DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHA Parte 5: tempos modernosPor Márcio Bortolusso
“Pus o olho no visor e na mesma hora toda a paisagem em volta se transformou… vi naquele momento que um fotógrafo de cinema, um cinegrafista, podia redefinir o mundo, investindo uma cena tanto com a realidade da paisagem quanto com as definições visuais que sua imaginação porventura tivesse… percebi que poderia explorar tanto o mundo visível quanto minha imaginação com uma câmera… vi minha experiência das montanhas adquirir uma dimensão totalmente nova”. David Breashears em High Exposure (1999), descrevendo sua iniciação com a Fotografia de Montanha, no Half Dome em 1977, na assistência a Greg Lowe e Tom Frost.
Desde 1995, após ter o maior insight de minha vida, que venho dedicando cada segundo, gota de suor e centavo em prol da documentação de atividades ao ar livre, em especial do montanhismo, lutando pela consolidação deste segmento. Resumidamente: apesar das dificuldades, acho que hoje já podemos comprovar a existência de um mercado de produção de imagens nacional.Nas edições passadas falei sobre os pioneiros do olhar vertical, os primeiros montanhistas e documentaristas que registraram com extraordinária competência parte de nossa história, com imagens dos primórdios do montanhismo até o conturbado período da Segunda Grande Guerra. A partir de agora, apresentarei os maiores nomes e acontecimentos dos tempos modernos da documentação de montanha, período em que lentamente ocorre a profissionalização desta incrível arte documental.Primeiramente, terei que recapitular as raízes do cinema de montanha, com detalhes não relatados nos textos anteriores.Muito mais que o enfoque desportivo, na primeira metade do século passado os filmes de montanha possuíam um caráter poético, eram carregados de dramaticidade e simbolismos. O escalador era retratado como um romântico, por vezes como um herói e com forte ideologia nacionalista.Os primeiros filmes de montanha são na verdade pérolas da “sétima arte”, pois foram alguns dos primeiros da história do cinema, lançados poucos anos após a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895. Cervin, de 1901, acredita-se que produzido por um suíço, é considerado o primeiro filme de montanhismo da história. Outros clássicos são, o filme do alpinista americano Frank Ormiston-Smith, sobre o Mont Blanc, de 1903 e a produção de Vittorio Sella, L’expédition du duc des Abruzzes au K2, o primeiro filme da história sobre o Himalaia, de 1909.Nas primeiras décadas do séc. XX foram os italianos que dominaram o cine de montanha, com destaque para filmes sobre o afamado Matterhorn e para as produções de Mario Piacenza, como as obras Ascension à la Dent du Géant e Ascension au Cervin (rodado à 4 mil metros com os escassos recursos tecnológicos da época), ambos de 1911.
Nos anos 20 e 30 a montanha se destacou como cenário para grandes produções cinematográficas, de intrigas amorosas nas alturas a filmes de “Bang-Bang” (consegue imaginar um caubói sem as torres de Utah como pano de fundo?). Neste período foram os alemães que conquistaram o público, pelo forte apelo dramático dos filmes, como visto nos trabalhos dos pioneiros Arnold Fanck e Luis Trenker. Sob influência italiana, o que temos de mais representativo neste período são os filmes das primeiras tentativas dos ingleses ao Topo do Mundo, em especial o da fatídica tentativa de Mallory e Irvine em 1924, realizado pelo cinematografista John Noel. Apenas dando um exemplo da determinação e pioneirismo de Noel como documentarista do Himalaia, em 1913, época em que o Tibete estava fechado aos estrangeiros, ele, com o rosto pintado de preto, chegou ilicitamente a 95 quilômetros do Chomolungma (montanha que os “invasores” rebatizaram de Everest).E falando de imagens, vale lembrar que o corpo de Irvine se mantém desaparecido, com alguns experts do Himalaia afirmando que ele pode estar com a Kodak de bolso da dupla, talvez com os negativos milagrosamente conservados pelo frio e pela falta de umidade desde 1924, quem sabe revelando alguém no topo do Chomolungma trinta anos antes de Hillary e Norgay.Praticamente uma arte européia, a produção de filmes de montanha deu uma brusca freada durante as grandes guerras.
