino na montanha, neste blog.
STRUMINSKI. E, LORENZETTO, A. Perfil sociológico do escalador paranaense.Curitiba: Instituto Gaia do Brasil. Revista Temas de Gaia. v. 1, 1997
Fala Du Bois.
Então, o Antonio Paulo do Rio escreveu uns anos atrás um interessante artigo sobre este tema utilizando os dados de um censo de escalada que houve em 2005.
O censo em si era falho, pois o entrevistado é que tinha que ir atrás do entrevistador, mas no final ele nos deu um perfil que todos já sabiam e que bateu com o seu.
Enfim, infelizmente para os escaladores solteiros, conseguir uma parceira pode ser mais dificil que escalar a via, hehe…
É verdade, de imediato a gente não pode afirmar muita coisa e uma pesquisa do perfil dos escaladores e escaladoras do estado iria nos trazer dados muito interessantes. E além de conhecer os perfis e peculiaridades de gêneros, também seria muito interessante saber as diferentes concepções sobre o montanhismo existentes dentro dos mesmos ambientes, sim?
A minha percepção (que pode ser bem restrita e questionável) sobre o universo feminino na montanha é a de que, sim, estamos cada vez mais presentes neste ambiente, seja ela dependente da presença do namorado ou de amigo, ou ainda, em atitude mais autônoma, na parceria de amigas. Porém (opinião de quem tem um olhar para outros âmbitos), talvez isso não venha acontecendo somente no montanhismo. Há um número cada vez maior de mulheres ocupando ou dividindo espaços (sejam esportivos ou de trabalho) que há uns anos atrás, a presença masculina era predominante. Mas a conversa vai longe…
Olá Dubois
Primeiramente, adorei seu blog, adorei o “quase final de semana” (interrompido pela chuva), como adorei também o novo setor em Alfredo Vagner em que estivestes presente. É assim feliz que comento sua interessante pesquisa observacional sobre o tão complicado universo feminino. A escalada é um esporte extremo. Exige mental e fisicamente, seja na esportiva, ou outra modalidade. É claro que para nós mulheres é um esforço maior sempre, o contato com a pedra, mato, gelo, mãos, braços e pernas arranhadas, dias de caminhada, banheiro, e outras inúmeras diferenças na hora de lidar com tudo isso. Mas eu diria que não há um perfil, ou que pelo menos eu não consigo traçar somente um. Já conheci escaladoras fantásticas, lindas, fortes, corajosas, cabelos compridos, com dreads ou não, unhas roxas ou curtas, encarando condições muito extremas sem perder o charme, com as características comuns em todas: desapego, independência e determinação. E já conheci outras somente boas namoradas e companheiras, compartindo com seu parceiro a felicidade de escalar. Mas sem muitas pretensões, frios na barriga ou encantamentos. Algum deslumbre sim, pelo life style da escalada, ou pelo prazer de competir (nós mulheres, tão competitivas!), mas não mais que isso. Ufa! Desculpe por tão longo texto. Espero que a discussão continue sempre, and keep on climbing! Beijos (ah, e dÊ uma olhada no meu blog http://www.minhascertezasincertas.blogspot.com