Edson Struminski (Du Bois)
A DINÂMICA DE VERTENTES
A Serra do Mar caracteriza-se pelo favorecimento dos processos de morfogênese (formação do relevo) sobre a pedogênese (formação dos solos), em relevos extremamente vigorosos, com muitos solos jovens e afloramentos rochosos, principalmente no terço superior das vertentes(1). Nesta situação a distribuição de solos em contato com a rocha, acarreta um ambiente de extrema fragilidade em vista da pluviosidade alta, sujeitando estes solos a fluxos de massa (erosões e deslizamentos).
Apesar deste ecossistema apresentar pequena capacidade de suporte à ação do homem, é possível encontrá-lo com muita frequência alterando estes solos, casos em que verifica-se o assoreamento dos rios e corpos d´água.
Por outro lado, com a elevação da altitude ocorre o desfavorecimento das condições ambientais, com uma seleção natural de espécies vegetais que se adaptam fisiologicamente a estas situações, porém, há um empobrecimento progressivo da diversidade florística e da estrutura das comunidades vegetais. O relevo assume papel preponderante no contexto ecológico, situação em que os demais fatores ambientais participam como reflexos da topografia (2).
De qualquer modo, a floresta (formação arbórea densa) destaca-se como associação que maior influência tem nos processos superficiais da crosta. De certa forma existe um consenso generalizado, mas não absoluto, de que as florestas desempenham importante papel na proteção do solo e o desmatamento promove a erosão e movimentos coletivos de solo. As interferências antrópicas são reconhecidas como desencadeadores de tais fenômenos. Assim, a atuação da floresta se dá no sentido de reduzir a intensidade da ação dos agentes do clima no maciço natural, de modo favorável à estabilidade das encostas (3).
A vegetação estrutura o solo e possibilita uma ação de cunha através de suas raízes, retém materiais deslocados, funcionado como freio e dissipador de energia provocando, porém, uma sobrecarga, ainda que reduzida, sobre a vertente.
Os detritos vegetais do chão da floresta, exercem papel preponderante no equilíbrio hídrico da região serrana. O tapete de detritos age como um “mata borrão”, absorvendo a chuva. Após encharcar-se tem a função de telhado por onde as águas escorrem sem promover erosão do solo. A umidade permanente deste tapete de detritos abastece o lençol freático, o qual por sua vez alimenta fontes de água. Um desequilíbrio qualquer (tectônico, climático ou antrópico), acelera o intemperismo mecânico (fragmentação das rochas e remoção dos solos) em relação à decomposição das rochas (intemperismo químico).
O desflorestamento é uma das causas de desequilíbrio que acelera a erosão nas vertentes. A retirada da cobertura vegetal por desflorestamentos ou incêndios faz crescer o escoamento superficial. O rastejamento lento do manto superficial de detritos (reptação) e o escoamento difuso são substituídos por canais torrenciais concentrados. Já o favorecimento do processo de sucessão natural pode ter efeito contrário: proteger a encosta.
Com o desflorestamento, a cobertura de húmus é retirada e a resistência dos agregados do solo é ultrapassada pelo escoamento superficial. Desta forma os perfis do solo ao longo da vertente se modificam. No setor mais inclinado a erosão retira o horizonte A do solo, que é o mais fértil e, na base, a acumulação rápida dos detritos, enterra este horizonte transportado. Esta situação de desequilíbrio bioclimático é chamada de resistasia.
Com excessão dos efeitos ligados à ação biológica, o sistema radicial das árvores é o único componente da floresta que continua agindo em benefício da estabilidade das encostas durante alguns anos após o corte de árvores. Posteriormente, PRANDINI (1982), determinou um período de quatro a cinco anos para o desaparecimento deste sistema radicial, o que seria suficiente para que taludes antes estáveis e florestados atingissem seus pontos críticos de resistência, tornando-os sujeitos a ocorrência de movimentos de massa (4).
Eventos naturais como grandes chuvas, terremotos, modificações climáticas, etc, podem se constituir em “gatilhos” que desencadeiam estes processos. A capacidade de acumulação da encosta não é infinita, pois a um certo momento ela se torna instável e busca o reequilíbrio através de movimentos coletivos de massa (5).
Isto pode ser previsto através de alguns indícios de avaliação da estabilidade de vertentes: sua inclinação, o material constituinte, a presença ou ausência de surgências de água, fendas de tração no solo, cicatrizes de antigos movimentos, árvores inclinadas, ondulações da superfície, etc. Quando dois ou mais destes elementos indicativos se encontram juntos, é muito provável que se trate realmente de uma encosta instável (5).
Um processo erosivo linear (que corte a encosta) e que modifique a geometria de uma vertente como acontece em uma trilha, pode gerar movimentos coletivos de solo, à medida que a erosão se aprofunda e a trilha sobe na encosta. Neste caso, o talude frontal e os laterais se tornam altos e instáveis, podendo romper-se. Uma trilha pode afetar o escoamento da água, que ocorre normalmente abaixo da superfície e passa a acontecer sobre a superfície da trilha, causando erosão e acúmulo de materiais encosta abaixo, conforme podemos ver na figura.
Desta forma, embora exista relação entre alta pluviosidade e escorregamentos, as formas de ação antrópica são reconhecidas como fortes desencadeadores destes fenômenos de instabilidade nas montanhas.
Leia mais em:
(1)CURCIO, G.R. A fragilidade ambiental sob o ponto de vista pedológico. In: Curso de recuperação de áreas degradadas. Anais. Curitiba: FUPEF, 1994. p.5.
(2)RODERJAN, C.V. O gradiente da Floresta Ombrófila Densa Altomontana no Morro Anhangava, Quatro Barras, Pr. Curitiba, 1994. Tese (Doutorado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná
(3)PRANDINI, F.L., GUIDICINI, G., POTTURA, J.A., PONÇANO,W.L. & SANTOS, A.R. dos. Atuação da cobertura vegetal na estabilidade de encostas, uma resenha crítica. IPT, São Paulo, Publicação 1074, 1976.
(4)PRANDINI, F. L. A cobertura florestal nos processos e evolução do relevo: o papel da floresta. In: Congresso Nacional Sobre Essências Nativas. Anais. São Paulo: Instituto Florestal, 1982. p. 1568 – 1582.
(5)LOPES, J.A.U. Estimativa de estabilidade de encostas naturais e procedimentos preventivos/corretivos de engenharia civil. In: Curso de recuperação de áreas degradadas. Anais. Curitiba: FUPEF, 1994. p. 20.