Edson Struminski (Du Bois)
Pega Leve, é uma iniciativa voltada para a educação ambiental do CEU, Centro Excursionista Universitário, de São Paulo e do WWF, ong ambientalista de origem norte-americana, sendo dedicada a orientar procedimentos de visitantes de áreas naturais. Para estas instituições, pegando leve você estará ajudando a proteger o meio ambiente, dando maior prazer a sua visita e prevenindo acidentes.
Estas instituições definem esta iniciativa como uma “ética do mínimo impacto”, cujos princípios estão disponíveis através de publicações ou de site na internet.
Pega Leve apresenta virtudes e alguns problemas. Este artigo analisa aspectos positivos e negativos do Pega Leve e pretende trazer uma contribuição para o aperfeiçoamento desta ferramenta educativa.
OS FUNDAMENTOS DO PEGA LEVE!
Pega Leve, segundo um texto que aparece na Revista de montanhismo Headwall (2003), é “dedicado a construir a conscientização, apreciação e o respeito pela biodiversidade”. Os autores de Pega Leve consideram que “a ética e as práticas de mínimo impacto estão sendo adotadas em todo o planeta”, comentam ainda que estão apresentando uma base voltada para os principais biomas brasileiros, para esta ética de mínimo impacto.
Podemos perceber no discurso de Pega Leve diversos valores. Encontramos o valor humanista (“seja cortês”, “ou cuide das trilhas”), o estético (“aprecie sua beleza no local”), ou mesmo o valor negativista (“animais podem transmitir doenças”). O principal valor, que permeia boa parte do discurso pegalevista é, porém, o naturalista, aquele que prega o convívio com a natureza de modo que o ser humano não quebre a “harmonia dos ambientes naturais”.
Há uma tentativa, nesta ética de mínimo impacto, de fazer vale-la para diferentes atividades realizadas na natureza como montanhismo e canoagem (que possuem, de fato, ética bem embasada neste sentido), espeleologia (com sólidos princípios científicos) e corridas de aventura (uma atividade na natureza recente e voltada para a competição).
Com isto, surgem perguntas que este artigo tentará responder: Pega Leve é mesmo universal? Representa, de fato, uma nova ética? Suas propostas são, de fato, aplicáveis?
Para entender os fundamentos do Pega Leve, realizou-se a leitura do livro “Ética e educação ambiental”, de Mauro Grün (1996). Esta obra mostra as visões humanas da natureza sob o enfoque de duas formas de pensamento, que estão presentes no Pega Leve. A primeira derivada da chamada doutrina cartesiana, que enxerga a natureza através de um viés utilitarista ou dominionístico.
Dentro desta ótica, a natureza é ausente, distante, tem valor de uso (recursos naturais) ou tem valor negativo (poluição, degradação, impacto). O humanismo cartesiano prega o domínio humano sobre todas as coisas e criaturas, consequentemente sua separação da natureza. Com isso, todo um corpo de saberes ecologicamente sustentáveis é deixado de lado por não ser científico. Ele foi criado em um momento (século XVII) em que a sociedade precisava conhecer melhor a natureza (através da ciência) para melhorar a qualidade da vida das pessoas, que neste período era bem precária. O grande paradoxo e entrave deste enfoque é a supervalorização da ciência, em última análise a grande responsável pela degradação ambiental do mundo atual.
A segunda forma de pensamento vem da escola naturalista (uma reação ao cartesianismo surgida no início do século XIX), que é antropomórfica, holística, orgânica, nostálgica, feminista (mãe-natureza), antimodernista, hipermodernista, sobrevivencialista e alienada. Nesta visão a natureza é supervalorizada ao ponto de excluir o ser humano, que é considerado o “cancer do planeta”.
O professor Carlos Diegues, vai mais longe. Para ele, este naturalismo reativo exerceu grande influência nas políticas e estratégias de proteção à natureza, particularmente na criação de unidades de conservação, que seriam então grandes áreas reservadas e colocadas à disposição das populações urbanas para recreação. As áreas naturais protegidas (inclusive as brasileiras), seguiram este modelo, criado em meados do século XIX nos Estados Unidos.
