AVALIANDO O “ADOTE UMA MONTANHA”Edson Struminski (Du Bois) Lançado em 2002, durante o Ano Internacional das Montanhas, o Programa Adote uma Montanha tem âmbito nacional, desenvolvendo-se em diversas áreas montanhosas ao longo do país. Entre 2005 e 2006 acabei realizando uma avaliação do Adote no âmbito de projetos “sustentáveis” realizados na Região Metropolitana de Curitiba (STRUMINSKI, 2006). O Adote teve uma boa avaliação, mas pode ser aperfeiçoado em muitos pontos. Neste artigo estarei apresentando o resultado desta pesquisa e discutindo estes pontos aqui com vocês.Inicialmente é importante dizer que o Adote incorporou, na prática, atividades que os montanhistas já realizam de forma espontânea ou voluntária há décadas, dando uma feição mais organizada ou articulada a estas atividades.Este programa se justifica, conforme afirmam nossos colegas montanhistas RIBEIRO, LORENZETTO e RODRIGUES (2004), pois, em diversas iniciativas, os montanhistas mostraram-se parceiros da gestão de áreas naturais, principalmente no que se refere a manejo destas áreas ou mesmo na criação de unidades de conservação. O Adote apresenta como parceiros a nível nacional o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente, sendo que as informações sobre o programa estão no site da Federação Paulista de Montanhismo (www.femesp.org/adote/php). As federações estaduais de montanhismo atuam regionalmente através das suas instituições de montanhismo federadas (clubes, associações), que tem geralmente origem urbana e que trabalham em parceria com prefeituras municipais, ONG´s ambientalistas, associações de bairro, grupos escoteiros, empresas privadas e escolas de escalada. A adoção a que se refere o programa consiste em realizar várias atividades no decorrer do ano, algumas bastante simples, visando auxiliar na proteção e manutenção dos ambientes de montanha. Algumas das atividades sugeridas pelo Adote para os grupos participantes são:· Limpeza de trilhas – coleta seletiva de lixo, deposição de material reciclável em local onde haja coleta urbana (de preferência seletiva) e deposição de material não-reciclável em aterro sanitário.· Contenção de focos de erosão com técnicas apropriadas.· Organização e colaboração em campanhas de conscientização dos visitantes, principalmente em épocas de maior afluxo.· Desenvolvimento, organização e implementação de um sistema mínimo de sinalização para evitar impactos indesejados ao longo de trilhas.· Realização de cursos de interesse associados ao programa (ex: combate a incêndios em montanha, resgate a acidentados)· Sensibilização e mobilização das populações locais para a importância de apoiar e participar das ações propostas. A metodologia de trabalho do programa prevê a realização prévia de um levantamento das características e problemas da área escolhida com o objetivo de coletar dados e informações que permitam o delineamento de um plano de ação. Em seguida é prevista a elaboração de um Plano de Ação anual, com os seguintes itens: descrição detalhada da área, dos objetivos específicos e das ações propostas, cronograma de atividades, previsão de equipes de trabalho, previsão de materiais e de recursos necessários e, finalmente, previsão de um orçamento. O Plano de Ação é executado via parcerias, sendo os trabalhos realizados a partir de mutirões realizados por voluntários, em ambientes algumas vezes inóspitos e de difícil acesso, nos quais a prática e a experiência dos participantes, mais do que o próprio Plano de Ação, tem sido determinante para o sucesso do trabalho.Cada organização deve entrar previamente em contato com o proprietário das terras, ou o responsável pela unidade de conservação onde pretende atuar e obter a permissão para desenvolver as atividades da campanha. Em tese, o programa não executa ações em áreas onde a existe a cobrança de valores monetários para ingresso.Além destes aspectos organizacionais, o programa fundamenta suas ações na chamada “ética de mínimo impacto”, que conforme KUNREUTHER (2005) possui princípios que as pessoas adotam conforme seus valores e seu comprometimento com a conservação do ambiente natural e ARANTES (2005), considera fundamentada também na capacidade de auto-regulamentação dos excursionistas. Esta ética surgiu da constatação da existência de poluição e de destruição de áreas naturais promovida pelos excursionistas que freqüentam estas áreas, segundo www.pegaleve.org.br, que eu avaliei em um artigo anterior.Alguns resultados do Adote
Segundo o site (com atualização de setembro de 2005), este programa envolve 31 instituições que atuam em diversos estados da federação, congregando cerca de 2.000 pessoas filiadas ou simpatizantes em todo o Brasil, sendo, possivelmente, o mais amplo programa de educação ambiental em andamento no país. No Paraná algumas áreas recebem algum tipo de assistência regular destes grupos (Parque Estadual Pico Paraná; Parque Estadual Pico do Marumbi; Parque Estadual Serra da Baitaca; Serra da Melança, Pico Araçatuba e Serra de São Luiz do Purunã), havendo, neste Estado também ações no sentido de ampliação da segurança pública em áreas naturais, resgate e salvamento de acidentados e combate a incêndios florestais (www.fepam.org). Porém, a abrangência das áreas do programa e o número de pessoas ou da população envolvidas não são especificadas no site do programa. Um dos resultados obtidos no programa é o de que a educação ambiental vem sendo trabalhada a partir de questões cotidianas e comuns aos visitantes destas áreas de montanha. Eventualmente, com isto, ele também reduz a dicotomia urbano/rural. Segundo a coordenação do Adote, engajando-se no programa, o participante consciente tem a oportunidade de mostrar um bom exemplo de cidadania para o restante da sociedade. Avaliando o adote
