O cume do morro Anhangava, conhecido campo-escola paranaense tinha, até pouco tempo atrás, poucos atrativos para os escaladores, sendo uma área mais freqüentada por visitantes ocasionais do morro, religiosos e acampadores.
Com tudo isto, o cume desta montanha acabou acumulando impactos consideráveis: lixo, vegetação destruída, fogueiras, trilhas em péssimo estado. O cume do morro decididamente era uma área pouco atraente, tanto que apenas dois blocos para escaladas com corda de cima, ofereciam chamarizes para os poucos escaladores que se aventuravam neste ponto da montanha.
Após 1992, montanhistas tornaram-se moradores do Anhangava e a partir de 2002, o Anhangava e toda a serra do qual faz parte acabou virando um parque estadual. Estes fatos somados levaram a um lento processo para recuperar e modificar o uso do lugar. Neste ano de 2007 um dos mutirões do Adote uma Montanha foi feito neste setor da montanha, incluindo o cume, o que permitiu que várias atividades fossem realizadas como limpeza, plantio de árvores, corte de Pinus (espécie arbórea invasora no local) e calçamento de trilhas.
Um pouco antes disto, em 2005/06, tive a satisfação de orientar a monografia de especialização de Hebert Sato (31 anos), um montanhista que desenvolveu uma pesquisa antropológica com a “tribo” de escaladores do Anhangava e que, após isto, se mostrou cada vez mais interessado nas atividades que estavam acontecendo no morro, a ponto de me propor a abertura de um setor para escaladas no cume do Anhangava e, com isto, quem sabe, resgatar esta área para a prática esportiva dentro do espírito do que tinha sido feito em um outro setor chamado Interiores (que havíamos aberto em 2006), ou seja, a abertura de um setor de escaladas com equipamentos fixos de qualidade, mas também com cuidados ambientais que ainda não eram corriqueiros nos setores antigos abertos no Anhangava.
O NOVO SETOR, CUIDADOS AMBIENTAIS
Em abril de 2007 fizemos uma primeira investida no local. Uma trilha a partir de um bloco chamado Raízes foi feita passando pela base do novo setor, na verdade dois blocos separados por uns 50 metros de distância. Da mesma forma como havíamos feito no setor Interiores, esta trilha foi calçada com lajes e blocos de pedra existentes, na maioria no local e também reciclando algum material de uma construção demolida no cume. Árvores de Pinus foram cortadas e seus troncos aproveitados para contenções. Uma imensa quantidade de lixo começou a ser retirada: de escovas de dentes a cobertores, passando por panelas, lanternas, pilhas, garrafas pet, grelhas de churrasco, calçados velhos, plástico, discos de vinil, latas e muito vidro quebrado, inclusive nas paredes, algo suficiente para encher quatro grandes mochilas cargueiras. Também fizemos uma cuidadosa remoção e remanejamento de bromélias que estavam nas linhas de rapel da parede, pois poderiam sofrer com a queda de cordas. Estes cuidados ambientais mínimos, permitirão que o lugar possa ser utilizado permanentemente, com manutenção bem menor do que acontece nos outros setores do Anhangava.
AS ESCALADAS
A limpeza das bases e a montagem da trilha correu em paralelo com os sempre cansativos trabalhos de chapeleteação da parede, feitos, neste caso, com corda de cima. Participaram nos inícios dos trabalhos Thomás Alexandre Kämpf (26 anos) e Flora Kesselring (20) companheiros do setor Interiores. Outro parceiro da empreita foi Ermínio Gianatti (34), que com seu inesgotável bom humor e disposição contribuiu muito para o avanço dos trabalhos na parede e na trilha. Já Sato, com sua paciência oriental e eu, acabamos realizando o trabalho de formiguinha, persistindo fim-de-semana após fim-de-semana, carregando pedras, furando a rocha para as proteções, limpando o lugar… A Bonier nos cedeu material fixo e a Conquista equipamentos para repor o que gastamos na empreita. Mais do que meros patrocinadores, foram parceiros. Irivan Burda, da Bonier me deu uma série de esclarecimentos a respeito do material que colocamos na parede: resistência, qualidade, durabilidade. Segundo a avaliação dele, o material de inox deverá durar de 3 a 5 vezes mais que os grampos comuns, dependendo do ambiente em que for colocado. Isto pode significar uma vida útil longa, de 30 a 150 anos. Com Edmilson Padilha, da Conquista, que é um importante aberturista de vias da atualidade, compartilhei dúvidas sobre a criação deste novo setor. Ed foi uma das primeiras pessoas que convidamos a escalar no lugar.
