Edson Struminski (Du Bois)
A estiagem que está se tornando comum nos últimos invernos em Curitiba, capital do Estado do Paraná, fez aparecer algumas peças do quebra-cabeças metropolitano desta cidade. Uma das menos conhecidas é o Parque Estadual da Serra da Baitaca, em Quatro Barras e Piraquara. Criado em 2002 por decreto estadual, em uma área com cerca de 3.000 ha de ambiente de Floresta Atlântica, o parque deveria ter sido desapropriado e entregue ao Estado como compensação pelo impacto do Contorno Leste da BR-116, obra do Dnit que tirou o tráfego pesado de Curitiba e aproximou-o da serra. A obra foi feita e liberada, mas a compensação não veio e a dívida com o Paraná persiste.
Instituições não-governamentais e empresas ligadas à Serra do Mar financiaram um estudo sobre o parque que revelou alguns fatos importantes. O parque é peça-chave no abastecimento público. Duas represas em funcionamento (Piraquara 1 e Iraí) e mais uma em construção (Piraquara 2) recebem água da região. Além disso algumas das nascentes do parque abastecem a represa do Capivari (energia elétrica). O estudo gerou o “Dossiê Baitaca”, onde foram levantados usos públicos e projetos governamentais, não governamentais e da iniciativa privada recentes relacionados ao parque, bem como foram identificados os problemas e algumas de suas demandas.
A área do parque foi decretada zona bloqueada para mineração, mas as mineradoras vizinhas apresentam, segundo a Mineropar, orgão dedicado à pesquisa mineral do próprio governo do Estado, alta sonegação da produção e, conseqüentemente, de impostos recolhidos, o que levaria à concentração de renda à mão de poucos e a degradação do ambiente para todos. As mineradoras estão nas nascentes, fora do parque, mas no caminho da represa do Iraí. Por outro lado, mineram um produto que é considerado básico e mesmo essencial para o pleno crescimento das cidades: a pedra brita. As mineradoras ajudam a tocar a economia de Quatro Barras, pequena cidade na constelação da Região Metropolitana de Curitiba e que paga o preço de ser vizinha da metrópole. Uma das tradições locais é a subida anual ao morro Anhangava, cume do parque, para uma missa campal. Anos atrás a missa se resumia a 100 romeiros que subiam para um terço sem maiores consequências para o lugar. Nos últimos anos o evento foi incluído no calendário turístico municipal e a mídia explorou o acontecimento. Resultado: uma explosão de gente e conflito garantido com órgãos ambientais. De um lado políticos locais afrontando o governo do Estado, degradação em áreas sensíveis de montanhas e riscos assustadores de acidentes. De outro, o Estado impondo multas e proibições e colocando a população potencialmente favorável ao parque em posição inamistosa. Ao longo dos anos as negociações foram difíceis pois o parque só está no papel. Somente em 2007 as negociações avançaram e a missa foi realizada na serra, porém em um cume secundário e com o número de pessoas limitado pelos orgãos ambientais. Porém o próprio Estado gerou um projeto polêmico na região, a revitalização turística do caminho histórico do Itupava. Um dos principais sítios arqueológicos do Estado, o Itupava, após anos de abandono evidentemente necessitava de obras de recuperação e restauro. Porém, um programa chamado Pró-Atlântica investiu um milhão de reais de forma pouco comprometida com o futuro do caminho, do parque ou da população local. O projeto poderia catalizar interesses para o parque, integrando a população e rompendo a letargia do turismo como fonte de renda em contraposição à mineração. Poderia agregar e incrementar projetos das ONGs que atuam no local e fortalecer a estrutura física do Estado na área. Entretanto, o projeto foi um futuro que ficou no passado. Praticamente ignorou as ONGs, foi indiferente com a população que desconheceu o projeto (a quem limitou-se a apresentações formais), além de não deixar para o Estado todas as obras prometidas, com pontes e Centros de Visitantes em locais estratégicos.
Mesmo com as obras não completadas, a visitação do caminho vem sendo incrementada com a propaganda, obrigando o Instituto Ambiental do Paraná a pôr o pé na área, de forma voluntariosa, mas improvisada, em um trailer e em uma casa alugada. O risco de incêndios é grande na região e o Corpo de Socorro em Montanha relatou três acidentes com mortes após a inauguração do caminho. Com tudo isto, infelizmente, a gestão pública do Itupava e do próprio parque estadual pode ser considerada, um milhão de reais depois, completamente deficiente e precária.