Mesmo que não se concorde integralmente com estas teses, pode-se constatar que são faces da mesma moeda. Assim, quando Pega Leve explica a que veio, elas fazem sentido, vejamos: “nesses locais (parques, etc) onde a natureza precisa ser tratada com cuidado e respeito, não é possível realizar trabalhos de limpeza e recuperação como acontece nas cidades”. Um discurso onde fica claro que o lugar do ser humano é no meio urbano, onde aconteceriam (?) os tais trabalhos de limpeza e recuperação, sendo a natureza algo idílico, distante, para lazer, mas que não se recupera se for degradada, o que não é verdadeiro.
Uma terceira doutrina ou forma de pensamento que pode ser identificada em Pega Leve relaciona-se com a busca pela regulamentação da liberdade do visitante das áreas naturais, o que é demonstrado pelo aspecto normativo que esta iniciativa apresenta.
Esta forma de tratar o convívio humano com a natureza deriva do chamado Positivismo, uma das doutrinas que fundou a sociologia e passou a dominar o pensamento típico do século XIX.
O positivismo leva a um mundo de certezas, em que nossas convicções provam que as coisas são somente como as vemos e não existe alternativa para aquilo que nos parece certo.
Como o individualismo é limitado, os atos da vida são estreitamente regulados e toda a liberdade moral severamente reprimida, pois que é incompatível com a ordem social.
O PIOR DO PEGA LEVE!
Apesar do seu fundamento naturalista, Pega Leve resvala às vezes para a estranheza com a própria natureza como em: “animais silvestres podem transmitir doenças graves”. Este fato, se não é de todo falso, revela no mínimo uma inverdade. Afinal não tem sido os animais os principais perdedores nos contatos com os humanos? Cartesianamente falando, o recado é claro: afaste-se dos animais, nós somos humanos!
Já ao tratar do espinhoso tema do próprio convívio humano, Pega Leve mostra dificuldades difíceis de superar por quem pratica esta ética: “evite viajar para áreas populares durante feriados e férias”, recomenda-se, mas não seriam estas áreas as que mais precisariam de divulgadores do mínimo impacto? “Trate os moradores da área com cortesia e respeito… comporte-se como se estivesse visitando uma casa alheia”, mas afinal, o visitante está ou não visitando casa alheia? E assim por diante.
Vejamos finalmente a seguinte frase: “fogueiras empobrecem o solo, enfeiam os locais de acampamento e representam uma grande causa de incêndios florestais”. Independente da verdade contida nestas afirmações, talvez seja esta a frase que melhor defina o que é o Pega Leve. Fogueiras são feias (?), lavar panelas no rio é errado, camisetas coloridas “quebram a harmonia dos ambientes naturais”. Ora, o certo e o errado, o bonito ou o feio presentes nestas ações corriqueiras são domínio daquilo que poderia ser chamado de moral, bons costumes, um resultado mais modesto frente a pretensão da criação de uma nova “ética de mínimo impacto”.
Finalmente, Pega Leve nos diz que as atitudes apresentadas são genéricas e muitas escolhas dependem do seu bom senso o que é muito bom. No entanto na tentativa de criar uma “ordem” dentro do uso de áreas naturais surgem afirmações bem pouco genéricas como: “viaje em grupos de até 10 pessoas”, “acampe a pelo menos 60 m de qualquer fonte de água”, “tenha em sua mochila um plástico ou tecido laranja de pelo menos 2 m2” (para emergências),“ cave um buraco de pelo menos 15 cm a pelo menos 60 m de qualquer fonte de água” (para suas necessidades) e assim segue… São recomendações cuja objetividade é duvidosa, pois são pouco práticas e conforme a circunstância, nada recomendáveis.
Assim, como seria a aplicação do Pega Leve? Imaginemos um grupo de excursionistas conscientes realizando uma longa travessia (6 a 7 dias) pelas nossas montanhas tropicais onde seriam usados caminhos naturais como rios e cristas de montanhas para caminhar e os pernoites seriam feitos sem a necessidade de abrirem-se clareiras porque seriam utilizadas redes postas em árvores nas margens dos rios no lugar de barracas, ou bivaques em terrenos rochosos.