A análise deste programa mostra que sua visão da natureza concilia princípios biocentristas (ética naturalista) com antropocentristas (uso de recursos naturais com mínimo impacto). Em função disto, a sociedade é vista como promotora de danos ambientais como poluição (lixo, poluição da água, etc) e destruição de áreas naturais (danos em trilhas ou na vegetação das montanhas), assim, os trabalhos de educação ambiental apresentam o enfoque da mudança de valores individuais. Por outro lado, o programa procura favorecer a conservação da natureza através do voluntarismo, estimulando mutirões. Minha prática com o Adote aqui no Paraná mostrou que a informação científica, que poderia trazer mais valor aos trabalhos (em comparação com outros projetos dos quais participei), é usada de forma limitada, em trabalhos disciplinares (eventuais mapeamentos das áreas onde serão realizadas intervenções), de modo que nem sempre é possível realizar uma avaliação de resultados a contento.Assim sendo, do ponto de vista do discurso, este programa fundamenta sua sustentabilidade social e ambiental com base nos seguintes princípios:
Uma mistura entre uma ética naturalista “verde” e humanista cartesiana, que preconiza o uso de tecnologias limpas, o uso de recursos renováveis, a mudança de valores individuais e aspectos como solidariedade, cooperação, voluntarismo e fortalecimento de relações entre grupos e pessoas, estendendo estes princípios a entidades naturais como, animais, plantas, rios, montanhas, etc. A utilização limitada de conhecimentos provenientes da ciência cartesiana A valorização de iniciativas individuais e de grupos esclarecidos para a resolução de problemas (ética de mínimo impacto), mediante pequenas reformas, com participação limitada das instituições governamentais, dentro dos princípios do liberalismo social.Por ser realizado por uma comunidade limitada de excursionistas/montanhistas, ou seja, com foco voltado mais para os visitantes de áreas naturais do que para os moradores destas áreas, o Adote mantém um diálogo, apenas limitado, com a sociedade, através principalmente de listas de discussões na internet e da participação de interessados em mutirões. Ele procura legitimar-se frente a sociedade, através da construção da cidadania proveniente de práticas democráticas desenvolvidas em campo. Eventualmente os grupos participantes praticam também o chamado “diálogo de saberes” (LEFF, 2000), mantido entre os participantes entre si e entre os detentores de saberes populares e científicos que eventualmente participam do programa. Ao agir indiferentemente, em áreas públicas ou privadas, o programa valoriza os direitos coletivos, ampliando sua sustentabilidade social. Por outro lado, ele busca a sustentabilidade ambiental mediante o uso e gerenciamento responsável (conservacionista) dos recursos naturais. Neste gerenciamento, o programa procura produzir ganhos ambientais (por exemplo melhora da qualidade da vegetação, ou da água; redução da erosão de trilhas) das áreas abrangidas. Pode-se concluir, portanto que a proposta de sustentabilidade do Adote é condizente com seus objetivos de proteção e manutenção dos ambientes de montanha.
O programa depende de doações de materiais e de transporte de empresas, particulares ou de instituições governamentais para realizar suas atividades. A mão-de-obra é voluntária. Como ele não tem objetivos econômicos (fraca sustentabilidade econômica), percebe-se que uma das suas grandes dificuldades é a incorporação de mão-de-obra braçal para manter a continuidade dos trabalhos e de técnicos qualificados para coordenar atividades em áreas que exigem grande desgaste físico e possuem alta diversidade biológica e fragilidade ambiental e, portanto, demandam um diagnóstico mais bem elaborado. O Adote também tem dificuldades na valoração dos seus serviços junto à sociedade.Devido a postura meramente reformista do Adote (herança da nossa cultura liberal), ele acaba se tornando realmente bastante limitado. Porém, suas limitações poderão ser sanadas mediante maior profissionalização e aperfeiçoamento da captura do conhecimento já elaborado, que tanto pode ocorrer no âmbito dos projetos de cada instituição, o que é mais fácil, ou a nível nacional, o que traz maiores dificuldades em organização e comunicação, mas facilitaria a obtenção de recursos em empresas e fundos de financiamentos de projetos ambientais. Outro caminho interessante para o Adote é envolver comunidades locais nos trabalhos. Tudo isto demanda dedicação e primeiros passos, muitas vezes voluntários. Mas é um caminho interessante. Com tudo isto, a meu ver o Adote é, de fato, um programa de sucesso, pois trouxe benefícios mensuráveis para os ambientes onde atua e gerou uma cultura de cuidados com as montanhas. O cruzamento das éticas naturalista e humanista é muito rico e promove uma síntese onde a natureza das montanhas sai ganhando e seus frequentadores também. Um pouco de reflexão e ação poderão transformar este programa em algo bem melhor
VEJA TAMBÉM!
STRUMINSKI. E. Os discursos sobre a sustentabilidade, no Brasil e na região Metropolitana de Curitiba, de 1500 aos dias atuais. Curitiba: Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento), Universidade Federal do Paraná, 2006. 218 p.RIBEIRO, K.T., LORENZETTO, A e RODRIGUES, C. Bases para o manejo de escaladas em unidades de conservação. In: Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, IV. 2004, Curitiba. Anais. Curitiba: FBPN/REDE Pró UCs, 2004. p 335 a 345. KUNREUTHER, F. Princípios gerais de conduta para atividades ao ar livre. Guia do aventureiro consciente, São Paulo, n.1, p. 6 – 7, 2005.
ARANTES, B.C. Ética e mínimo impacto na escalada. Guia do aventureiro consciente. São Paulo, v. 1, p.9, 2005.LEFF, E. Complexidade, interdisciplinaridade e saber ambiental. In: Interdisciplinaridade em ciências ambientais. São Paulo: Signus, 2000. p 14 – 22.