Edson Struminski (Du Bois)
Porto Amazonas é uma pequena cidade às margens do rio Iguaçu, rio este que, para os paranaenses, possui a mesma importância que o Tietê para os paulistas ou o Paraíba para os cariocas, ou seja, um rio que era um pouco de tudo, via de transporte, fonte de água, de energia, de esperanças de uma população.
A cidade teve um passado exuberante. Primeiro porto navegável do rio Iguaçu em direção ao interior do Estado, viveu seu auge no período entre os anos 1920 e 50, época da exploração da madeira e da erva-mate, ambas exportadas para outros países. Balsas a vapor desciam o rio levando estas riquezas embora.
O passado desta cidade é mais antigo do que isto. No período do tropeirismo, um dos cruzos do rio Iguaçu era em Porto Amazonas. Os tropeiros eram criadores e condutores de gado que vinham dos campos do Rio Grande do Sul para São Paulo. Depois este gado seguia para alimentar a região do ouro de Minas Gerais. Estes caminhos do gado começaram a ser abertos no século XVIII e funcionaram até meados do século XX.
Os campos existentes na região passaram a ser utilizados como invernadas para recuperação dos animais ao longo deste longo e penoso trajeto. Como conseqüência, a pecuária tornou-se a atividade econômica predominante na região, que passou a contar com lugarejos para atender essa demanda e que foram os núcleos formadores das cidades de Lapa, Jaguariaíva, Castro, Ponta Grossa, Palmeira ou mesmo Porto Amazonas. Aliás, Romário Martins (1995), historiador paranaense, considera que o comércio e criação de gado teve influência decisiva no povoamento do território paranaense, ao fixar populações. Durante o império brasileiro uma ponte de pedra chegou a ser construída no Iguaçu em um trecho onde o rio abandona sua largura normal (de uns 100 metros) para cerca de 20, intercalado com pedras. Neste local há uma bela corredeira, o Salto do Caiacanga e a ponte era para facilitar a passagem de tropas.
Também podem ser encontrados na região trechos da antiga ferrovia que margeava o rio e foi construída primordialmente para explorar as monumentais florestas de pinheiro que existiam ao longo do vale do Iguaçu.
Nos anos 30 a exploração do mate começou a entrar em decadência e nos anos 60 foi a madeira que começou a acabar. Porto Amazonas passou de 20 para 5 mil habitantes. Hoje se sustenta basicamente com a fruticultura.
Em busca do passado
Chego a esta cidade em uma sexta-feira em companhia de um amigo, arqueólogo, que veio em busca de vestígios de habitantes pré-históricos, em uma área de uns 75 hectares que será inundada para a construção de uma PCH, pequena central hidroelétrica, de uns 30 MW que irá fornecer energia para uma fábrica de papel.
Após alguns contatos com pessoas do município começamos a rodar em busca de material. Achamos algo em uma área de lavoura recém revirada. Talvez um acampamento pré-histórico. Lascas e alguns possíveis objetos de pedra, mas nada conclusivo em função da ausência de cacos de cerâmica, que evidenciam, sim, a presença humana sem margem de dúvidas, como meu amigo me explica. Passamos a outra área coberta com campos mas as dificuldades aumentam. Na verdade existe a necessidade de se fazer um exercício mental de volta no tempo não só na busca de material, pois o próprio rio Iguaçu estava bem mais alto no seu trajeto do que hoje, assim os eventuais assentamentos humanos (acampamentos, vilas) estavam em lugares que hoje estão no meio das colinas e que antigamente (2000 anos atrás) eram a beira do rio.
Tudo isto soa um pouco estranho mas dá a medida das dificuldades com que um arqueólogo se debate em campo. Mais confuso que isto é tentar entender o que aconteceu no Salto do Caiacanga. Existe um canal paralelo às corredeiras que eleva a água até uma PCH dos anos 1950 (5 MW) e que cria com isto uma ilha e uma cachoeira artificial. Esta PCH é a que funciona hoje. No meio desta ilha existe uma construção de uns 3 andares que parece ser uma outra PCH. Ela possibilita um espetacular ponto de visão. Encontro um gerador trifásico italiano sem data soterrado pela areia e degraus de ferro que levam até o rio. Ninguém sabe dizer de quando é aquela construção, talvez do início do século XX. Um pouco antes dela existem pilares da tal ponte que teria sido construída no tempo do império. Subindo a encosta, sinais inequívocos de que manadas de animais teriam passado regularmente pois um trecho do campo está totalmente afundado. Um possível trecho do caminho dos tropeiros, como afirma meu amigo.
É bem provável que boa parte desta significativa concentração de construções históricas que eu descrevi até agora acabe ficando embaixo d’água sem maiores possibilidades de registro ou recuperação. Vestígios pré-históricos, PCHs antigas, pilares da ponte, trechos do caminho dos tropeiros.
A paisagem em geral é bela e tranqüilizante sem ser espetacular e fico me perguntando se a perda de parte da memória de um povo e uma bela paisagem de uma pequena cidade de interior vale alguns MW a mais para movimentar uma fábrica de papel, sem maiores retornos para esta população do que um eventual aumento de recolhimento de impostos e alguns benefícios transitórios. Na verdade é uma pergunta que deveria ser feita a todos os moradores desta cidade, mas nem sempre isto é feito, ou muitas vezes é feita de forma a minimizar as perdas, o que aliás é um exercício lícito e necessário quando se fazem estudos de construções deste tipo. Por outro lado muitas vezes os moradores estão simplesmente desinteressados em preservar um patrimônio histórico que está em uma área particular, sendo que o próprio proprietário pode revelar pouco interesse pelo assunto.
Além disso, poderíamos pensar, existem outras construções e paisagens mais significativas, a ferrovia tem outras passagens bonitas, o rio também, o caminho dos tropeiros continua. Há outros objetos enterrados por aí. Tudo isto demanda atenção.
Continuo acompanhando meu amigo. Ele resgata um pilão de pedra pré-histórico com um morador local e vejo seu esforço em tentar incentivar as autoridades locais a montar uma casa da memória. Deverá voltar lá em março para apresentar os resultados da sua pesquisa.
O sábado amanhece chuvoso e nos despedimos desta pequena cidade na beira do rio Iguaçu.
BIBLIOGRAFIA
MARTINS. R. História do Paraná. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995.
é isso ai du´bois. sempre grato pela força e compartilhando da angústia diante do quanto poderia ser feito e do pouco que tentamos fazer. mas fazemos….