RISCOS DE INCÊNDIOS
Edson Struminski (Du Bois)
Outro fenômeno importante a considerar na ecologia de trilhas são as condições em que a probabilidade de ocorrência de incêndios é maior.
Uma área florestal aberta, alterada (por clareiras, aberturas de estradas ou trilhas) ou rala, representa risco, pois permite penetração livre dos raios solares e do vento na borda (efeito de borda), com aumento na evaporação e na temperatura dos materiais combustíveis, além de permitir a propagação de espécies oportunistas nativas como as bambusáceas, cipós ou a samambaia (Pteridium aquilinum), ou mesmo de herbáceas exóticas como gramíneas, o que contribui para o maior potencial de propagação do fogo, conforme pode ser visto na figura.
É importante, pois relacionar características dos vegetais que aumentam a probabilidade de combustão, são elas: a folhagem e casca inflamáveis, a retenção desta folhagem e a altura escassa do vegetal, fazendo com que a folhagem sujeite-se a incêndios superficiais, que queimam todo o material combustível como folhas e galhos caídos, gramíneas ou arbustos, até 1,80 m de altura(1).
Dentro dos materiais combustíveis, são classificados de “materiais perigosos” as folhas, pequenos galhos de diâmetro igual ou inferior a 1 cm, gramíneas, líquens e musgos, todos em estado seco. Estes materiais, por apresentarem menor temperatura de ignição, facilitam o início do fogo e aceleram a propagação, queimando-se rapidamente com muito calor e chamas intensas(1).
Da mesma maneira, os “materiais semi-perigosos”, incluiriam galhos acima de 1 cm de diâmetro, troncos caídos, tocos, húmus e turfa, ou seja os materiais lenhosos ou em decomposição e que podem estar compactados, o que faz com que queimem lentamente. Estes materiais possuem ignição mais lenta e difícil, desenvolvendo porém intenso calor, podendo manter uma combustão latente, com risco de reiniciar incêndios dados como controlados(1).
Também o enraizamento superficial devido à natureza inerente das espécies ou das condições da localização (afloramento rochoso), incrementa a suscetibilidade ao dano pelo fogo, ocasionado por incêndio subterrâneo, que propaga-se através das camadas de húmus ou turfa existentes sobre o solo mineral e abaixo do piso da floresta. Árvores com sistema radicial fasciculado e superficial são mais danificadas pelo fogo. É importante lembrar que em regiões montanhosas, é das acumulações de húmus que provém os nutrientes para as árvores(1), como em certas tipologias da Floresta Atlântica das vertentes, onde o incêndio estende-se para baixo, chegando ao leito rochoso com resultados desastrosos e instabilidade ambiental(2), conforme aconteceu em 2007 no monte Caratuva. Árvores com grande altura, apresentando troncos com cascas espessas e isolantes, além de possuirem grande capacidade de rebrota, seriam, algumas das características naturais que previnem danos causados pelo fogo.
Incêndios recorrentes favorecem o desenvolvimento de vegetação arbustiva, com espécies com folhagem resistente, baixa em valor nutritivo e de decomposição baixa, sendo plantas que se transformam em dominantes depois de fortes e repetidos incêndios, caso, por exemplo, das bambusáceas, gramíneas ou samambaias.
Nestas regiões o solo deteriorado, sob a influência de um manto empobrecido, evolui até as condições em que não pode sustentar a vegetação florestal original, muito embora, possam surgir espécies que reconstruam o solo(3).
Além disso, árvores jovens, folhas e pequenos ramos, são facilmente danificadas ou mortas pelo fogo. Árvores com copas baixas, ou desrama natural lenta, apresentam mais material aderido ao tronco, sendo sujeitas ao incêndio de copa, quando a folhagem é consumida pelo fogo, com altas taxas de mortalidade das árvores(1). Estas características são próprias de arbustos, árvores jovens, de pequeno porte ou crescimento lento, como nas classificações tipológicas capoeirinha (vegetação da 2a fase da sucessão vegetal secundária) e floresta altomontana, típica do alto das montanhas(2).
Outra regra conhecida do comportamento do fogo é a que define a tendência de propagação mais rápida nos aclives e mais lenta nos declives. Assim, um incêndio em aclive acentuado se assemelha a um incêndio no plano com vento. À medida que a inclinação aumenta, a velocidade de propagação também aumenta.
Além disso, os incêndios não se distribuem uniformemente nas áreas florestais. Existem locais onde sua probabilidade é mais frequente, caso das proximidades de vilas ou acampamentos, áreas de exploração mineral, margens de trilhas, estradas, linhas de energia ou telégrafo e margens de rios ou represas. Podem ser acrescentados a esta lista vegetação secundária nos primeiros estágios de sucessão ou de vegetação natural de campos. Por outro lado, existem locais onde raramente ocorrem incêndios. A determinação de áreas com potencial de ocorrência de incêndios possibilita a adoção de medidas preventivas.
Também é interessante observar alguns dados sobre a ocorrência de incêndios no Brasil(1). Fumantes aparecem como responsáveis por 6,01 % dos incêndios, representando 1,24 % da área queimada; incendiários respondem por 33,88 % dos incêndios, contabilizando 10,94 % em área e os fogos de recreação, típicos de trilheiros, apesar de responsáveis por número menor de incêndios (12,57%), causaram dano em 19,51 % da área registrada neste levantamento. Os dados coletados mostraram também que a maioria dos incêndios florestais (77,54%) ocorreu entre os meses de agosto a novembro em praticamente todos os estados do país.
Dados mais específicos foram levantados pelo Projeto Anhangava, realizado na Serra do Mar em Quatro Barras-Pr. Dos 13 incêndios combatidos por aquele projeto entre 1995-98, não foi possível apurar a causa provável para apenas um, sendo que cinco foram relacionados a fogos para mineração. Constatou-se, porém que o maior número (7 incêndios) foi provocado por visitantes, sendo cinco em grandes feriados (sete de setembro ou primeiro de maio), dias de visitação intensa(4). De modo geral estes incêndios foram classificados nas classes I e II, ou seja pequenos incêndios em áreas de no máximo 4 ha. Os incêndios de maior porte (classe III, até 40 ha em 1997 e 2003) ocorreram no morro Pão de Loth, vizinho ao Anhangava.
Veja mais em:
(1) SOARES, R. V. Incêndios florestais, controle e uso do fogo. Curitiba: FUPEF, 1985.
(2) STRUMINSKI. E. Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p.
(3) NASCIMENTO, L.H.P. Combate a incêndios florestais. In: Curso de Guardas-parque. São José dos Pinhais: FBPN, 2001. P. 96 – 128.
(4) STRUMINSKI, E. Proteção Florestal. In: Projeto Anhangava. Curitiba: SEMA/IAP, Instituto Gaia do Brasil, 1998. P. 42 – 45.