Por Márcio Bortolusso
Acho impossível listar os principais acontecimentos dos anos dourados da Documentação de Montanha. Em cada canto do mundo indivíduos detentores de grande determinação e ousadia escreveram parte desta história, inicialmente pelo desejo dos escaladores de registrar suas aventuras, que contribuiu em muito na história mundial, tanto deste segmento de Documentação como do próprio montanhismo. Dentre alguns destes anônimos, destaque para G. A. Fowkes (com imagens raras de 1900) e do ávido escalador Guido Rey, que após iniciar-se na fotografia recebeu do Clube Alpino Italiano uma medalha de prata por suas imagens. Em 1893, Guido realizou difíceis escaladas e escreveu um livro sobre suas experiências e, em 1914, lançou “Alpinismo Acrobático”, um dos primeiros livros da história com fotos de escalada técnica.
Mas com certeza o maior mérito pela evolução deste segmento se deve a alguns indivíduos que realmente dedicaram parte de suas vidas em prol desta árdua e desafiante arte documental.
Harry Landis Standley (1881-1951) foi provavelmente o mais famoso fotógrafo das Montanhas Rochosas do Colorado, tendo fotografado por cerca de 50 anos os mais importantes picos desta cadeia de montanhas.
Já o lendário Henry Bradford Washburn Jr. (1910-2007), foi um explorador, montanhista, fotógrafo e cartógrafo extraordinário, homenageado com diversos títulos ao longo de sua carreira (medalhas de mérito do Rei Albert, da National Geographic Society, etc) pelo importante trabalho de mapeamento de regiões montanhosas. Especializado em fotografias aéreas, que lhe ajudava a planejar suas expedições, deu a volta ao mundo para elaborar os mapas mais precisos de locais como Grand Canyon, Chomolungma (ou Everest) e Denali (ou McKinley). Em 1935, liderou uma expedição da NGS ao Yukon (Canadá), mapeando cerca de 13 mil km quadrados de território que aparecia como “desconhecido” nos mapas, e em 1998, aos 88 anos, liderou outra que determinou que o ponto culminante da Terra era 2, 13 metros maior, media 8.850m. Além de publicar livros sobre seus feitos, não posso esquecer de dizer que Washburn esteve à frente da comunidade escaladora americana de 1920 a 1950, tendo realizado a abertura de importantes rotas e ascensões singulares em alguns dos maiores picos do Alasca. Em janeiro, partiu para expedições celestiais, após 96 anos de proezas.
Responsável por uma das mais importantes coleções fotográficas sobre escalada e montanhismo da história, Walter Hahn (1889-1969) é autor de imagens inacreditáveis de 1910 a 1950. Mas com certeza a escalada mundial deve muito aos irmãos escaladores George e Ashley Abraham (1870-1965 e 1876-1951, respectivamente), que eu considero como os primeiros Fotógrafos de Montanha da história, com um espetacular trabalho documental que se iniciou com a primeira foto da dupla, feita em 1890, e se estendeu até a década de 1920. As lentes dos Abraham Brothers, como eram conhecidos, registraram escaladas épicas nos primóridos do montanhismo e escaladores lendários, como o britânico Owen Glynne Jones (1867-1899, considerado “o pioneiro da Escalada Atlética”), a quem registraram intensamente de 1896 até a sua morte em 1899. Os Abraham também publicaram alguns livros e, apenas para ter uma idéia do quanto eles registraram e ajudaram na evolução da escalada em rocha da época, algumas de suas memoráveis primeiras ascensões registradas (com Jones, de 1897 a 1900), são hoje graduadas na escala inglesa como “Very Difficult” e “Severe”.
Estes e outros fotógrafos ajudaram a escrever a nossa história, registrando momentos ímpares dos grandes nomes da escalada mundial, pioneiros como Geoffrey Winthrop Young (1876-1958, célebre escalador e escritor), Archer Thomson (1863-1913, notável escalador devoto do On Sight), George Mallory (1886-1924, himalaísta pioneiro), Colin Kirkus (autor da primeira ascensão em estilo alpino no Himalaia, em 1933) e Oscar Eckenstein (1859-1921, um dos mais reverenciados de seu tempo).
Apenas dando um pequeno exemplo das pérolas imortalizadas por estes artistas, existem imagens que comprovam o porque Eckenstein é considerado como a primeira personalidade do Boulder, muito antes da era Sharma ou do finado veterano John Gill (o Brasil mal aboliu a escravatura e os caras já treinavam em blocos!). Escalador revolucionário, Eckenstein também é imortalizado durante as primeiras tentativas de escalar o Chogo Ri (ou K2, em 1902) e o Kanchenchunga (em 1905), duas das maiores montanhas do mundo. Lembrando que a escalada trágica do Chogo, onde 4 integrantes morreram em uma avalanche, é considerada como a primeira tentativa séria de escalar a “número 2”. O mais curioso destes registros é que em ambas expedições Oscar tinha como companheiro de cordada o enigmático e bizarro Aleister Crowley, considerado por muitos como o maior bruxo do século 20 (lembram daquele som do Black Sabbath?! Pois é…). Os diários do mago ocultista apontam Eckenstein como o seu grande mentor no alpinismo. Com certeza, se não houvessem fotos destas escaladas, que também incluem México e Alpes suíços e italianos, muitos duvidariam…
Para os brazucas que não conseguem imaginar a Fotografia de Montanha tão desenvolvida em tal época, basta lembrar da data das primeiras publicações sobre o gênero: Alpine Journal (1862), The Cairngorm Club Journal (1887), The Scottish Mountaineering Club Journal (1890) e The Climbers Club Journal (1898) são apenas alguns exemplos, sendo que algumas ainda na ativa.
Só pra se ter uma idéia, o Museu Suíço de Berna possui um acervo com cerca de 160 mil fotografias, que retratam escaladas audaciosas, os povos das montanhas e as mudanças dramáticas vividas no Alpinismo nos últimos 150 anos. A coleção inclui exemplares raros que representam o inicio da Fotografia de Montanha, por volta de 1860. Neste acervo, por exemplo, encontram-se imagens das primeiras mulheres alpinistas (no século 19, escalando de vestido) e do legendário alpinista e fotógrafo Dölf Reist, que produziu imagens como a dos primeiros suíços no Chomolungma – em 1956, a segunda e terceira ascensão da história, inclusive com a primeira fotografia convincente de um escalador no topo do mundo.
Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.