Edson Struminski (Du Bois)
O império do descartável parece que começa a chegar ao seu fim. Assim como no passado o ferro e a madeira foram símbolos da civilização, da metade do século XX em diante nós, humanos, nos acostumamos comodamente à presença amorfa e confortável dos objetos de plástico e a leveza do alumínio. Hoje eles estão em toda a parte. No supermercado, na farmácia, na escola, no automóvel, em nossa casa e até na escova de dente. Muitos esportes praticados na natureza tiveram um enorme impulso graças à grande quantidade de produtos “plásticos”, ou seja, fabricados a partir de matérias primas derivadas de petróleo, que permitem que os alimentos não se deteriorem, que as mochilas e calçados resistam aos rigores do ambiente natural ou que os próprios excursionistas se mantenham secos. O alumínio também trouxe conforto. Quilos foram transformados em gramas o que aumentou a quantidade de objetos que podemos carregar hoje em nossas mochilas (mosquetões, panelas, fogareiros), em comparação com anos passados.
Grandes empresas e milhões de empregos foram gerados neste circuito, porém, tanto no caso do plástico como do alumínio, a descartabilidade está deixando de ser um atributo positivo para ser negativo pelo grande e incômodo volume de lixo de alta permanência no ambiente.
A marca principal do plástico, na época de petróleo ainda farto em que vivemos, é sua enorme durabilidade, baixo preço e valor limitado de revenda do produto usado para reciclagem. Isto explica sua abundância no mundo em que vivemos e de fato, em alguns casos, é bem provável que o processo de coleta, limpeza e reciclagem de determinados tipos de plásticos ainda não seja economicamente viável, ainda que represente, como disse, uma necessidade do ponto de vista ambiental. O surgimento de plásticos oxidegradáveis pode ser uma boa notícia para os aterros sanitários, que são locais onde o lixo final é armazenado adequadamente. Após algum tempo, digamos, um ano, este plástico teria sido consumido e reduziria o volume dos aterros, porém descartaria a possibilidade da reciclagem. Seria um plástico de apenas uma vida.
Já o alumínio, material abundante, recebe por sua vez, uma considerável reciclagem. Mas isto se deve ao fato de que sua extração como minério, transporte, transformação em alumínio pronto para uso industrial e uso final, consumir uma quantidade tão grande de energia que faz com que a reciclagem seja viável. Quando você compra um refri em lata no mercado está pagando, na verdade, a energia elétrica usada para processar o alumínio. A embalagem final e o próprio conteúdo pouco contam. Por sua qualidade, seria simplesmente mais inteligente usar o alumínio para fins mais duráveis e não para embalagens descartáveis.
O LIXO DA MONTANHA
Mas há um problema ainda maior, produtos que consomem estas mesmas matérias primas e não são reciclados. As cordas são derivadas de materiais plásticos. Ao longo de uma vida de montanhista várias cordas são consumidas. Mas qual o destino destas cordas “imprestáveis”, dos anoraques usados que perderam a impermeabilidade, dos calçados de caminhada gastos com suas solas de borracha sintéticas, capacetes velhos, etc. De modo geral nós não nos sentimos responsáveis pelo lixo que geramos, embora a presença de lixo na montanha, particularmente dos plásticos que tem alta durabilidade, como as garrafas de PET, de vidro ou embalagens de alumínio facilmente recicláveis nos incomode profundamente. Efetivamente uma das ações comuns de montanhistas é a retirada de lixo, que sempre tem esta parcela “reciclável”, deixada por excursionistas “menos” conscientes.
Parte substancial do nosso consumo como montanhistas é determinada por questões de modismo. São novos e atraentes revisões de produtos, com novas cores e novos desenhos, mas que mantém as mesmas funções básicas e geram, com isto, apenas um consumo adicional de recursos para seu desenvolvimento. Outra parte destas relações de consumo são geradas por questões de segurança. Materiais velhos são poucos seguros, afirma-se com freqüência. Entretanto uma empresa que oferecesse um mosquetão com o triplo de durabilidade nominal ou uma corda com um material excepcionalmente resistente ao desgaste seria realmente compreendida? Seus produtos, certamente mais caros, teriam mercado?
Assim, quanto destas nossas relações de consumo são determinadas por uma postura ambiental da nossa parte. Uma determinada lanterna pode oferecer mais horas de luz com menos consumo de pilhas. Estaremos sensíveis ao fato de que isto gera menos lixo tóxico ou o que importa é apenas o preço final.
Afora uma pequena parcela de nosso equipamento que acaba recebendo um reúso (vira museu, varal, vaso, usado para amarrar carga ou pendurar rede), é bastante provável que nosso material de montanha acabe simplesmente virando lixo comum.
O lixo retirado da montanha não será necessariamente enviado para locais adequados para sua reciclagem. De fato, é bem possível que a maioria do lixo, seja coletado na montanha, gerado por montanhistas ou pela parcela de população que conta com coleta de lixo, acabe simplesmente em um lixão, que é uma forma desorganizada e perniciosa de acomodar este lixo na maioria das cidades brasileiras que não contam com usinas de reciclagem ou aterros sanitários. Eles poluem lugares longes das montanhas, mas poluem.
CONSUMO DO FUTURO
Oferecer materiais com tecnologias limpas, cada vez mais duráveis aos consumidores pode ser uma alternativa interessante para empresas de olho no futuro. Combinar esta durabilidade com o uso de matérias primas recicladas pode ser, à primeira vista, um tiro no próprio pé, mas foi assim que a Patagônia, empresa americana de Yvon Chouinard se firmou no mercado com um diferencial. Chouinard inovou várias vezes. Usou tecidos reciclados a partir do PET das garrafas, depois introduziu o algodão orgânico como alternativa ao convencional que usa muito agrotóxico. Mais tarde, quando o próprio aumento da demanda pelo orgânico cresceu a ponto de tornar-se um problema ambiental (pelo desmatamento usado para a cultura agrícola), voltou-se para um poliéster japonês, que pode ser reciclado quase infinitamente (1).
O futuro parece apontar para os ciclos fechados. O princípio é o do poluidor-pagador, mas realizado de forma consciente pelas empresas, com o intuito de economia de energia e matérias primas e não de mero pagamento de multas. A empresa produz um produto de alta durabilidade. Após o uso ela recebe o produto de volta do consumidor que recebe um valor simbólico pelo produto, o qual passa por um desmonte que transforma seus materiais em novas matérias primas. Estas matérias primas serão usadas em outros produtos que iniciarão o ciclo novamente.
É uma via de mão dupla. Os consumidores tem de ser exigentes mas estar dispostos a mudar hábitos de consumo. As empresas tem de ser sensíveis às mudanças, mas também propor o novo.
SAIBA MAIS
(1) Salomão, A. O empresário da nova era verde. In: revista Época, 25/06/2007, p62 – 63.