Imagine-se agora um pegalevista junto. Para manter suas convicções, ao final de 6 dias este personagem teria produzido algo como 100 cm de buracos abertos para suas necessidades e realizado entre 400 a 2400 metros a mais de caminhada (e trilhas abertas em lugares instáveis), com o risco de perturbação dos tais animais perigosos, apenas para atividades como lavar panelas, acampar, fazer necessidades, etc. Enfim, pelo desconhecimento da forma como o ambiente absorvia sua presença e também pela rejeição ao modo como o grupo de montanhistas ao qual estaria agregado se relacionaria com o ambiente, o nosso excursionista pegalevista poderia se tornar uma inesperada fonte de degradação ao ambiente frágil que estaria frequentando e risco aos colegas, tudo aquilo do qual Pega Leve é, afinal, contra.
Ao final da aventura, mesmo com estas evidências, o pegalevista estaria convicto de que teria feito o certo, pois teria seguido tudo o que o Pega Leve prescreve. O restante do grupo , ao contrário, teria se valido da sua percepção e experiência para deixar o menor impacto possível e pouquíssimos traços da sua passagem.
Pode-se argumentar, entretanto que Pega Leve se destina a excursionistas com menos prática ou com formação deficiente em termos de trânsito em ambientes naturais. Vamos imaginar então 100 excursionistas acampando em uma área natural. Mesmo neste caso, porém, pode-se imaginar que os resultados finais da universalização da aplicação das práticas prescritas no Pega Leve levariam o caos a este lugar, com danos ambientais e a uma progressiva alienação dos excursionistas em relação ao ambiente que frequentam, cada dia mais degradado. Uma simples intervenção “cartesiana” (a construção de um banheiro rural), esteticamente menos agradável, seria, porém, infinitamente menos degradante.
O MELHOR DO PEGA LEVE!
Uma das grandes contribuições do Pega Leve é, sem dúvida, desmontar direta ou indiretamente, alguns mitos consagrados, como o de que o turismo em áreas naturais é “uma indústria limpa”, ou de que o montanhismo ou outros esportes na natureza não causam impacto.
Isto abre a possibilidade de buscarmos, de fato, construir um turismo que respeite o enorme patrimônio natural do nosso país sem degradá-lo ou desfigurá-lo. Pega Leve sugere corretamente também que esta forma de turismo se realiza através de uma rede integrada virtuosa, que inclui, em uma ponta, o próprio turista e na outra guias, populações locais, pesquisadores, etc. O turismo passaria então, de mais um mero produto de consumo, a uma experiência de vida.
Uma segunda e importante contribuição do Pega Leve está em agrupar alguns princípios naturalistas (ou de mero bom senso) que possam nortear a experiência dos visitantes de áreas naturais. Excluindo-se os excessos que foram comentados anteriormente, pode-se dizer que planejar as excursões, trazer o lixo de volta ou respeitar os animais, entre outros princípios sugeridos pelo Pega leve são válidos e úteis e devem mesmo ser difundidos.
Finalmente e isto é muito importante, Pega Leve estimula e incorpora (embora não como um princípio) recentes visões humanistas com relação à natureza, o que abre espaço para a formulação de uma ética “humanista-naturalista”, que reúna os melhores valores que estas duas visões da natureza possuem. Isto significa apoiar as ações voluntárias que movem céus e terras para recuperar trilhas, limpar montanhas ou apagar incêndios em áreas naturais, tudo isto em prol da manutenção de atividades em harmonia com a natureza, mesmo que, ironicamente, estas atividades sejam aquelas onde mais se pega pesado, pois reúnem dezenas de pessoas na forma de mutirões. Porém, são pessoas que refletiram sobre o uso dos ambientes naturais e exercem sua cidadania.
CONCLUSÕES
Pega Leve não representa necessariamente uma ética de mínimo impacto (ou qualquer ética nova), simplesmente porque esta ética já existe de fato, é a chamada ética “naturalista”, cuja origem remonta aos gregos antigos e vem sendo reformulada ao longo do tempo.
Uma leitura mais atenta sugere inclusive que Pega Leve apenas represente um código de regras morais (certo ou errado, bonito ou feio), que refletem uma visão urbana idealizada da natureza, um conjunto de normas de conduta para ambientes naturais com formulação técnica as quais gerariam um suposto mínimo impacto. Isto é problemático pois representa um enorme presente para as instituições formais governamentais que regulam e restringem o acesso das pessoas aos ambientes naturais. Estas instituições não terão, assim, de realizar a antipática tarefa de produzir sozinhas estas regras e impô-las aos visitantes, pois as organizações não governamentais já estariam fazendo este trabalho desagradável por elas.
