Por Márcio Bortolusso
Alguns nomes se destacam na produção de imagens de montanha a partir dos anos 1960, a começar por Piero Nava, que em 60 anos produziu uma dezena de filmes e colaborou com diversas publicações, além de ter realizado mais de 500 ascensões nos Alpes, Patagônia, Karakoran, África, Groelândia, Peru e Himalaia.
Ao final desta década surgem as produções de Lothar Brandler e Gerhard Baur, dois dos maiores cineastas de montanha de todos os tempos.
Brandler produziu mais de 130 documentários e alguns longas, que na época revolucionaram a arte das montanhas, com destaque para Direttissima (1958), audaciosa escalada à Face Norte da Cima Grande di Lavaredo; Una Cordata Europea (1964), que revolucionou o cine de montanha quando foi lançado, três escaladores experts encarando a temida Tre Cime di Lavaredo; e Eiger 69: La via dei Giapponesi (1971), sobre uma árdua “tentativa” de repetição por um time germânico da via dos Japoneses.
Bauer lançou cerca de 60 grandes obras, que conquistaram não apenas o público, mas os júris dos mais importantes festivais de cinema do planeta. Bauer filmou em 1975 a primeira ascensão da “terceira maior”, o Kanchenjunga (8.579 m), participou de duas expedições ao Nanga Parbat (em 70, a fatídica para Günther Messner, e outra em 2004) e foi cameraman no épico filme No Coração da Montanha (Cerro Torre: Schrei aus Stein, 1991), de Werner Herzog, um dos melhores longas produzidos, que relata a competição de dois alpinistas na escalada do Cerro Torre. Destaque para os seus espetaculares documentários sobre a Face Norte das Grandes Jorasses (“o último grande problema dos Alpes” nos anos 30) e sobre as trágicas primeiras investidas à traiçoeira Face Norte do Eiger (conhecida na época como “a impossível” dos Alpes).
Desde que participou como documentarista em 1954 da expedição pioneira de Ardito Desio ao Chogo Ri (ou K2), ajudando a produzir o filme Itália K2, que Mario Fantin nunca mais parou. Participou de 33 expedições (20 alpinas), realizou 47 filmes e publicou cerca de 20 livros.
Com o passar dos anos os equipamentos de filmagem e de escalada tornaram-se consideravelmente mais leves, de menor volume e maior qualidade. A documentação de montanha tornou-se mais fácil por um lado, porém mais ousada.
E falando em ousadia, quem não pode deixar de ser mencionado é o cineasta suíço Fulvio Mariani, que desde os anos 80 realizou uma quinzena de incríveis documentários, rodados em regiões como África, Tibete, Índia, Paquistão, Sibéria Patagônia e Cáucaso. Em 1985 acompanhou o fenômeno Marco Pedrini na primeira escalada “em estilo solitário” do temido Cerro Torre. E Mariani era tão bom em filmar quanto em escalar, voltando outras duas vezes ao gelado cume do Torre apenas para realizar novas tomadas para o seu belíssimo filme Cumbre. No total, fizeram 22 bivaques no Ombro e 9 na parede. Com certeza trata-se de um dos maiores clássicos cinematográficos da Patagônia, com cenas incríveis, como as de Pedrini escalando apenas de camiseta e sapatilhas e brincando de motociclista sobre o compressor abandonado de Maestri, a mais de mil metros do chão, ou mesmo do impressionante solo sem estribos pelos apodrecidos grampos da headwall da parede. Mariani foi responsável pela fotografia de No Coração da Montanha (de Herzog), em 96 documentou a expedição Shisha Pangma-Everest e participou também da expedição internacional de Reinhold Messner à face sul do Lhotse, em 1989, produzindo o documentário Lhotse, l’année noire du serpent, com a participação de feras como Jerzy Kukuczka, Hans Kammerlander e Christophe Profit.
Greg Epperson é outro que se garante na hora de fotografar, já solou Big Walls cascudos, guia passagens de A4 e manda lances de até 5.12 em busca de suas imagens (gregepperson.com).
E o que dizer do fotógrafo austríaco Heinz Zak? Curiosidades à parte, após imortalizar Wolfgang Güllich em 1986 durante uma de suas escaladas mais impressionates, o solo dos seis metros fendados do teto da rota Separate Reality, no Yosemite, decidiu fazer o mesmo. 19 anos depois o renomado fotógrafo realizou a primeira repetição deste feito, escalando novamente sem corda e a 200 metros do chão esta mítica via de 5.12. Foi Zak que acompanhou Güllich em sua famosa viagem pelo Rio de Janeiro, em 87. O austríaco abriu a via Gutes Ding braucht Weile (7c, na Parede dos Ácidos), a via Speed (7b, na Pedra do Urubu) e é o autor da famosa foto do “alemão” mandando a sua recém aberta Southern Comfort, o primeiro décimo grau brasileiro (heinzzak.com).
E a lista de documentaristas que mandam muito é grande. Por exemplo, lembram-se da duríssima rota Afanassieff no Fitz Roy, repetida após 27 anos com muita classe pelos brazucas Ed Padilha e Val Machado e pelo Hermano Gabriel Otero? Então, um de seus autores, o esplêndido escalador Jean Afanassieff, dentre várias outras façanhas, já realizou dezenas de célebres documentários desde os anos 1980.
Mas o consagrado gênio da documentação de montanha moderna é o cineasta autríaco Kurt Diemberger, “figuraço” pioneiro das explorações e dos documentários sobre o Himalaia, sendo o único alpinista vivo com duas subidas a cumes virgens de 8 mil metros, apenas citando alguns gigantes de seu currículo, ele já escalou o Chomolungma (Everest), o Chogo Ri (K2), o Gasherbrum II (K4), o Makalu, o Faichan Kangri (Broad Peak ou K3) e o Dhaulagiri. Em 1986 ele teve que bivacar acima de 8 mil metros no Chogo e acabou escapando da montanha como um dos dois únicos sobreviventes do trágico Verão Negro. Realizou mais de 20 expedições pelo planeta desde os anos 50 e ainda está na ativa. O seu filme La Grande Cresta di Peuterey – Monte Bianco (1964), sobre uma longuíssima e terrível escalada no Mont Blanc, se tornou um marco do Cine de Montanha. Excepcional fotógrafo, infelizmente uma de suas fotos mais famosas é a clássica imagem das pegadas de seu companheiro Hermann Buhl rumo a cornija que o engoliu para sempre, durante a primeira ao Chogolisa, no Karakoran em 57.
Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®.
Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.