O calor de abril induziu a sugestão de nomes que guardam grande atualidade com os acontecimentos atuais: setor Estufa e seus filhotes (vias de escalada), como: Captura de Carbono, Efeito Estufa, via Reciclável, S de Sufoco, etc, vias estas que alcançam graduação variada, de 5o a 7 b ou c. Escaladas de 20 a 25 metros que envolvem principalmente técnicas de regletes misturadas a aderências, comuns no granito do Anhangava. Foram montadas 3 paradas, mas o formato em meia laranja das paredes não permite um rapel livre de atritos. Assim, os escaladores devem estar atentos para o melhor ponto de descida da parede, podendo ser, inclusive, interessante deixar uma parada armada com mosquetões e fitas para evitar o desgaste das cordas. O uso da trilha ainda é o melhor meio de acessar o setor.
Embora 9 vias estejam chapeleteadas, foi possível constatar a possibilidade de variantes, cruzamentos entre as vias e cordas de cima, o que, na prática, amplia consideravelmente o número de escaladas possíveis de serem feitas a partir da estrutura instalada. Certamente o setor representará uma agradável contribuição para a escalada em rocha no Anhangava.
O FUTURO DA ESCALADA NO ANHANGAVA E NO PARANÁ
Da mesma forma como já havia acontecido com o setor Interiores em 2006, a abertura deste novo setor de escaladas no Anhangava gerou vários comentários favoráveis e algumas críticas.
Os comentários favoráveis dizem respeito a quem já teve a oportunidade de lá escalar e, com isto, de desfrutar de momentos agradáveis e do belo visual de cume, em um setor da montanha relativamente isolado do burburinho dos demais setores de escalada do Anhangava e em vias modernas e novas.
Já uma das críticas diz respeito ao fato de que com a abertura deste setor estaríamos desrespeitando uma moratória que a comunidade de escaladores promoveu no lugar para a colocação de proteções fixas e abertura de vias. A moratória aconteceu em 1997, em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação das tais proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.
Eu pessoalmente não entendia a moratória dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada e fechar tudo e sim como um estímulo à ação, de modo que estes problemas fossem resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido novamente um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.
Assim, durante alguns anos, aconteceram atividades intensas no Anhangava. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs estabilizados, vias clássicas regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que segue até hoje. Oficialmente o Anhangava participa do Adote uma Montanha. Também os equipamentos de escalada evoluíram e surgiram chapeletas de inox da Bonier, fixadas com parabolts do mesmo material, que garantem mais durabilidade e resistência para as proteções fixas na rocha.
Com tudo isto, a partir de 2005 novas vias começaram a ser abertas no Anhangava e em 2006 eu próprio participei da abertura de um setor inteiro de escaladas no local, o setor Interiores. Eu entendo que o fim da moratória para novas escaladas no Anhangava é um capítulo passado na vida do lugar, porém, acho que quem tiver argumentos sólidos contra isto deve usar o espaço deste blog para contra argumentar e com isto ampliar a discussão.
