Edson Struminski (Du Bois)
Isto não é de hoje. As pessoas, muitas pessoas, sejam leigos, iniciantes na escalada, ou mesmo aqueles que parecem “prontos” para dar um passo adiante no mundo da montanha (geralmente querem repetir uma escalada que eu fiz não sei aonde, ou alguma coisa muito difícil), começam a me fazer perguntas sobre aspectos do montanhismo, que geram outras perguntas e assim por diante, como uma bola de neve. Geralmente, à medida que esta curiosidade natural avança, as respostas vão ficando cada vez mais vagas e abstratas, cada vez menos dependentes de um exercício racional, de lógica clássica, daquela que herdamos dos gregos antigos, que aprendemos na escola e que supostamente estaria aí para esclarecer tudo e todos e nos fornecer a verdade.
Isto sugere que o montanhismo tenha seus mistérios, ou que eu ou outros veteranos guardemos um conhecimento superior ou intangível, o que eu não concordo em absoluto, pois, na verdade, o que eu percebo, é que existem certos conhecimentos que não necessariamente poderão ser compreendidos apenas através de jogos de perguntas e respostas objetivas, croquis de vias e informações e sim somente com um maior envolvimento e aprofundamento no mundo da montanha. Aliás receber um monte de respostas prontas nem sempre significa que estaremos mais esclarecidos, apenas mais informados, mesmo porque não ter todas as respostas prontas não é necessariamente ruim para a evolução de uma pessoa, principalmente para aqueles que querem algo a mais.
Tudo isto não significa que um montanhista, como eu ou como vários outros com alguns anos de vivência no assunto, seja necessariamente impermeável à uma investigação comum e genérica sobre o assunto, apenas significa que existem espaços dentro desta vivência humana chamada montanhismo, que simplesmente ficarão obscuros aos não iniciados. Não tenho aqui a pretensão de esclarecer estes, supostos mistérios, até porque tudo o que eu escrevi nos três parágrafos anteriores anularia qualquer esforço meu devido à abstração do tema.
Mas eu gostaria de deixar para vocês a possibilidade de pensarem sobre o assunto, vislumbrarem as possibilidades intrínsecas a um maior envolvimento e aprofundamento com o montanhismo e refletirem sobre o assunto, até mesmo para encontrarem respostas para perguntas altamente filosóficas e inevitáveis como “o que estou fazendo aqui?” “Isto que estou fazendo me levará a um maior autoconhecimento, será que vale a pena?”
O mundo tridimensional
Começarei com a primeira constatação que eu vejo no universo da montanha e que afeta a totalidade dos praticantes, principalmente da escalada, que é a da tridimensionalidade. Parece estranho e banal falar isto, afinal vivemos em um mundo tridimensional, certo?
Mas se as pessoas são completamente acostumadas a conviver com duas dimensões planas desde o início da vida, que são o comprimento e a largura, será que podemos dizer o mesmo da altura? O que uma mãe zelosa diz ao ver um filho subindo em uma árvore ou andando em cima de um muro? No mundo das pessoas comuns a dimensão vertical é, assim, associada primeiramente ao risco de um acidente e consequentemente gera medo, por conta do efeito da gravidade que potencializa os danos de uma queda. Isto gera uma curiosa contradição, as pessoas se tornam muitas vezes descuidadas com o plano e a maioria dos acidentes em que as pessoas são envolvidas ocorrem nas duas dimensões planas (como, por exemplo, acidentes de carro), que é onde a maioria vive.
O fato é que as pessoas não se deslocam na vertical. Máquinas como elevadores ou escadas rolantes fazem com que planos carreguem elas para cima e para baixo. Deslocar-se na vertical por conta própria (escadas) associa este esforço ao desconforto físico. As pessoas simplesmente não gostam da dimensão vertical.
Pessoas que exploram a dimensão vertical como alguns trabalhadores de altura e esportistas da verticalidade, vivem, então em um mundo diferente, o mundo do risco, do medo, do desconforto. Como querer que sentimentos tão desagradáveis se tornem palatáveis para a maioria das pessoas? Com isto, vocês, montanhistas, sempre serão vistos como seres estranhos para o resto da humanidade. Vivem em mundo à parte, seu prazer inverte à escala de valores da humanidade. Acostumem-se a isto.
