PICO PARANÁ GANHA NOVA VIA EM ESTILO ALPINO
Edson Struminski (Du Bois)
O pico Paraná (PP), montanha mais alta do sul do Brasil, sempre foi palco de aventuras representativas do montanhismo paranaense e brasileiro. Até os anos 1940 o pico Olimpo, ponto mais alto do glamuroso Conjunto Marumbi era considerado o mais alto do Estado do Paraná, com 1810 metros de altitude. Naquele ano o geógrafo Reinhard Maack conseguiu, através de medições geodésicas e de visitas a campo, desmentir a propalada altitude do Marumbi, reduzindo-o a 1547 metros (atualmente 1539,361 m), além de encontrar nas montanhas próximas ao pico Paraná, incluindo o próprio, altitudes em torno dos 1800 e 1900 metros, maiores, portanto, que as do Marumbi.
Este fato foi suficiente para animar os montanhistas da época a investir na região. Em 1942 uma expedição liderada por Rodolfo Stamm varou as densas florestas da região durante dias até alcançar o cume do PP. Mais tarde, com a construção da BR 116, este cume tornou-se acessível e atualmente tornou-se uma caminhada que pode ser feita em um dia, ainda que exija boas pernas.
Os pioneiros que subiram o PP se defrontaram com uma paisagem de indescritível beleza: um conjunto de cumes (Ibitirati, União e PP), imensos paredões rochosos, florestas e campos de altitude, mas somente em 1987 foi possível abrir uma primeira via de escalada de nível na região, na face norte do Ibitirati, a hoje clássica Mar de Caratuvas, ainda hoje a mais frequentada e acessível (protegida com grampos) da montanha. A partir daí o PP tornou-se sinônimo de escalada de aventura, novas vias se sucederam, escaladas em solitário, bivaques.
Também tive minha cota de aventuras na região: 7 dias sozinho andando pelos cumes da região, um circuito de 17 horas escalando e depois descendo por um vale inexplorado com um parceiro, um solo com uma variante de uns 100 metros no final. Aventuras parecidas com as de meus companheiros desta nova escalada que pretendia fazer no lugar.
Mas mesmo no caso deste solo, sempre existe uma dificuldade, que é o fato de ser uma variante praticamente impossível de ser repetida, a não ser por um novo solo. Assim, como montanhista, sentia falta de realizar uma linha integral nesta montanha. No entanto, a idéia de ter de passar dias colocando grampos em uma parede longa, nesta região pouco acessível, não me animava. Ao mesmo tempo, minhas experiências anteriores nesta e em outras montanhas da região me fizeram crer que a melhor abordagem destas paredes, para mim pelo menos, seria a escalada alpina, usando o mínimo possível de proteções fixas e o máximo de equipamentos móveis, que exigem, no entanto, um sistema de fendas onde possam ser colocados e retirados.
Ocorre que o tal sistema de fendas existia. Há uns 10 anos atrás havia vislumbrado algo assim durante um passeio pelas paredes à esquerda da Mar de Caratuvas. O vislumbre rápido e parcial de uma enorme fenda fixou-se na minha memória. Depois disto tive notícia de dois grupos investindo na região. Uma via chegou a ser concluída, mas não exatamente naquela parede. Um outro grupo chegou a fixar alguns metros de um artificial na base de outra parede.
Em julho deste ano de 2007, convidei Edmilson Padilha e Ermínio Gianatti, dois grandes parceiros com quem havia recentemente repetido a via Los Encardidos no Marumbi (veja matéria no site), para investigar o acesso ao lugar e comprovar se realmente esta tal parede que eu vislumbrara, existia.
E lá fomos nós, partindo de Bairro Alto, no litoral paranaense, em uma empreitada no meio de um dia quente e seco, horas a fio pernando em estradinhas abandonadas, trilhas, até chegar a um ponto (na base da via Mar de Caratuvas), onde o único jeito possível de prosseguir era embrenhar-se em bambusais e subir e descer morros. Acesso nada animador. Encontramos cordas fixas abandonadas e materiais de conquista e um único ponto com água em um fundo de vale. Uma poça dágua parada.
Chegando ao topo do vale encontramos um camarote em uma pedruca (um provável local para bivaque) que forneceu uma visão espetacular da região e, é claro, da belíssima linha de fendas, que sim, existia! Mais uma cansativa embrenhada no bambusal e fechando 7 horas desde a saída, chegamos finalmente na base da via onde encontramos, um tambor de equipo e 25 metros de corda fixada!
Então, que fazer? Ed entrou em contato com o pessoal das cordas e eles cavaleirescamente cederam a vez para nós, inclusive equipos que estavam no tambor.