Uma outra crítica diz respeito ao fato de que com a abertura de novos setores não seriam deixadas para as “futuras gerações” mais escaladas novas para abrir no Anhangava. Esta crítica é procedente, pois matematicamente falando, o número de paredes e de vias possíveis de se abrir no lugar é realmente finito, como aliás em qualquer lugar, consequentemente cada via nova aberta hoje reduz o estoque futuro, um dilema, portanto, muito semelhante ao que a humanidade em geral enfrenta em relação ao uso dos recursos naturais do planeta.
Responder adequadamente a esta crítica, que aliás tem alguns pontos falhos, pode significar para o montanhismo a possibilidade de ajudar a humanidade na resolução dos seus dilemas maiores. Para isto necessitamos fazer algumas considerações: o que significa “futuras gerações” quando nos referimos ao montanhismo? A escalada é um recurso renovável?
As crianças aprendem a subir em coisas praticamente na mesma idade em que conseguem ficar de pé e andar, mas até que possam chegar ao ponto de amadurecimento necessário para abrir novas vias de escalada, com todos os riscos inerentes a isto, passam-se muitos anos. Assim, não é possível colocar uma criança de 10 anos para fazer isto, mas sim um jovem a partir dos 20, a faixa de idade de Tomi e Flora, por exemplo. Pessoas da geração deles estariam, então, amadurecidas o suficiente para abrir vias, estando eventualmente interessados em capturar o que eu tenho de conhecimento e aperfeiçoá-lo para as demais gerações, as que estão com 10 e zero anos, para quem eu (com 44 anos) possivelmente já estarei distante.
A troca de informações entre veteranos e jovens é interessante e pode ser ilustrada por um fato acontecido em uma das vias (Via da Raposa) deste novo setor. Via de regletes e aderência cheia de cristais quebradiços, inicialmente cotei em 7b e uma vez definida a linha de subida, acabei graduando a via em 7a ou menos. Todos os demais escaladores que tentaram a via, mais jovens que eu, graduaram inicialmente em 7c e até mesmo 8a. A que se deve tão disparatada diferença de graduações?
Certamente não a habilidades escaladorísticas, que meus colegas escaladores, mais jovens, tem em maior grau do que eu. Atribuo isto a diferenças culturais, “de gerações”. Na verdade, ao iniciar na escalada, no fim dos anos 70, eu e vários outros escaladores tínhamos como parâmetro de dificuldade máxima o 6o grau, que era feito com o antológico tênis kichute devidamente turbinado com solado de colarinho de pneu de caminhão. Calçado flexível e pouco preciso mas aceitável para escaladas de aderência (onde o bom posicionamento do corpo é mais importante que a força bruta), com o kichute fazíamos o 6o grau “fácil” e o 6o grau “difícil” (tinha ainda o 6o grau “não fiz”). Com o surgimento de calçados adequados, nos anos 80, o “não fiz” foi feito e começou a receber as graduações que estão aí hoje. Fazer aderência se tornou uma coisa “fácil”. Assim, para mim, os graus de dificuldade, para este tipo específico de escalada são bem menores do que para alguém que nunca teve a oportunidade de escalar com um tênis precário como eu. Mas para transmitir esta informação adequadamente e graduar uma via que não “apavore” escaladores iniciantes, ou não seja desacreditada pelos veteranos, é necessário a troca de idéias entre pessoas de várias gerações. Desta forma, acredito que mantenho um conhecimento “útil” para as novas gerações se estiver com eles nas paredes.
Vamos refletir agora sobre o segundo ponto. Teoricamente, se o número de vias é finito em um lugar, a escalada é, então, um recurso não renovável, o que significa que uma vez acabado o estoque de vias para abrir existentes neste lugar o interesse pela escalada deveria decair, correto? Aparentemente não, pois as novas gerações simplesmente estabelecem novas formas de se relacionar com este lugar, independente da existência de novas vias para se abrir, como nós próprios fizemos há 20 anos atrás com boulders e artificiais em livre. É por isto que a escalada mantém seu interesse passados tantos anos e em tantos lugares.