Por outro lado, algumas ações realizadas no parque já o consideram um bem coletivo digno de proteção há muitos anos. É o caso de projetos de montanhistas que adotaram o parque e recuperam trilhas, salvam acidentados, prevêem acidentes e combatem incêndios. Trata-se do conhecido Programa “Adote uma Montanha”, mantido pelas federações de montanhismo do país. Na contramão deste programa foi avaliado um projeto privado para construção de uma estrada para asa deltas, que gerou vários danos ao local e deixou um grande passivo, que ainda está longe de ser sanado.
Um outro objetivo do estudo foi sugerir propostas para a consolidação do parque como área de conservação do patrimônio histórico e natural, bem como para seu uso público equilibrado. Para isto os estudos foram divulgados na imprensa e em sites da internet e cópias preliminares e parciais foram disponibilizadas para um grupo inicial de cerca de 30 pessoas que puderam sugerir modificações a serem incorporadas aos documentos. Posteriormente, em fins de fevereiro de 2007, uma versão preliminar do dossiê com cerca de 50 páginas foi também disponibilizada para consulta pública, sendo para isto criado um blog na internet. Além destes documentos, reuniões periódicas ocorreram em Quatro Barras, Piraquara e Curitiba, com o intuito de debater o andamento do estudo e discutir temas a serem pesquisados. Um debate parcial foi realizado na Pontifícia Universidade Católica do Pr (PUC), em 15 de março de 2007. A apresentação final foi na Semana da Montanha, em maio de 2007.
Este documento teve raiz no montanhismo como parcela organizada da sociedade. Os montanhistas costumam ser apresentados como essencialmente individualistas, ou até mesmo alienados, muito interessados em atingir seus cumes e seus objetivos particulares, mas pouco preocupados com o mundo que vislumbram. No entanto, este estudo serviu como um catalisador de interesses em prol de um objetivo comum, que é o de viabilizar a implantação do Parque Estadual da Serra da Baitaca, uma área de prática do montanhismo por excelência, mas altamente relacionada com a sustentabilidade da Região Metropolitana de Curitiba. Por isto, na prática constatou-se que o estudo seria inviável sem a participação de grande número de pessoas, às quais devem ser creditadas principalmente o interesse e a preocupação a respeito do Parque da Baitaca.
A história deste parque mostra desencontros, resolução de conflitos que exigem consensos, boa vontade para o que está dando certo, humildade para os erros. Mas principalmente uma grande dívida para com o Paraná e a necessidade de espírito público (nem sempre presente) por parte de quem toma as decisões.
PARA VER MAIS:
STRUMINSKI, E. Dossiê Baitaca. Associação Caiguava de Pesquisas. Curitiba: 2007.
Piraquara tem a vocação natural pela sustentabilidade. Para que tal aspiração seja cumprida há a necessidade de que todas as esferas de decisão no município integrem a sustentabilidade em suas decisões. Contudo, a observação das ações no município, em contraponto ao discurso, mostra evidências de que nem iniciamos de forma efetiva a jornada pela sustentabilidade ainda.
Exemplo desta dicotomia é o festival Lupa-Luna onde os moradores da região não foram sequer consultados quanto a sua realização. Imaginem quantos pais e mães que trabalharam a semana inteira e buscam no final de semana a oportunidade para descansar ao lado da família e não conseguem dormir porque um festival que utiliza o moto da ecologia não lhe deixam dormir em paz. O paradoxo do discurso e da prática neste festival tem um ícone passível de observar a grande distância no período da noite: a pobre da araucária a beira da BR 116 que tem vários canhões de luz apontados para seu topo. Se eu fosse um dos habitantes daquela árvore faria minhas malas o mais breve possível com tamanha intrusão.
O que mais me preocupa é a possibilidade de que empresários, funcionários e público de um evento como esse acreditem genuinamente que o evento contempla de forma adequada os princípios da sustentabilidade. Obviamente não há verdade absoluta em um conceito tão emergente como a sustentabilidade mas certamente o respeito aos outros indivíduos do eco-sistema em que vivemos é um axioma mínimo para quem pretende realizar eventos com este moto.
Quando uma prefeitura e empresários passam a entender que podem ignorar os direitos de uma família sequer, imaginem a sociedade que estão moldando para o futuro. Os alvarás e autorizações nos orgãos oficiais podem tornar tal evento legalmente legitimado mas não mudam o fato do mesmo ser imoral e demagogo em seu formato. Talvez o maior prejuízo para a sociedade é o fato de perder-se aqui a oportunidade de se dar o exemplo, de se educar em escala, de efetivamente contribuir para uma sociedade mais sustentável.
Desejo aos que participarão do evento (funcionários, bandas, etc) o máximo de diversão possível dado as circunstâncias. Aos moradores da região, particularmente aqueles de baixa renda e que na prática não tem voz neste processo, fica a minha esperança de festivais de música no futuro efetivamente mais éticos ambiental, econômica e socialmente.