Em agosto, de mala e cuia e após algumas chuvas, arriscamos a subida sem água da base da montanha e confiando na poça dágua. Levamos ainda o material de bivaque e as peças móveis para a escalada. O reconhecimento prévio facilitou as coisas e após 5 horas chegamos no pé da parede sem muito desgaste físico, onde resgatamos algumas chapeletas no tambor e uma corda para reboque de material. Ermínio puxa 60 metros em uma lingua de vegetação íngreme e depois passa um delicado trecho de 30 metros com duas chapeletas. Transportamos as pesadíssimas mochilas para um platô de bivaque. Assim, no primeiro dia tinhamos feito toda a longa caminhada e mais 90 metros de via.
O bivaque, no pêlo, não foi exatamente 5 estrelas, mas, no dia seguinte a subida prosseguiu. O início do dia é úmido. Puxo 60 metros onde aparecem várias técnicas diferentes: chaminé, fenda de oposição, entalamento de mão, teto em fissura. Nada muito difícil, mas o esticão é longo e tenho que descer para resgatar peças, todas médias ou grandes. O tempo abre e um deslumbrante mar de nuvens nos acompanha. Ed puxa duas cordadas. Perceptivelmente a dificuldade técnica aumenta, mas o avanço acaba sendo surpreendentemente rápido. Até as 10 horas o tempo é fresco e decidimos nos livrar de parte da carga da água, para aliviar o excesso de peso e agilizar a subida.
É meio dia e chegamos ao terço final da parede. Fazemos uma pausa para um lanche em um belo platô enquanto curtimos o visual inédito e espetacular.
No entanto o que ainda vinha pela frente era uma incógnita. Nada muito fácil, na verdade. Tetos e uma fenda offwidht que ia se fechando e teria que ser ultrapassada em artificial no seu final, ou em oposição se a borda da fenda permitisse ou, na pior das hipóteses, em aderência pela parede. Como sou o mais magro do grupo me candidatei ao trecho. Após conseguir encaixar um Camalot 4, a maior peça que tínhamos, constatei que a borda da fenda era pedra podre e acabei saindo em uma nervosa aderência até uma lingua de vegetação. A próxima cordada não seria muito mais animadora. Ou artificial com peças enormes ou longos desvios em aderência. Ermínio guia esta passagem e faz um longo desvio da fenda onde coloca a terceira chapeleta da parede. A escalada se torna tensa e é com alívio que mais 60 metros, novamente com poucas proteções, se esticam.
Subimos finalmente com o material e Ermínio puxa mais 30 metros até o fim da parede. Mais uma hora de estafante subida noturna e chegamos ao cume do Ibitirati para mais um bivaque. No dia seguinte a caminhada até a BR 116 (planalto)
Foram 385 metros com todas as paradas em móvel ou em proteções naturais (árvores, pedras). Os 3 chapas bateram apenas 3 chapas, nos locais onde realmente era imprescindível. Tivemos o privilégio de fazer uma via nova no PP, com a mesma velocidade com que costuma-se fazer a via normal, o que mostra o valor da escalada em estilo alpino.
Cometemos alguns erros de logística como trazer excesso de água (mas que foi corrigido em tempo) e trazer muitas peças pequenas e poucas grandes, o que na verdade era impossível de saber de antemão. Porém, é possível, com a informação que geramos, que uma segunda equipe faça a via em 24 horas cheias, embora um saco de bivaque seja altamente recomendável ter à mão nesta região.
No mais a tripe foi perfeita. Parceiros admiráveis, grandes escaladores, que curtiram a via que estavam fazendo. Absolutamente nenhum problema, nenhum arranhão, nenhum susto. Indiretamente foi uma forma de homenagear os pioneiros de 65 anos atrás do PP e a turma de 20 anos atrás da Mar da Caratuvas. O Pico Paraná segue sendo terreno de grandes aventuras.
! Vejam também, portfolio de fotos!
Márcio Grochocki31/08/2007 19:14:50
Parabéns aos Três Chapas!
Parabéns aos Três Chapas pela bela escalada!
Lindas fotos!
Aproveito o espaço para divulgar o filme “Maack, o profeta pé na estrada”, que será exibido pela TV Cultura, no dia 02/09 às 23:00h.
Está aí uma grande oportunidade de melhor conhecer sua vida e obra.
Um grande abraço Du Bois!
Márcio Grochocki – Macarrão!
TradFriends.com
[...] possui o tipo de atrativo que tem a via que fizemos no ano passado na face leste desta montanha (http://blogdodubois.wordpress.com/2007/11/08/nova-via-em-estilo-alpino-no-pico-parana/), ou será que tem? Qual será então a atração que esta face da montanha poderia ter para [...]