Assim, considero que não devemos subestimar a capacidade das novas gerações de reinventarem a escalada e, assim, manter vivo o esporte. Considero preferível ter esta posição otimista do que ter uma excessivamente conservadora e com isto congelar as possibilidade de avanço do esporte e de aperfeiçoamentos em tratos ambientais.
Este congelamento, aliás, é a principal consequência de uma falha no raciocínio “a abertura deste setor não deixará para as futuras gerações mais escaladas novas para abrir no Anhangava”. Pois apenas estaríamos transferindo este dilema para o futuro, para as tais futuras gerações que seriam, de novo, confrontadas com o mesmo raciocínio e com as mesmas restrições, sem contar, porém, com as experiências das gerações anteriores.
VEJA TAMBÉM: Croquis do setor nas fotos do site
Ed (conquista)09/08/2007 17:57:48
abertura de novas vias
Hola Du Bois,
Sobre a matéria que fala sobre deixar algo para as futuras gerações eu acho que as pessoas têm feito uma interpretação errada sobre o sentido desta afirmação.
Deixar algo intacto para as futuras gerações não significa deixar paredes intactas para que possam ser abertas vias. Significa não eliminar as possibilidades de evolução. Explico: por exemplo, bater chapeletas ao lado de uma fissura, cavar agarras…isto sim significa baixar o nível da via para o seu nível e reduzir as possibilidades de progresso do montanhismo.
A Southern Comfort, a via do Gülich na Pedra do Urubu, permaneceu por muitos anos esperando por uma cadena de um brasileiro. Se esta linha tivesse sido conquistada de uma forma sem critérios por um escalador que não escalasse 5.13, ou seja, qualquer escalador brasileiro na época, ela poderia ter agarras entalhadas ou qualquer outro artifício para reduzir o seu grau ao nosso nível na época. Isto sim podaria as possibilidades de evolução das gerações futuras.
Quando Cesare Maestri abriu a via do Compressor no Cerro Torre, ele fez exatamente isto, colocou uma quantidade de grampos (mais de 300) bem superior ao que seria realmente necessário (uns 50). Reduzindo assim drasticamente o grau de desafio da montanha, impedindo que as gerações futuras encontrassem uma montanha quase impossível e tornando-a muito mais “acessível”. Para se ter uma idéia, apenas 7 equipes teriam escalado o Cerro Torre até hoje se não existisse a via do Compressor!
O que eu acredito é que devemos ter critérios para abrir vias e tentar avaliar se esta linha que vou querer abrir não está muito acima de minhas possibilidades. E se não poderia ser aberta de forma mais limpa, masi desafiadora… Se no futuro não vai haver alguém que consiga escalá-la de forma mais interessante. E se a via que vou abrir em determinado setor pode agregar algo ao setor.
Eu acredito que se todos vissem a quantidade de rocha que nós vimos em um dia de exploração em Itararé e Sengés não se preocupariam com as gerações futuras…
Abraço,
Ed
Du Bois23/08/2007 15:26:22
novos setores
Acredito que o Ed toca em alguns pontos fundamentais da discussão sobre abrir ou não novos setores.
O primeiro ponto é a questão da ética associada à evolução do esporte. Se conseguir-mos produzir novos setores onde o desafio da escalada se mantenha intacto, independente da passagem do tempo, então as novas gerações terão um parâmetro razoável deste desafio e do que pudemos fazer hoje e, com isto, espero que se sintam desafiadas a fazer melhor.
O segundo ponto é o do esgotamento das possibilidades de novas vias. Isto vai acontecer, certamente em alguns locais, mas provavelmente o interesse irá conduzir os escaladores a novos points de escalada ainda não explorados, como o próprio Ed sugere.
Bom falar o que desta montanha maravilhosa como outras que temos em nossa Serra Paranaense.
Minha primeira montanha a ser acampada foi o Pão de Lo e o Anhangava foi minha primeira escalada.
Posso so fzr um comentario:
DIVINA
Como este trabalho de recuperação dela.
Parabens
Att
Alexandre