E foi no período pós-guerra dos anos 40 aos 60 que consolidou-se a escola francesa, libertando o cine de montanha de sua fase expressionista, tornando-o mais realista e narrativo que a escola alemã.E o mestre incontestável do cine de montanha, considerado o precursor deste segmento como arte, foi o revolucionário Marcel Ichac. O francês foi admirado em seu país por tudo que fez, como cineasta, fotógrafo, esquiador, alpinista e explorador. Escreveu importantes livros e realizou dezenas de documentários de prestígio durante cerca de 35 anos de carreira, que lhe renderam premiações nos mais importantes festivais de cinema do mundo, incluindo Cannes e o Oscar da academia holywoodiana. Participou das primeiras expedições francesas ao Himalaia (Gasherbrum e Annapurna), de explorações submarinas com o oceanógrafo Jacques Cousteau, de produções na Groenlândia, seu filme Soundeurs d´abîmes é considerado o primeiro da espeleologia, entre vários outros feitos. Alguns de seus melhores filmes são: Karakoram (1936), sobre as primeiras expedições ao Himalaia, marco antológico das grandes expedições da época, com toneladas de equipos, 700 carregadores, etc. Incrivelmente, foi remontando pelo autor por conta do 50º aniversário da expedição; A L´Assaut des Aiguilles du Diable (1942), sobre a primeira repetição do Mont Blanc du Tacul pelo célebre guia Armand Charlet; Victoire sur l’Annapurna (1950), sobre a ascensão do primeiro oito mil da história; Les Etoiles de Midi (1958), considerado “o maior clássico das montanhas”, sobre a fantástica primeira de Terray, Vaucher e Desmaison ao Grand Capucin, no Mont Blanc. Ichac revolucionou a documentação de montanha ao utilizar câmeras alemãs portáteis, que possibilitaram acompanhar os alpinistas durante as escaladas, proporcionando mais ação nas tomadas, tornando as imagens mais verídicas, em uma época em que eram usadas pesadas câmeras movidas a motores elétricos, dependentes do “kit-trambolho” baterias, filmes e tripé.
Com enorme conhecimento e amor pela arte documental e pelas montanhas, Ichac fez escola devido ao seu profissionalismo e à autenticidade obtida com seu trabalho. Foi o primeiro cineasta com exigências sobre a escrita cinematográfica dos filmes de montanha (preocupado com enquadramento, cenário, etc) e sempre se empenhou com a perfeita “continuidade” de cada cena. O seu método de “câmera subjetiva” influenciou inclusive outros alpinistas das gerações seguintes a se aventurar na cCinegrafia de montanha, caso de dois dos maiores expoentes da história do alpinismo: Lionel Terray e Gaston Rébuffat.Durante os anos 50 os gigantes do Himalaia e alguns cumes “impossíveis” da Patagônia foram escalados e a passos lentos ocorria a profissionalização do segmento. Hollywood ainda não tinha absorvido os ensinamentos franceses e desenvolvia-se seguindo o dramático olhar alemão. Um bom exemplo disto é o filme Third Man on the Mountain, produzido pelos estúdios Disney em 1959. Baseado no livro Banner in the Sky, narra a verdadeira história de um jovem que tenta realizar a escalada do Mattehorn (o Cervino dos italianos) em memória de seu pai que morreu na mesma montanha. Muito do sucesso do filme foi graças à perfeita atmosfera criada. Foi filmado na genuína fotografia alpina e teve como diretor de fotografia da Unidade de Montanha, nada mais, nada menos, que o próprio Rébuffat, o notável escalador da equipe que realizou a dramática primeira ascensão ao Annapurna.
Gaston ainda participou da produção de outros dois episódios da Disney para a tv (Banner in the Sky: The Killer Mountain e To Conquer the Mountain) e ampliou seu sucesso com o filme Perilous Assignment, de 1959, onde fez o seu próprio papel, como o guia que tinha o objetivo de instruir um novato no intrincado mundo do montanhismo.
Poucos sabem, mas Rébuffat tinha o mesmo talento para o montanhismo quanto para documentá-lo, foi um grande conferencista, fotógrafo, cineasta e escritor: algumas de suas fotos se tornaram históricas, produziu documentários de prestígio e escreveu alguns dos maiores clássicos do montanhismo, que descrevem muito mais que perigo, mas a fantástica energia da escalada. O seu filme Etoiles et Tempêtes (1957), é fantástico, trata de seu enorme feito, quando se tornou o primeiro a escalar todas as Grandes Faces Nortes dos Alpes: Eiger, Dru, Cervino, Grandes Jorasses, Piz Badile e Cima Grande di Lavaredo, as escaladas mais temidas de seu tempo.
Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.
esta imagem é impressionante!
muitÔO bÔm !!!!!!!!
qero saber qual o periodÔ historico q o filme foi produzidÙ???