A ATRAÇÃO DAS GRANDES PAREDES
Edson Struminski (Du Bois)
Afinal o que atrai um escalador para grandes paredes? O que faz com que, após passar terríveis perigos, correndo o risco de acabar com a própria vida, acabar mutilado, ou mesmo ver situações como esta ocorrerem com companheiros de cordada, ainda assim, continuemos vendo escaladores se arriscando em escaladas em grandes paredes?
Esta é uma pergunta complexa e na verdade impossível de ser respondida à primeira vista. Os motivos que levam um ou uma montanhista a se arriscar em um terreno tão pouco seguro como uma longa parede rochosa podem ser bastante individualizados e, não necessariamente estarei aqui expondo algo que possa ser generalizado, mas certamente existe um fascínio nesta atividade e é este fascínio que tentarei explicar aqui para vocês.
A leitura de livros como o clássico “Conquistadores do Inútil” de Lionel Terray1 mostra que os escaladores de grandes paredes do passado eram movidos pela vontade da conquista, o desejo de serem os primeiros, de explorar o desconhecido, de realizar rotas “impossíveis”, mesmo que para isto tivessem que contrariar a própria natureza da montanha, traçando linhas tão artificiais quanto possível.
Eram movidos, pela necessidade da afirmação do engenho humano sobre a natureza e, secundária mas não menos importante, pela competição entre grupos e até mesmo por um nacionalismo mais ou menos declarado. A história da primeira ascensão do Dedo de Deus, em Teresópolis em 1912, a primeira deste tipo no Brasil, embute uma necessidade de auto afirmação desta natureza.
Porém, a partir dos anos 1960 surgiu um novo discurso de caráter acentuadamente naturalista, que buscava a natureza “selvagem”, em uma grande parede, mesmo que, o “selvagem”, neste caso, se limitasse apenas à uma linha abstrata ou não, definida de antemão ou não, nesta parede. Este discurso corresponde, neste caso, a uma utopia romântica, ou seja, um ideal de escalada onde o escalador já não seria mais o conquistador e sim se integraria de tal forma à natureza rochosa que ele freqüenta, que sua presença e sua passagem por ali se tornasse praticamente “invisível”. Daí a justificativa ética do surgimento de “equipamentos móveis”, ou seja, aqueles que são removidos ao fim da escalada e não deixam rastros na rocha, gerando uma escalada “limpa”.
Alexandre Portela explica outros aspectos desta ética naturalista da seguinte forma: “para mim a mais pura e honesta forma de se escalar uma montanha, depois da escalada solo, é fazê-la com seus próprios meios, sem carregadores ou pré-equipamento da via, como cordas fixas”2.
Ainda assim existe um elo entre os primeiros que abordaram grandes paredes e os escaladores atuais. Este elo é a busca pelo desconhecido e pelo imponderável que está embutido na escalada de uma grande via em um terreno inóspito. Usando técnicas novas ou antigas, as sensações de isolamento e pequenez vividas por muitos dos escaladores são similares.
Ao mesmo tempo eles parecem nos dizer: -“sim, a montanha é imensa, mas imensa também é a vontade humana”, razão pela qual qualquer grande escalada deveria ser, a princípio, saudada como demonstradora da energia humana em ultrapassar obstáculos em busca de seus objetivos, mesmo que eles sejam, como sugere Terray “conquistas inúteis”.
Por isto o sentido de esforço e sacrifício é recorrente em escaladas deste tipo, assim como o da recompensa única, conforme podemos ver em um texto que eu próprio escrevi há dias atrás neste site: “E lá fomos nós,… em uma empreitada no meio de um dia quente e seco, horas a fio pernando em estradinhas abandonadas, trilhas, até chegar a um ponto, onde o único jeito possível de prosseguir era embrenhar-se em bambusais e subir e descer morros. Acesso nada animador…, a escalada se torna tensa e é com alívio que mais 60 metros, novamente com poucas proteções, se esticam…, no mais a tripe foi perfeita. Parceiros admiráveis, grandes escaladores, que curtiram a via que estavam fazendo. Absolutamente nenhum problema, nenhum arranhão, nenhum susto”3.
