Edson Struminski (Du Bois)
O setor de escalada Interiores, no Anhangava, foi aberto em janeiro e fevereiro de 2006, sendo apresentado ao público escalador durante o Blox em sua primeira edição no Paraná, em maio daquele ano.
Passado um ano após sua abertura, já é possível fazer uma avaliação do que ele trouxe de positivo para o Anhangava, para o montanhismo e seus eventuais impactos negativos, de modo que possamos aproveitar sua experiência em outras montanhas e setores de escalada.
Inicialmente é importante lembrar que este setor acabou sendo alvo de uma saudável polêmica, que dizia respeito a necessidade de se manter, ou não, uma “moratória” de abertura de novas vias de escalada, ou até mesmo de colocação de novos grampos ou proteções fixas no Anhangava. Esta moratória existia em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação de proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.
Lembro-me de ter comentado que a moratória poderia ser, então, entendida dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada, ou pelo contrário, como um estímulo à ação, de modo que estes problemas pudessem ser resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.
Muitas atividades foram realizadas no Anhangava neste período. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs estabilizados, vias clássicas foram regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que mantêm-se através de iniciativas individuais expontâneas. Esta cultura difundiu-se para outros lugares como Pico Paraná, Marumbi, São Luis do Purunã, Morro do Canal.
Neste período, tornou-se importante a realização de um diagnóstico ambiental em qualquer tipo de intervenção nas montanhas, bem como de ações preventivas e minimizadoras do nosso impacto, como escaladores, nestes ambientes. Também novos equipamentos fixos começaram a surgir. A empresa Bonier, de Curitiba, apresentou um sistema inovador de proteções fixas, compostos por chapeletas de uma e duas abas (para rapel) fixadas com parabolts, materiais produzidos em aço inox, adaptados para uma cultura de escalada desportiva que utiliza costuras completas (dois mosquetões e uma fita expressa) e que foram utilizados no setor Interiores.
Além de equipar várias vias, constatamos que seria importante calçar a base da parede para protegê-la contra a erosão, realizar um calçamento mais modesto do cume da parede até a rampa de pedra de acesso ao setor das Capitais (para a eventualidade dos escaladores saírem andando até aquele setor) e também realizar algumas contenções e calçamentos preventivos na trilha de acesso à base (200 metros), que seria aberta a partir da trilha que dá acesso ao bloco das Caverninhas. Foi o primeiro setor aberto no Anhangava já com estas melhorias incluídas.
Outras melhorias ambientais foram acrescentas no lugar: foram cortadas árvores de Pinus (cujos troncos foram usados nas contenções) e retiradas moitas de painas, ambas espécies invasoras deste ambiente montanhoso. Bambus e samambaias (espécies oportunistas propensas a causar incêndios) foram cortadas e usadas nas trilhas. No seu lugar foram plantadas árvores. Uma grande quantidade de lixo de décadas passadas foi retirada, lixo este fruto do descaso de visitantes que passaram na trilha normal, situada alguns metros acima na montanha. No lugar de derrubar os platôs de vegetação que estavam na linha das escaladas, houve uma retirada cuidadosa e recolocação em locais seguros desta vegetação.
A vegetação da trilha foi o componente do ambiente que adaptou-se mais rapidamente à nossa presença e com a retirada de espécies oportunistas houve até ganhos. Já as linhas de rapel afetaram alguns tufos de bromélias menores que escaladores menos cuidadosos não souberam evitar. A maior parte da vegetação da parede, porém, não foi afetada por não estar próxima nem de linhas de subida, nem de descida.
O fator novidade e a presença de duas vias “familiares”, com graduação baixa, provocou grande fluxo de escaladores nos primeiros momentos do setor. A base da parede teve de ser ampliada em uns 5 metros quadrados e calçada com novas pedras. Os calçamentos preventivos na trilha de acesso à base funcionaram e apenas dois pontos precisam de alguma manutenção. Um deles, na verdade, no trecho que vai até o bloco das Caverninhas.
A rocha da parede foi o componente do ambiente mais visivelmente afetado. A base da parede é composta por um granito muito intemperizado, com grande quantidade de agarras e cristais quebradiços. As escaladas afetaram esta parcela da rocha e a passagem humana é bem visível por ali. Já as partes superiores da rocha praticamente não apresentam mudanças. A quantidade de lixo deixada no lugar por estes escaladores é, no entanto, insignificante. No Anhangava é um tipo de visitante que costuma deixar os lugares mais limpos do que quando encontrou.
O material de inox colocado na parede tem resistido bem ao tempo. Não provocaram manchas na rocha e sua visibilidade facilita as escaladas. Após alguns meses alguns parabolts tiveram suas porcas reapertadas e tiveram incluídas arruelas de pressão.
Atualmente o setor já está incorporado como roteiro de escaladas no Anhangava. Não houve um “boom” de abertura de novas rotas, como se temia, pelo fato de ter sido aberto um setor com um número de vias tão amplo. A maioria dos escaladores parece simplesmente estar interessada em usufruir do lugar sem maiores preocupações em abrir vias ou em ter de se incomodar com manutenções pesadas em trilhas. Sentem-se agradecidos por alguém fazer o trabalho pesado, de modo que eles possam usufruir seu lazer em paz. O setor inclusive brinda estes escaladores com uma paisagem interessante e calma.
Mesmo assim o setor Interiores acabou criando alguns novos conceitos no Anhangava que ainda estão sendo assimilados: a abertura de um setor com todas as vias possíveis de serem abertas já devidamente equipadas. Isto incomoda alguns escaladores que gostariam de deixar vias em aberto. Ele também trouxe a idéia de que o ambiente do lugar merece cuidados tão importantes quanto a segurança dos escaladores. Isto significa desprender um esforço extra em atividades que não necessariamente serão percebidas pelos demais frequentadores do local, como calçar trilhas ou remover lixo.
De modo geral o resultado foi positivo para o lugar. Os benefícios foram grandes para o esporte e para a montanha e os impactos negativos são minimizáveis.
Du Bois28/06/2007 15:24:24
interiores
De fato Daniel, a experiência do Interiores é útil pela possibilidade de acompanhar do zero um setor.
Na medida do possível eu e algumas pessoas tem feitos pequenas manutenções na trilha. O ideal é que quem for até o setor já leve algumas pedrinhas consigo e vá assentando no trecho.
Durante algum próximo mutirão poderá ser feito um trabalho com ferramentas, inclusive no acesso às Caverninhas.
Abraços
Du Bois
Du Bois24/07/2007 15:16:10
trilha de acesso e base das vias
Então Nogarolli, neste último fim de semana dei uma passada com uma enxadinha e já foi possível resolver estes problemas.
Daniel Nogarolli27/06/2007 21:08:31
Trilha de acesso e Base das Vias
Salve Du Bois, parabéns pelo site!!
Seguinte, fazia uns tempos q nao ia ao Interiores…
1 – notei q a trilha de acesso precisa de uma manutençãozinha, um pouco antes de chegar nas primeiras vias, no trecho onde a trilha é mais íngrime, está um pouco instável e parece q a erosão vai começar…
2 – na base das primeiras vias, as mais fáceis, bem junto à base da parede o solo está cedendo, e muito! parece q alguma coisa urgente terá de ser feita!!
levantei as questões e me voluntario a ajudar!
abraço
Daniel Nogarolli