Embora a intenção de Pega Leve em orientar o uso de áreas naturais seja a melhor possível, suas contradições podem torná-lo, não só inócuo, como inclusive fonte de degradação da própria natureza que pretende proteger e alienação dos humanos com relação à natureza, razão pela qual deveria ser melhor discutido antes de ser adotado em escala mundial, como se pretende.
Como aspectos positivos do Pega Leve, está a admissão de que o turismo, ao contrário do que se vende por aí, é de fato uma indústria impactante (e que por isso demanda novos princípios). Pega Leve também apresenta uma formulação de princípios e fundamentos éticos valiosos, que uma vez aperfeiçoados, poderão fundamentar a presença humana em áreas naturais.
Como na verdade Pega Leve sugere que as atitudes propostas por ele sejam genéricas e muitas escolhas dependem do bom senso dos visitantes, pode-se deduzir que está aberto à avaliação constante e às éticas locais. Isto é muito mais importante do que normas fixas e pode transformar o Pega Leve na principal iniciativa para transformar o turismo em grande aliado da conservação de áreas naturais, caso incorpore este espírito local.
VEJA TAMBÉM!
CEU, WWF. Montanhismo de Mínimo Impacto. Revista Headwall, São Paulo, no 8, novembro/dezembro 2003.
CEU, WWF. Mínimo Impacto em Ambientes Naturais. (fouder).
Grün, M. Ética e educação ambiental. Campinas: Editora Papirus, 1996.
DIEGUES, A.C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 2001.
Milton Dines28/06/2007 12:20:44
Pega Leve!
Olá Du Bois,
Antes de mais nada, um grande VIVA pela sua iniciativa de lançar um espaço para a discussão do montanhismo. Discussão ética, filosófica, política, antropológica, social, técnica … e o que mais vier, é o que estamos precisando.
Apreciei também sua análise sobre o Pega Leve! Demorou quase cinco anos para alguém produzir uma análise crítica sobre esse tema, mas saiu!
É obvio que a abordagem do tema é positivista e naturalista, o que leva a um certo maniqueísmo que, por sua natureza intrínseca, não escapa da armadilha de apontar certos e errados. Mas, se fossemos relativizar todos os aspectos e abordagens possíveis sobre o tema, acho que não teriamos produzido qualquer coisa.
De qualquer forma, sem intenção de produzir uma nova ética, mas de difundir um conjunto de princípios e práticas que formem alguma ética no crescente número de “aventureiros” de origem urbana (sim, a publicação foca nesse público que se dirige para atividades na natureza “intocada”, seguindo um conjunto de mitos modernos que nem o Diegues conseguiu destrinchar adequadamente), o Pega Leve! está na rede para ser divulgado, praticado, criticado e revisto.
Afinal, não passa de uma proposta para um código de conduta, que esperamos um dia se torne obsoleto em vista da melhor compreensão da relação homem-ambiente na atividade turística. Embora não haja qualquer pretensão que se adote o Pega Leve! em escala mundial e nem mesmo que se pratique suas recomendações sem uma avaliação da pertinência a cada caso e local, e enquanto aquela relaçao não melhora, Pega Leve! você também.
Em tempo: toda sugestão de melhoria é bem vinda.
Forte Abraço,
Milton Dines
Pega Leve!
CEU
Agradeço
pega leve
Milton agradeço sua leitura atenta e aprecio sua visão otimista de podermos um dia, quem sabe, até mesmo prescindir de ferramentas como o Pega Leve.
Mas por ora, vamos tentando melhorar o que temos hoje.
Um grande abraço
Du Bois
Olá!
Fico muito feliz quando vejo discussão sobre ossunto. Minha pesquisa, dissertação de mestrado é sobre a conduta de mínimo impacto e aprendi um monte por aqui. Já tenho algum contato via email com Milton Dines e Dubois, veio pra Londrina ministrar uma palestra no encontro de escalada. Penso que não lembra de mim.
Preciso de artigos sobre o assunto!! por favor, me enviem!!
abraços
Cláudia