O mundo transcedental
Um segundo tema que quero apresentar aqui é derivado do primeiro. Se as pessoas comuns não querem risco, medo, ou desconforto no seu dia-a-dia, o que dizer se aliado a isto estiver ainda a possibilidade de praticar uma atividade que conscientemente possa acabar com a vida, por assim dizer, prematuramente, apenas por um, digamos, prazer momentâneo?As pessoas comuns, ou até mesmo aqueles que ainda não atingiram um estágio de maturidade dentro do montanhismo acabam enxergando esta possibilidade com muitas reservas. Podem chocar-se com este fato quando ele inadvertidamente se apresenta em suas vidas, por mais que o fim de uma vida seja seu único fato previsível. Mas afinal do que estamos falando aqui? Um escalador em solo (sem corda) ou uma cordada em uma parede altamente arriscada fatalmente estão em uma atividade perigosa, cuja única alternativa será fazer tudo direito, contar com a sorte de que os elementos naturais sejam favoráveis e, digamos, sobreviver. Como se sobreviver já não fosse suficientemente difícil para a maioria dos mortais comuns. Mas, eu digo, eles não estão praticando um prazer momentâneo ou superficial.
Aqui chegamos ao nível de abstração de que eu falei no início. Posso contar de mim, das minhas experiências, da minha perspectiva sobre este assunto. Posso assistir a uma palestra bacana de algum figurão do montanhismo sobre estes assuntos. Posso ouvir outras pessoas. Mas até que ponto estas experiências individuais abstratas farão sentido para a maioria das pessoas? Até que ponto estas experiências pessoais farão sentido no mundo do montanhismo? Serão meras necessidades de afagos de ego ou o individualismo extremo de um montanhista segue sendo uma opção filosófica aceitável dentro de um mundo massificado, onde o que cada vez mais conta é a “visão da sociedade”, a opção sociológica aceitável?
Lembro-me do olhar aparentemente vago mas cheio de significados da amiga Roberta Nunes quando voltou da Groenlândia. Ela havia visto algo, belo ou terrível, tocado o infinito, feito uma transição. Atingido uma perfeição. Atingido um ponto de não retorno. O mesmo ponto que eu havia atingido décadas atrás, durante uma desastrada abertura de uma via em solitário, no Marumbi, da qual posso dizer apenas que sobrevivi. Só Deus é perfeito, aprendemos. Mas se somos à imagem e semelhança de Deus não podemos também ser perfeitos, mesmo que por instantes, por aquele instante solando no Pico Paraná, quando a via normal desapareceu e só sobrou como opção aquele teto com uma agarra molhada? Ser um pouco Deus e depois rir de si mesmo. Ser um pouco perfeito e depois passar fome na montanha, sentir a limitação do corpo humano. Nestas horas o montanhismo deixa de ser apenas uma mera coleção de vias. Existe algo mais.
Quando Roberta desapareceu, pouco tempo depois, tenho certeza de que foi tranquila. Tinha visto a perfeição, o infinito, tudo. Aquilo que eu via no olhar profundo dela fazia sentido para mim.Tudo isto parece a vocês muito vago? Tudo isto é muito abstrato?
Então eu digo, a riqueza de uma experiência humana pode estar nesta abstração e não no seu mundo material, no seu currículo de montanhista. Toda uma riqueza de uma vida inteira em um olhar abstrato, mas cheio de significados.
Veja a que reflexão contraditória teu texto me leva a pensar: certos conhecimentos e mistérios do montanhismo, somente poderão ser descobertos e revelados com um maior aprofundamento e envolvimento de um ser humano com o mundo da montanha, através de experiências, (vivências materiais, concretas) cada vez mais significativas. E, ao mesmo tempo, como tu diz, não necessariamente essas experiências levarão o montanhista a essa abstração (significado?), pois não é o belo currículo de um montanhista que o levará a essa riqueza de uma experiência humana… então, o que pode levar um ser humano à “perfeição” no mundo da montanha a que chegou Roberta Nunes e você mesmo, ao ponto de não retorno?
Abraço,
Camila
que legal!!! tenho q ler de nv! e de nv depois de uma escalada! nunca vi nenhum homem comum (q não seja escritor ou filósofo) escrever assim! Valeu!!
Camila e Monica agradeço seus valiosos comentários. De fato, não existe coisa mais contraditória do que estar vivo sabendo que isto vai acabar um dia, mas também me ocorre que a contradição é apenas considerado um valor confuso ou negativo em nosso tempo. No passado me parece que isto era apenas uma das partes de um diálogo. Por outro lado, esta contradição sugere o quanto é importante dar significância, ou seja, qualidade, na nossa vida. aprofundar-se, neste caso, não significa atirar-se feito um louco em uma escalada de forma suicida, coisa que eu nunca vi a Roberta fazendo e tampouco eu fiz, ou faço. Ser perfeito, neste caso, significa celebrar a vida. É estranho e contraditório, mas é belo.