O texto anterior sugere algumas pré-condições para escaladores de grandes paredes que Antonio Paulo Faria, falando sobre Salinas, a mais acessível região de grandes paredes do Brasil, também ressalta, contribuindo assim para derrubar alguns mitos sobre grandes escaladas quando esclarece que “escalar nos 3 picos era um mito que durou longas décadas, em parte pela descrição sensacionalista de escaladores que passaram por maus momentos por lá. Mas é claro, em sua maioria, escaladores sem condição física e técnica” e eu diria mais, sem condição psicológica, pois ele mesmo esclarece adiante que “quando você começa a se acostumar com as agarras incríveis e a solidez da rocha, o fator proteção passa até despercebido”4.
Desta forma, na era do desempenho, a escalada de grandes paredes, em particular a abertura de novas vias, parece servir, então, como a forma destes escaladores, chamados a meu ver inadequadamente de “escaladores tradicionais” (na verdade são tão inovadores quanto qualquer um), se afirmarem frente ao público leigo ou até mais incisivamente, ao público especializado cada vez maior dos escaladores desportivos. Assim, o “grau de dificuldade”, olimpo dos escaladores esportivos, passa para um segundo plano, substituído pelo “grau de exposição”, que nos guias de escalada5 costumam expressar um subjetivíssimo grau de exigência psicológica de determinada via com relação ao espaçamento das proteções e risco ocasionado por uma queda (inclusive de morte).
Voltemos a frase anterior do Portela. Se a mais pura e honesta forma de se escalar uma montanha é a escalada solo (sem uso da corda) e se o risco de uma queda ocasionar morte neste tipo de escalada é altíssimo em uma grande parede, então, por um silogismo barato podemos deduzir que todo escalador de grandes paredes só busca honestamente a morte, certo?
Por mais contraditório que pareça, é o contrário. Na verdade talvez sejam estas experiências fortes, que justamente colocam o escalador de grandes paredes mais próximo de seus limites, onde a vida é vivida mais intensamente, seja em um solo ou em uma via com pouquíssimas proteções, o que atrai estes exploradores. Vejamos um parágrafo de Bito Meyer, decano dos escaladores em grandes paredes no Brasil: “a cada metro escalado estava perto de um grande acidente,… ou para ser sincero, perto da morte. Metro a metro tinha escalado uma das minhas mais difíceis vias, tínhamos conquistado a Face Sul da Pedra Riscada, uma via maravilhosa e que me gratificava com cada metro de rocha escalada. A “Cria Cuervos”, não é dessas vias que vale a pena repetir; se você tem consciência do risco envolvido, é melhor abrir outra via”6.
Assim, negando a própria criação, o escalador recria seu mito, mantém seu nicho de exclusividade frente a avalanche consumista que varre até mesmo o “solo sagrado” das montanhas. No meio termo entre escaladas acessíveis e paradisíacas e outras que parecem “coisa do demo”, como brinca Edmilson Padilha, outro destes grandes escaladores de grandes vias, percebemos que da leitura de escaladas em grandes paredes fica a impressão de que os escaladores são mortais pouco comuns e que se pagam suas penitências, também parecem flutuar e encontram suas dádivas divinas nas suas maravilhosas e contraditórias criações.
LEIA MAIS!
1 TERRAY, L. Os conquistadores do inútil. Lisboa: Editorial Verbo, V.1, 1977
2 PORTELA, A. . Corazón Caliente, brasileiros na Patagônia In: São Paulo, Headwall, a.1 n. 3, 2002, p. 39-45.
3 STRUMINSKI, E. Pico Paraná ganha nova via em estilo alpino. www.sitedodubois.com.br. 2007.
4 FARIA, A.P. Montanhas das longas noites. In: São Paulo, Headwall, a.4 n. 12, 2005, p. 60-65.
5 ZIPPIN NETO, D. & FRANZEN, R. Morro do Anhangava, guia de escaladas em rocha. Marumby editora. Curitiba, 2003.
6 MEYER, B. A conquista da face sul da Pedra Riscada. http://www.brasilvertical.com.br/l_escala.html. Acesso em 05/10/2007.
Andrey Romaniuk18/10/2007 19:39:46
Belas paredes, grandes palavras…
Olá Du Bois,
Lindo texto!
Andrey Romaniuk
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